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sábado, fevereiro 28

BARCAÇA_65

Boa noite, nestas viagens pelo Mondego num mês difícil onde as águas invadiram trilhos antigos e mais uma vez visitaram as povoações, uma palavra de apreço para todos os que se prontificaram em ajudar um povo que estava perdido entre os degraus de sua casa e as estradas cobertas de água que os deixaram mais uma vez sós.

Mas a nossa Barcaça segue o seu caminho divulgando o que nos vai na alma, seja em forma de poesia, em histórias como na divulgação do nosso património.

Pontos Sem Fim, uma resenha do que se passou no distrito de Coimbra com as cheias e a ventania.

Fernando Curado que mensalmente aqui divulga histórias do património da Figueira da Foz nesta edição traz-nos “FIGUEIRA DA FOZ - O CASAMENTO DO 1º JUÍZ DE FORA”.

Carla M. Henriques, um tema atualíssimo a mãe natureza, já António Girão debruça-se sobre um tema também na ordem do dia, “Qual a razão para insegurança nalgumas localidades do interior?”

 Na secção de Poesia Garça Real os seus sonhos, como desejaria ou como deseja encontrar o dia de amanhã. Isabel Capinha como saindo de casa e vagueado pelos campos onde sente os odores e vê as cores do nosso campo. Isabel Tavares mergulha na sua praia conjugando as palavras pela positiva, onde o amor, afeto e esperança está sempre presente. Isabel Rama como tivesse entrado na Barcaça e percorrendo o seu leito sente agonia de uma população “- Aí, Jesus! Meu Deus!”

Na livraria escolhi “Rezar de olhos abertos” de José Tolentino Mendonça

E cito: “Há pessoas que rezam baixando os olhos, escondendo nas mãos o rosto, voltando-se para dentro. Há outras, porém, que abrem esforçadamente os olhos ao rezar, numa tentativa de observar a vida no seu espanto. Quer umas, quer outras - estão certas.”

Já na Música escolho Zeca Afonso num tema que tanto nos diz. Em Balada do Outono | José Afonso ao vivo no Coliseu 1983    


Aqui vai um relato detalhado e factual sobre os momentos e consequências das cheias e inundações que afetaram o Centro de Portugal em 2026, com foco nas zonas de Montemor-o-Velho, Coimbra, Ereira, e Figueira da Foz, e o impacto nos habitantes dessas comunidades:


🌧️ Contexto meteorológico e causa das cheias

No início de 2026, o território português foi atingido por uma série excepcional de tempestades atlânticas, um verdadeiro comboio de tempestades, com precipitação persistente e intensa e ventos fortes, incluindo a depressão Storm Kristin, uma das mais violentas já registadas no país.

Este padrão de tempo extremo gerou volumes de chuva recorde, saturou solos e rios e sobrecarregou barragens e sistemas de drenagem, precipitantes da crise hidrológica na bacia do rio Mondego.


🌊 Situação em Coimbra e no vale do Mondego

Inundações, risco e evacuações

·      A cidade de Coimbra enfrentou níveis de precipitação históricos — com mais de 1 200 mm de chuva entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026 — um recorde absoluto na região.

·      As inundações foram impulsionadas pelo transbordo do rio Mondego e seus afluentes, com risco de grande cheia que poderia atingir até a baixa da cidade.

·      Autoridades emitiram alertas máximos e realizaram ações de evacuação preventiva de milhares de habitantes nas zonas ribeirinhas, com cerca de 3 000 pessoas retiradas de áreas de risco em torno de Coimbra, Montemor-o-Velho e Soure.

·      Casas, infra-estruturas e serviços básicos sofreram danos severos, incluindo estradas, mercados e parte das muralhas históricas.

👥 A “agonia” dos habitantes — relatos de moradores contaram dias de incerteza, vigilância constante do nível do rio, deslocamentos forçados, comunidades isoladas e interrupção de vida normal (escolas, comércio, serviços).


