Número total de visualizações de páginas

domingo, fevereiro 1

Barcaça_64

 FOI EM 2021



"BARCAÇA" um projeto local e independente ligado ao concelho de Montemor-o-Velho (distrito de Coimbra, Baixo Mondego.)

O que é o Blog Barcaça?

·      É blog coletivo e plural, ativo desde 2021, criado como uma "barcaça" metafórica — uma embarcação que "navega" por temas locais, dando voz a diferentes visões.

· Conteúdo: Artigos sobre política regional, associativismo, desporto, história e monumentos, poesia, agricultura, formação e vida quotidiana no concelho.

·       Tinha inicialmente colaboradores fixos para secções (ex.: desporto por "TOPSECRET", associativismo por Olímpio Fernandes, história por Mário Silva, poesia por várias autoras como Mara Kopke, Garça Real, Isabel Capinha). Hoje contam com mais alguns colaboradores, como Isabel Tavares, Antonio Girão, Fernando Curado, Isabel Rama, Carla M. Henriques, Maria Forte... mas sempre atento para novas entradas. 

·       Publica editoriais, reflexões sobre o Baixo Mondego, críticas sociais, desejos para o concelho (ex.: "vacina" para acordar Montemor para o mundo, associativismo nas freguesias).

· Tem um tom independente, plural e formativo, agradecendo leitores e colaboradores no final de cada "viagem" (ano).

·      Diretor/impulsionador: Luiz Pessoa (mencionado como "o nosso diretor da BARCAÇA", navegando pelas margens de vidas heroicas e ruralidade). Ele convidava colaboradores para escrever sobre temas locais.

·      Inspirado no rio Mondego e na tradição das barcaças (barcos tradicionais usados para atravessar o rio com animais e alfaias agrícolas, como a réplica existente no Esteiro da Ereira, em Montemor-o-Velho, que mencionei antes).

Contexto local O nome "Barcaça" evoca perfeitamente o património fluvial de Montemor-o-Velho: o Mondego, as várzeas, o arrozal, as antigas travessias de barca. O blog usava isso como metáfora para "navegar" ideias e opiniões pelo concelho, num espírito comunitário e cultural. Era apoiado por gente ligada ao associativismo local. Situação atual (2026) O blog tem a sua periocidade mensal, no final de cada mês, o que é comum em projetos voluntários locais. Luiz Pessoa @LPessoa1961 no X, que coincide com o teu (handle), talvez tenha sido o impulsionador ou colaborador — o blog tem um ar muito pessoal e enraizado na região!

Aqui vai um soneto original em português clássico, inspirado no rio Mondego e no concelho de Montemor-o-Velho, com ecos da tradição camoniana e da poesia do Baixo Mondego: o rio sereno que banha terras férteis, o castelo ancestral no morro, as planícies aluviais, as saudades e a eterna fluidez da água.

Soneto ao Mondego e a Montemor

Ó Mondego, que nasceste em neve alta e pura,
Da Estrela desces manso, em prata te desdobras,
E no Baixo te espraias, em campos que se cobras
De arroz e de morango, em luz que nunca escura.

Montemor, no teu outeiro, ergue o castelo altivo,
Guardião de velhas pedras, de reis e de fronteiras,
Vês o rio serpentear por várzeas verdadeiras,
Onde o tempo se detém num sussurro cativo.

Tu, rio de poetas, de Inês e de saudades,
Lavas as margens verdes, os sonhos e as verdades,
E em teu leito de espelhos refletes o luar.

Montemor-o-Velho sonha ao teu colo sereno,
Eterno é o teu curso, ó pai do Baixo pleno,
Que levas para o mar o que o coração não dá a guardar.

No concelho de Montemor-o-Velho (distrito de Coimbra, Baixo Mondego), a política local continua dominada pelo Partido Socialista (PS), que mantém o controlo da Câmara Municipal desde 2013 (e agora em 2026, após as autárquicas de outubro de 2025) Situação atual na Câmara Municipal (2025-2029)

·      Presidente da Câmara: José Teixeira Veríssimo (PS), eleito em outubro de 2025. Tomou posse em novembro de 2025, sucedendo a Emílio Torrão (também PS, que liderou de 2013 a 2025).

·      Resultados das autárquicas 2025:

·       PS: cerca de 46,7% dos votos → maioria absoluta com 4 mandatos na câmara (ligeira descida face aos 50,6% de 2021, mas ainda dominante).

·       Coligação PSD/CDS-PP ("Mudar Montemor, Juntos!"): cerca de 30,27% → 3 vereadores (oposição principal).