🏘️ Montemor-o-Velho e Ereira: zonas baixas isoladas

·      A freguesia de Ereira, no concelho de Montemor-o-Velho, tornou-se literalmente uma ilha cercada pelas águas por mais de uma semana, isolando moradores, agricultura e comércio locais pelo transbordo do Mondego e a saturação dos canais adjacentes.

·      Comunidades agrícolas, particularmente arrozais e campos de produção, ficaram totalmente submersos, transformando estradas em rios e interrompendo ligações essenciais com centros urbanos e entre vizinhos.

·      A junta local denunciou, além das cheias, a falta de manutenção adequada das infra-estruturas de contenção como fator que agravou a situação, deixando muitos sentir-se desamparados perante a emergência.

A agonia de muitos residentes passou por dias sem acesso fácil a serviços de socorro, abastecimento e comunicação, e pelo medo constante de novos surtos de água isolarem ainda mais as zonas rurais.


🚧 Figueira da Foz: impactos e rescaldo

Embora Figueira da Foz, na foz do Mondego, tenha sido mais afetada por impacto meteorológico e consequências indiretas do temporal do que por cheias tão intensas como nas zonas interiores, a região enfrentou desafios:

·      Estradas importantes como a A14 ficaram inoperacionais por longos períodos devido a danos causados pelas inundações e água acumulada.

·      A logística, comércios e transporte sofreram interrupções, deixando residentes e empresas locais numa sensação de limbo até à normalização das ligações.

·      A cidade também viveu outras emergências humanitárias (como incêndios noutros locais), o que reforçou a sensação de instabilidade geral no distrito de Coimbra.


🧠 Impacto humano e emoções na população

A experiência dos habitantes dessas áreas durante as cheias de 2026 incluiu:

·      Evacuações forçadas e noites sem dormir, com famílias a reunir-se em abrigos ou casas de amigos/familiares fora da zona inundada.

·      Medo da perda de bens, casas e rendimentos, especialmente para agricultores que viram safras e infra-estrutura rural destruídas.

·      Sentimento de impotência e desamparo, vincado por críticas à manutenção da infraestrutura hidráulica e respostas oficiais, que muitos consideraram lentas ou insuficientes.

·      A comunidade enfrentou também dificuldades práticas — corte de estradas e comunicações, falta de acesso a serviços básicos e necessidades urgentes de ajuda humanitária.


📌 Resumo

👉 Um comboio de tempestades consecutivas no início de 2026 trouxe chuva e ventos extremos, saturando solos e enchendo rios.
👉 O Mondego e seus afluentes transbordaram, com consequências dramáticas em Coimbra, Montemor-o-Velho e Ereira: populações evacuadas, aldeias temporariamente isoladas e campos inundados.
👉 Figueira da Foz, embora mais perto da foz, enfrentou impactos nas comunicações e transporte, acentuando o sentimento de crise.
👉 Para muitos habitantes, foram dias de incerteza, medo e luta para proteger o que mais importa — famílias, casas e modos de vida. 

        FIGUEIRA DA FOZ - O CASAMENTO DO 1º JUÍZ DE FORA

José de Seabra da Silva, natural de S. Martinho da Torre de Vilela (Coimbra), estadista marcante da segunda metade do século XVIII, ministro de D. José I, de 1771 a 1774, e de D. Maria I, de 1788 a 1799, adquiriu a Quinta do Canal em 1770.


No ano seguinte, em 1771, por decreto de 12 de março, a Figueira foi elevada a vila e recebeu Bento José da Silva como seu 1º Juiz de Fora, o qual tomou posse em 30 de julho de 1771, então com 35 anos, tendo desempenhado o cargo até 1774.


O Juiz de Fora era nomeado pelo Rei, e representava-o, e assim era denominado porque deveria ser estranho ao concelho para o qual era designado e, não dependendo do poder local, o tornava mais isento nas decisões judiciais.