·       Movimento independente S.I.M. – Somos Independentes por Montemor-o-Velho: cerca de 14,31% → representação na assembleia municipal e possivelmente vereadores.

·       CDU (PCP-PEV): cerca de 3,75%.

·       Bloco de Esquerda: cerca de 1,27%.

·       Abstenção: cerca de 35,36%.

·      O PS destaca-se por políticas de equilíbrio financeiro, reforço de apoios sociais, transferências para juntas de freguesia e movimento associativo. Recentemente (dezembro 2025), aprovou o orçamento para 2026 de 43,7 milhões de euros (idêntico ao de 2025), com votos favoráveis do PS, contra da coligação PSD/CDS-PP (por não haver descida de impostos, apesar de promessas de campanha) e abstenções do S.I.M. e CDU.

Outros aspetos relevantes

·      O Chega tentou concorrer nas autárquicas de 2025, mas as listas foram chumbadas pelo tribunal local (recurso ao Constitucional sem sucesso aparente), pelo que não tem representação eleita no concelho.

·      A nível nacional/presidencial (eleições de 18 de janeiro de 2026), o concelho tem sido palco de ações de campanha: André Ventura (Chega) fez jantar-comício recente, Cotrim de Figueiredo (IL) visitou fábricas locais (ex.: queijadas), António José Seguro (PS) provou morangos numa empresa hortofrutícola. Isso reflete o interesse em mobilizar eleitores locais, mas não altera o domínio PS na autarquia.

·      O executivo PS (com maioria) foca-se em estabilidade, proximidade às freguesias (11 no total), funções sociais e manutenção de taxas fiscais (IMI, Derrama, IRS sem agravamento).

  • No domínio da fiscalidade municipal, a Assembleia Municipal aprovou igualmente, por maioria, a manutenção das taxas de IMI, IMI familiar, Derrama e IRS, prosseguindo uma política fiscal equilibrada, que procura conciliar a capacidade de execução municipal com o não agravamento da carga fiscal das famílias e empresas do concelho. A taxa de IRS mantém-se nos 4,5%, permitindo a devolução de 0,5% aos residentes fiscais, o IMI fixa-se nos 0,34% e a derrama nos 1,4%.

Em resumo, Montemor-o-Velho permanece um "feudo" socialista a nível local, com oposição moderada do centro-direita (PSD/CDS) e independentes. Não há grandes turbulências ou mudanças radicais recentes — o foco está na gestão quotidiana, obras e apoios sociais. Para detalhes mais atualizados (ex.: atas de reuniões ou notícias de hoje), consulta o site oficial da Câmara (cm-montemorvelho.pt) 


𝙁𝒊𝙜𝒖𝙚𝒊𝙧𝒂 𝒅𝙖 𝙁𝒐𝙯: 𝒓𝙤𝒕𝙚𝒊𝙧𝒐 𝒅𝙖 𝙘𝒊𝙙𝒂𝙙𝒆, da autoria de Manuel Ayres Falcão Machado.


Esta obra foi visada e aprovada pelo Secretariado Nacional de Informação Cultura Popular e Turismo, nos termos do Decreto n.º 34.134, de 24 de novembro de 1944.