Bento José da Silva, conterrâneo e amigo de José de Seabra da Silva, o dono da Quinta do Canal, então ministro de D. José I, terá tido papel importante na nomeação do seu amigo para 1º Juiz de Fora da Figueira.

Bento José da Silva, então com 46 anos, casou na capela da Quinta do Canal com D. Caetana Efigénia de Salazar Vasconcelos da Silva e Crato, vinte anos mais nova.

O casamento realizou-se no dia 28 de janeiro de 1782 e os padrinhos foram José de Seabra da Silva, o proprietário da Quinta do Canal, e sua esposa D. Ana Felícia Coutinho Pereira de Sousa Tavares da Horta Amado Cerveira.


O padre, D. José da Costa Torres, celebrou o ato solene num bonito e valioso altar, que está hoje em Barra, na Capela de Nossa Senhora do Rosário.


A noiva, Caetana Efigénia, com 26 anos, sexta filha do Juiz da Alfândega, José Lázaro da Silva, e de Maria Rosa Beatriz, nasceu na Figueira da Foz a 27 de outubro de 1756.


Caetana Efigénia foi batizada em 17 de novembro do mesmo ano, pelo padre Manoel Thomaz, sendo padrinhos o cónego Caetano de Figueiredo e a sua tia Marcelina Josefa Caetano.


Caetana Efigénia tinha 15 anos quando o seu futuro marido, Bento José da Siva, chegou à Figueira da Foz, em 1771, para ocupar o lugar de 1º Juiz de Fora.


Bento José da Silva frequentava a casa do Juiz da Alfândega, José Lázaro da Silva, onde conheceu e se apaixonou pela sua filha, Caetana Efigénia.


A mãe da noiva, Maria Rosa Beatriz, e as sete tias da noiva, irmãs de Maria Rosa, eram conhecidas na Figueira como “as senhoras alfândegas”.


No dia 1 de novembro de 1781, José Seabra da Siva e o seu irmão Lucas Seabra da Silva, assinaram na Quinta do Canal, como testemunhas, a escritura em que Bento José da Silva se comprometeu a casar com Caetana Efigénia.


Caetana Efigénia e a mãe, Maria Rosa Beatriz, estavam representadas por Joaquim Inácio de Salazar e Vasconcelos, irmão da noiva, que, como procurador, em nome da noiva, declarou aceitar a promessa de casamento “o que fazia também o seu futuro esposo e que aceitava o dote que com ele se dotava para sustentação dos encargos de matrimónio para cujo efeito se dotava também com a legítima paterna” e, por parte da mãe, disse mais que esta, pelo grande gosto que tinha de que se efetuasse o casamento e para sustentar os encargos dele, “além dos vestidos e outros ornatos que a noiva levasse”, a dotava com a terça dos bens que ficassem pelo seu falecimento e com as heranças que lhe vinham da mãe, em Tomar.


A noiva, formosa e elegante, parecia uma antiga dama da corte francesa, com cabelos loiros, penteado à Maria Antonieta, herança atávica que lhe vinha dos Cratos de Krafteim.


Bastaria pensarmos que Caetana Efigénia era sobrinha das “senhoras Alfândegas”, irmãs de sua mãe, com quem convivera durante toda a sua infância e mocidade, especialmente com a sua tia Isabel Peregrina.


O noivo, Bento José da Silva, era um quarentão com boa presença, juiz, deputado, tesoureiro geral da Junta de Administração da Fazenda da Universidade.


Muito orgulhosos estavam os pais da noiva, pois casavam a sua filha com um homem importante, sob os auspícios do Dr. José Seabra da Silva, rico, ministro e próximo da família real.


O casamento realizou-se na Quinta do Canal no dia 28 de janeiro de 1782.

No Natal anterior, Bento José da Silva passou a festa Natalícia em casa dos futuros sogros, onde pernoitou.


Em 26 de setembro de 1782 nasceu a primeira filha do casal, a menina Maria Justina, oito meses depois do casamento e nove meses após a festa Natalícia.