𝘈 𝘱𝘢𝘳 𝘥𝘢𝘴 𝘴𝘶𝘢𝘴 𝘯𝘢𝘵𝘶𝘳𝘢𝘪𝘴 𝘦 𝘤𝘢𝘵𝘪𝘷𝘢𝘯𝘵𝘦𝘴 𝘣𝘦𝘭𝘦𝘻𝘢𝘴, 𝘢 𝘍𝘪𝘨𝘶𝘦𝘪𝘳𝘢 𝘥𝘢 𝘍𝘰𝘻 𝘯𝘢̃𝘰 𝘥𝘦𝘪𝘹𝘢 𝘥𝘦 𝘤𝘢𝘥𝘢 𝘷𝘦𝘻 𝘮𝘢𝘪𝘴, 𝘮𝘢𝘳𝘤𝘢𝘳 𝘶𝘮𝘢 𝘱𝘰𝘴𝘪𝘤̧𝘢̃𝘰 𝘥𝘦 𝘱𝘳𝘰𝘨𝘳𝘦𝘴𝘴𝘰, 𝘥𝘦 𝘵𝘢𝘭 𝘮𝘰𝘥𝘰 𝘲𝘶𝘦 𝘯𝘢̃𝘰 𝘴𝘦𝘳𝘢́ 𝘥𝘦 𝘦𝘴𝘵𝘳𝘢𝘯𝘩𝘢𝘳 𝘷𝘦̂-𝘭𝘢, 𝘥𝘦𝘯𝘵𝘳𝘰 𝘥𝘦 𝘱𝘰𝘶𝘤𝘰 𝘵𝘦𝘮𝘱𝘰, 𝘴𝘦𝘳 𝘢 𝘨𝘳𝘢𝘯𝘥𝘦 𝘤𝘪𝘥𝘢𝘥𝘦 𝘥𝘰 𝘮𝘢𝘳 𝘥𝘦 𝘱𝘳𝘢𝘵𝘢 𝘥𝘦 𝘢𝘳𝘦𝘪𝘢𝘴 𝘥𝘦 𝘰𝘪𝘳𝘰, 𝘰 𝘤𝘦𝘯𝘵𝘳𝘰 𝘥𝘪𝘭𝘦𝘤𝘵𝘰 𝘥𝘦 𝘵𝘰𝘥𝘰𝘴 𝘰𝘴 𝘱𝘰𝘳𝘵𝘶𝘨𝘶𝘦𝘴𝘦𝘴 𝘦 𝘦𝘴𝘵𝘳𝘢𝘯𝘨𝘦𝘪𝘳𝘰𝘴 𝘢𝘮𝘢𝘯𝘵𝘦𝘴 𝘯𝘢̃𝘰 𝘴𝘰́ 𝘥𝘢 𝘣𝘦𝘭𝘦𝘻𝘢 𝘤𝘢𝘵𝘪𝘷𝘢𝘯𝘵𝘦 𝘥𝘢𝘴 𝘴𝘶𝘢𝘴 𝘱𝘢𝘪𝘴𝘢𝘨𝘦𝘯𝘴 𝘦 𝘥𝘰 𝘢𝘱𝘳𝘦𝘤𝘪𝘢𝘥𝘰 𝘴𝘰𝘴𝘴𝘦𝘨𝘰 𝘲𝘶𝘦 𝘰𝘧𝘦𝘳𝘦𝘤𝘦, 𝘢𝘭𝘦́𝘮 𝘥𝘦 𝘭𝘩𝘦𝘴 𝘳𝘦𝘷𝘪𝘨𝘰𝘳𝘢𝘳 𝘢𝘴 𝘦𝘯𝘦𝘳𝘨𝘪𝘢𝘴 𝘦 𝘦𝘴𝘱𝘢𝘪𝘳𝘦𝘤𝘦𝘳 𝘰 𝘦𝘴𝘱𝘪́𝘳𝘪𝘵𝘰

Este roteiro pela cidade da Figueira da Foz convida o leitor a descobrir o seu património cultural, com particular destaque para museus e monumentos emblemáticos. Entre os exemplos apresentados nesta publicação contam-se o Museu Santos Rocha, instalado no segundo andar do edifício dos Paços do Concelho, a Casa do Paço, o pelourinho e o Forte de Santa Catarina.

Neste opúsculo é ainda possível rever imagens representativas, nomeadamente da praia, do Grande Hotel da Figueira, da Piscina Praia e de um trecho da Serra da Boa Viagem, de onde se avista, ao fundo, a cidade e a enseada de Buarcos.

O leitor encontrará também, organizados por ordem alfabética, os nomes das antigas ruas da cidade e as respetivas alterações ao longo do tempo. A publicação encerra com um interessante retrato da época, dando a conhecer, através dos anúncios incluídos, o comércio e as empresas de serviços então existentes.

Este e muitos outros documentos podem ser consultados 𝗻𝗮 𝗦𝗮𝗹𝗮 𝗙𝗶𝗴𝘂𝗲𝗶𝗿𝗲𝗻𝘀𝗲 𝗱𝗮 𝗕𝗶𝗯𝗹𝗶𝗼𝘁𝗲𝗰𝗮 𝗣𝘂́𝗯𝗹𝗶𝗰𝗮 𝗠𝘂𝗻𝗶𝗰𝗶𝗽𝗮𝗹 𝗣𝗲𝗱𝗿𝗼 𝗙𝗲𝗿𝗻𝗮𝗻𝗱𝗲𝘀 𝗧𝗼𝗺𝗮́𝘀.

Das eleições domésticas à política internacional

Em cada eleição presidencial, tende a repetir-se o mesmo ritual: debates centrados na economia doméstica, na segurança interna, na moralização da política ou na proximidade do candidato ao “cidadão comum”. A política externa surge quase sempre em segundo plano, como se o país pudesse suspender a sua relação com o mundo durante o tempo que dura uma campanha eleitoral.