Nos últimos dias, a mãe natureza falou alto.

Falou com chuva que não pediu licença, com trovoada que nos acordou por dentro, com um vento tão forte que pareceu que o mundo perdeu o eixo. E, de repente, o país ficou virado do avesso. Pessoas sem água. Sem luz. Sem comunicações. Coisas simples, básicas, que só percebemos o quanto valem quando nos faltam.

E é impossível não sentir isto como um aviso!

Porque a natureza tem esse poder de nos pôr no lugar. De nos lembrar, sem palavras, que a vida muda num segundo. Que aquilo que damos por garantido não é garantido. Que a segurança é, tantas vezes, uma ilusão tranquila.

Depois, quase como se nada tivesse acontecido, ela muda de rosto.

A tempestade abranda, o céu abre, a luz volta. E há uma beleza tão serena nisso, tão limpa, tão brilhante, que eu fico a pensar se não somos também assim. Nós. A vida. Um dia por cima, outro dia por baixo. Um dia caos, outro dia paz. Um dia medo, outro dia recomeço.

E eu pergunto-me, em silêncio, se não haverá algo para aprender com tudo isto?!?

Acho que sim. Há. Há mesmo!

Aprender a não adiar o que importa. A não viver sempre como se houvesse tempo infinito. A aproveitar melhor o que não se compra: presença, silêncio, conversas, abraços, casa, pessoas, pequenos instantes que nos salvam sem darem por isso.

Claro que precisamos de uma casa. De água. De luz. De condições básicas.

Mas talvez também precisemos de outras coisas, que não se veem: mais calma, mais leveza, mais respeito pelo essencial. Pelos outros. Por nós. Menos pressa. Menos ruído. Menos distrações a roubar-nos a vida. E o seu sentido e valor!

E, acima de tudo, talvez a mãe natureza esteja só a pedir-nos uma coisa simples e enorme ao mesmo tempo.

Que a protejamos. Que a respeitemos. Porque isso significa, na verdade, respeitar-mo-nos e proteger-mo-nos.

Porque, lembremo-nos sempre, quando ela treme, nós trememos com ela. 🤍

QUAL A RAZÃO PARA A INSEGURANÇA NALGUMAS LOCALIDADES DO INTERIOR?!

Não querendo ser arauto da verdade, pois analiso as situações perante a minha experiência de vida (social, profissional e académica).

O problema é estrutural e cultural: instalou-se a cultura de eleição de pessoas para determinados cargos assente em premissas como a cor partidária, o comportamento individual perante as respostas do coletivo e o "jeito" que a junção destas duas situações possa dar. A capacidade, o conhecimento, o mérito e outras bases essenciais para o desempenho de determinadas funções são desprezadas ou anuladas. Enquanto a função vai sendo meramente administrativa e política, as coisas fluem sem nós, vão andando.

Quando os imprevistos começam a aparecer, a pouca capacidade (estou a ser politicamente correto) de os resolver aparece e, aparece da pior forma: nada é resolvido e a bola de neve adensa-se, até tornar-se uma avalanche. A criminalidade, nalguns casos, parece-me ser um caso desses, uma falta de visão proactiva preocupante: não se conhecem as peças do jogo que devam ser jogadas e inicia-se a técnica do tapa-buracos e o buraco alarga-se a aprofundasse até se tornar sem fundo. Normalmente, as pessoas mal preparadas (ou impreparadas) para o desempenho de uma função não aceitam opiniões, pois isso choca com a incompetência e a resolução dos problemas. Então, qual a razão para essas pessoas estarem no poder micro-local (a expressão é minha)?!

O caciquismo, os interesses instalados, a dependência, seja por qual razão seja e os compadrios. Forma-se uma barreira intransponível!

Outra razão está diretamente ligada às forças de segurança, sobre a qual tenho opinião formada, mas não a dou, pois "há sempre quem tenha razão" e os outros são tratados como "malucos", só porque incomodam. Quando se conhece a razão de um problema, diz a ciência que é meio caminho andado para o resolver.

Então, não se resolve porquê?!

Talvez apareçam outras situações (não lhes chamo interesses, para não parecer mal) corporativos, de defesa entre pares que impossibilita ir à raiz da questão e resolvê-la. Aqui, reside o ponto fulcral: quais são esses interesses?!

Eu sei quais são e como se resolveriam, mas isso iria mexer com muita coisa, com ambições políticas, profissionais, pessoais, familiares e por aí além.

Vivo em Cantanhede há cerca de quinze anos e já ouvi milhares de vezes que a culpa é de quem vem de fora. A nossa região tem excelentes pessoas que são de cá, tem excelentes pessoas que vêm de fora e tem gente que não presta, também de ambas as situações. Isto para dizer o quê?!

Para dizer que, enquanto houver "doutorados em balcão de tasca" a opinar sobre o que não sabem e a trucidar quem sabe, a insegurança nunca acabará.

Mais uma vez, porquê?!

Simples: isso iria mexer com o primo do neto da tia, do cunhado da prima desses "opinadores" e o crime é necessário para essa gente e, como no velho ditado "cães e lobos comem todos" e não interessa "fazer ondas", sob pena de se "destapar o cu" a muita gente. Vai-se vivendo "nas papas e bolos", enganando todos (não é tolos, é mesmo todos!)

 🙂Resumindo: há que tomar decisões sérias, bem fundamentadas, com exposições, sobretudo ao poder local, nas suas várias vertentes: político; de segurança e de instituições de cidadãos que possam fazer parte do processo. Mas, com coerência, com unidade e com assertividade. Ir aos lugares certos, com as palavras certas, a razão certa, sem medo, pois somos uma sociedade democrática que deve funcionar "oleadamente" sem "pedras na engrenagem". Sobre isto, muito há a dizer e muito mais a fazer, basta olhar à nossa volta, em que a vítima é quase sempre tida como a culpada, porque isso interessa à passividade. E, estou a ser muito meigo!



         Agora que a vida

tem um sabor novo

não vou desistir

dos sonhos de outrora…

Regressarei serena

e autêntica

às manhãs azuis

que as nuvens esconderam…

Encontrarei, intactas,

as pétalas desse passado

que a névoa ocultou

e o vento desfolhou …

Encontrarei a flor saudosa

ainda à espera deste agora renovado.


OUTRA TERRA - VERDES CAMPOS

 

Verdes campos, vastos e serenos,

onde o vento dança entre as folhas,

e a terra respira em silêncio,

como se guardasse segredos do mundo.

 

Nos verdes campos,

as flores brotam como estrelas tímidas,

colorindo o chão com suas cores,

é o abraço da terra

que acolhe tudo o que lá nasce.

 

O céu, de um azul sem fim,.

olha de longe, atento e sereno,

como um guardião do que é puro.

 

Os verdes campos são mais que paisagem,

são um refúgio da alma,

um lugar onde o coração encontra paz,

onde se aprende, no seu silêncio,

que a beleza não está nas coisas,

mas na quietude de um instante.

 

Ali, não há pressa,

não há agitação,

apenas o ritmo do vento

e o sussurro das folhas que contam histórias.

 

E é ali, entre as cores e os aromas,

que compreendo que o mundo é simples,

feito de vida, terra e amor.


MUNDO INFINITO

Quando a vida me alegra

Quando o sol me sorri

Quando o sonho me apanha

Quando a luz está em mim.

 

Quando o coração extravasa

Tanto amor que eu sinto

Abro os braços e agarro

Este mundo… infinito.

 

Quando afago com os olhos

Tanta coisa… tão bela

Sinto-me mergulhada

Em brandura e sossegos.

 

Quando os dias em flor

Se desfolham em mim

Eu aspiro esse amor

E faço dele um jardim.