E, no entanto, raramente o mundo esteve tão presente na vida quotidiana dos eleitores.

Conflitos armados, alianças e desalianças internacionais, fluxos migratórios, crises energéticas ou decisões tomadas em cimeiras longínquas fazem-se sentir nos preços, na segurança e até no horizonte de expectativas de cada cidadão. Fingir que a política externa é um assunto técnico, distante ou reservado a comentadores mais ou menos informados ou condicionados e de diplomatas é, no mínimo, um exercício de ingenuidade coletiva.

As eleições presidenciais são, inevitavelmente, um momento de escolha simbólica.

Escolhe-se não apenas uma pessoa, mas uma determinada forma de representar o país no exterior, de interpretar os compromissos internacionais e de reagir às pressões de um mundo instável. Mesmo quando os poderes formais do cargo são limitados, a palavra presidencial tem peso, eco e consequências. Um gesto, uma declaração ou um silêncio podem reforçar alianças, fragilizar consensos ou projetar uma imagem de responsabilidade — ou de imprevisibilidade do nosso país, quem sabe de capacidade ou incapacidade de manter acordos com os nossos parceiros mais próximos.

Os candidatos são obviamente diferentes e nenhuma das opções é neutra, ainda que muitas vezes se apresente como tal. Escolher ou não escolher é, também, uma escolha.

Os problemas não residem apenas nos candidatos, mas também na forma como o próprio ato eleitoral é encarado, num contexto em que os, mas media tendem a privilegiar a obtenção de audiências, muitas vezes à custa da transformação da política em autênticas “novelas”, valorizando o espetáculo promovido pelos candidatos em detrimento da verdade, da dignidade e da ponderação. Quando as eleições presidenciais são reduzidas a um exercício de simpatia pessoal, de estilo ou a uma mera contabilidade de promessas internas, perde-se de vista o facto de o chefe de Estado ser, antes de mais, uma voz do país no concerto das nações — uma voz que fala em nome de todos, mesmo quando, posteriormente, dela discordamos.

Num tempo em que as fronteiras políticas são cada vez mais permeáveis e os efeitos das decisões externas se fazem sentir dentro de portas, ignorar a política externa em campanha eleitoral é um luxo que dificilmente nos podemos permitir. Votar é escolher um futuro interno, mas é também definir como queremos estar no mundo — e como queremos que o mundo nos veja.


(Em actualização)

Passo algum tempo na estrada, entre viagens. E é curioso como a vida muda o lugar às coisas: aquilo que antes eu detestava, hoje é quase uma terapia silenciosa.

A estrada tornou-se um espaço meu. Um tempo que ninguém me rouba. Um lugar onde a cabeça abranda e o coração ganha espaço. Onde eu penso com uma clareza que em casa nem sempre aparece, como se o movimento do carro empurrasse também o que está preso cá dentro.

Enquanto conduzo, vou arrumando a agenda e a vida: alinho prioridades, ponho ordem no caos, desenho estratégias, fecho pontas soltas. Decido coisas. Faço promessas pequenas.

Há também um escape ali, naquele som constante do caminho: música alta, voz solta, letras cantadas como se fossem respostas. Às vezes desabafo, às vezes rio, às vezes só respiro.

Não danço porque éproibido. Mas a música faz o resto. E eu deixo


Não é tempo de política. É tempo de presença.
A Natureza não pergunta quem governa.
Não quer saber de cores, cargos ou discursos.
Só chega. E quando chega, mostra tudo.
Mostra o que estava frágil.
O que foi adiado.
O que ficou no “logo se vê”.
Leiria já foi motor.
Hoje foi número.
E num minuto, tudo muda.
Não são só árvores no chão.
São casas sem luz.
São empresas fechadas.
São pessoas exaustas.
São animais a morrer.
É dignidade à espera.
Hoje estive no terreno.
De mãos sujas.
De corpo cansado.
De coração desperto.
E há algo que fica claro quando se está lá:
isto não se resolve com ruído.
Resolve-se com presença, meios e decisão.
A Mãe Natureza falou alto.
E quando ela fala, não é para dividir.
É para acordar.
Agora é agir.
E depois, agir outra vez.
Com memória.
Com planos que saem da gaveta.
Com responsabilidade que não desaparece quando o sol volta.
Gratidão profunda a quem lidera no terreno,
a quem coordena no silêncio,
e a todos os que ajudaram: voluntários, equipas, pessoas anónimas,
que não esperaram ordens para fazer o que era preciso.
Leiria não pede favores.
Pede respeito. E presença!!!
E isso…
não devia ser extraordinário.
Leiria

FIGUEIRA DA FOZ - MONUMENTO A DAVID SOUSA

David de Sousa faleceu no dia 3 de outubro de 1918, com 38 anos, vitimado pela epidemia pneumónica, num prédio pertencente a António Costa, no nº 66 da Rua Bernardo Lopes.