Vozes de Janeiro: O Lamento do Mondego

 

Era uma noite como tantas outras de janeiro. Na pequena freguesia da Ereira, concelho de Montemor-o-Velho, uma avó desfilava memórias, contando ao neto, Gustavo, histórias de tempos em que as águas não pediam licença para entrar.

Lá fora, a praia fluvial — que no verão transborda com as gargalhadas e as correrias das crianças — repousava agora sob um silêncio baço, iluminada apenas pelo brilho solitário de um candeeiro. O Mondego parecia aquietar-se num abismo profundo...

Mas, de repente, a tempestade anunciada rasgou a calma, varrendo ferozmente tudo o que encontrava pelo caminho.

Na escuridão das casas, o medo ganha forma. Ecoam preces e sussurros que o vento, no seu açoite, ensurdece:

— Aí, Jesus! Meu Deus!

Telhados são desmembrados pela mão fria do temporal e o céu, carregado, parece chorar as dores das cheias de outrora. Vozes perdem-se neste inferno noturno; recordações que a alma preferia não resgatar. Indiferente ao pânico, mas vítima da sua própria força, o Mondego corre com uma fúria clamando por clemência. Na sua voz de lama e corrente, o rio parece suplicar:

— Olhai por mim! O meu leito já não suporta o fardo de tanta água; sufoco na minha própria imensidão.

Gustavo, encolhido sob a manta de lã grossa que a avó tricotara em invernos mais calmos, sentia o tremor do chão sob os seus pés descalços. O som não era apenas o do vento; era um rugido grave, vindo do ventre da terra, como se o rio estivesse a tentar saltar as margens para fugir de si mesmo.

— Avó, o rio está a chorar? — sussurrou o menino, com os olhos fixos na janela onde a chuva batia como se quisesse estilhaçar o vidro.

A velha senhora não respondeu de imediato. As suas mãos, sulcadas pelo tempo como o leito do próprio rio, apertaram o terço de madeira.

— Não está a chorar, meu filho — disse ela, com a voz embargada. — Está a pedir espaço. Nós tirámos-lhe as margens, demos-lhe muros de betão e esquecemo-nos que ele tem memória. O que ouves é o Mondego a reclamar o que sempre foi seu.

Lá fora, um estalido seco ecoou: um salgueiro centenário cedia finalmente à fúria da corrente. A água, negra e voraz, começava a lamber as primeiras pedras do cais, subindo a rua como uma serpente silenciosa. O candeeiro da rua soltou uma última faísca azul e apagou-se. A escuridão era agora total, restando apenas o brilho das brasas na lareira.

Mas, como todas as tempestades, o vento começou finalmente a cansar-se. O uivo transformou-se num sopro húmido e o Mondego, exausto, começou a recolher-se.

Quando os primeiros raios de sol rasgaram as nuvens, uma luz dourada refletiu-se nos espelhos de água.

— Olha, avó! — exclamou o menino.

Lá fora, as portas abriam-se. Vizinhos chamavam uns pelos outros; o Sr. Joaquim trazia a sua barca para ajudar; a D. Maria trazia pão quente. Era um formigueiro de braços dados, uma força que nenhuma cheia conseguia arrastar.

A avó pousou a mão no ombro de Gustavo e sorriu:

— Vês, meu filho? O rio pode ser forte, mas a nossa raiz é mais funda. Ele leva a terra, mas nós trazemos sempre o amanhã de volta.


"Há pessoas que rezam baixando os olhos, escondendo nas mãos o rosto, voltando-se para dentro. Há outras, porém, que abrem esforçadamente os olhos ao rezar, numa tentativa de observar a vida no seu espanto. Quer umas, quer outras - estão certas."


Concerto no Coliseu de Lisboa a 29 de Janeiro de 1983


BARCAÇA_65

Boa noite, nestas viagens pelo Mondego num mês difícil onde as águas invadiram trilhos antigos e mais uma vez visitaram as povoações, uma pa...