Foi sepultado no cemitério Oriental no mesmo dia em que faleceu.

Recorda-se aqui a notícia da sua morte na revista "Ilustração Portuguesa" de 21 de outubro de 1918 (pág.337):

“Maestro David de Sousa - Causou a mais profunda consternação, no espírito de todos os que amam a sublime arte e de todos os que tiveram ocasião de apreciar o invulgar talento de David de Sousa, a notícia do seu falecimento.

O ilustre "maestro", que morreu na Figueira da Foz onde se encontrava veraneando, era além de compositor inspiradíssimo - entre as obras de que era autor, contam-se a "Rapsódia Slava", os "Cantares Portugueses" e a "Babilónia", primeira parte de um grande poema sinfónico, feito sobre a notável obra de Guerra Junqueiro "Morte de D. João" - um distinto executor, como muito brilhantemente o demonstrou em inúmeras audições, em que conseguiu arrebatar o entendido público que a elas concorria, bastando citar as da Orquestra Sinfónica, que superiormente regeu, e em cujos programas introduziu, com geral contentamento, trabalhosas peças de música russa, por que era muito apaixonado, e cuja influência distintamente se reconhece nas obras que compôs.

O eminente músico que fez o curso do nosso Conservatório, onde era ultimamente professor de violoncelo, estudou em Leipzig, na Rússia e em Londres, regendo nesta cidade alguns concertos públicos.

A sua morte, enlutando a arte musical da nossa terra, onde conseguira impor-se como uma figura de alto relevo, deixa inconsolável sua mãe, a quem a Ilustração Portuguesa endereça as mais sentidas expressões do seu pesar”.

De imediato, os seus admiradores organizaram-se com o fim de edificar um monumento em homenagem a tão brilhante músico, e em 12 de outubro de 1919, no Teatro do Casino Peninsular da Figueira da Foz, realizou-se um sarau com o fim de serem angariados fundos para a sua construção.

A pedido do seu parente em 2º grau Fernando Alberto Marques Pinto, o corpo de David de Sousa foi trasladado no dia 27 de abril de 1919 do cemitério Oriental para o cemitério Setentrional, onde ficou no jazigo de Rodrigo Galvão, após um cortejo entre os dois locais.

(Esta trasladação só foi aprovada em sessão da Comissão Administrativa municipal de 30 de abril, pois a mesma não pôde reunir em 23 de abril por falta de quórum. O Dr. Cerqueira da Rocha era então o presidente da Comissão Administrativa).


Dois anos depois, em ofício de 15 de novembro de 1921, a Comissão do Monumento a David de Sousa pediu autorização para erigir no Largo Coronel Galhardo uma estátua em sua homenagem, solicitando que a este largo fosse dado o nome do malogrado compositor e para que a Câmara custeasse as despesas dos alicerces.

A Comissão Executiva municipal dirigida pelo Dr. Cerqueira da Rocha, em sessão de 23 de novembro de 1921, aprovou as pretensões apresentadas, exceto a mudança do nome do Largo Coronel Galhardo.

Porém, passados quase 12 anos após a morte de David de Sousa ainda não tinha sido construído o monumento em sua homenagem no Largo Coronel Galhardo, ou noutro qualquer local.

Ezequiel Sousa Prego era o tesoureiro da Comissão do Monumento, mas residia agora no Rio de Janeiro, e com ele estavam os 7.200$00 da coleta efetuada para a realização da obra escultórica.

Então, instado por Raimundo Esteves Pereira, o Administrador do Concelho, Argel de Melo, pediu a Sousa Prego a devolução do dinheiro em ofício de 8 de novembro de 1929.

(Raimundo Esteves Pereira (1855-1936) era pai do ilustre figueirense Raimundo Esteves Pereira Júnior (1892-1946), mais conhecido por Raimundo Esteves).

Como Sousa Prego não respondeu ao pedido de devolução dos 7.200$00, o Administrador do Concelho voltou a insistir em ofício de 5 de fevereiro de 1930, mas outra vez sem sucesso.

Como não se concretizava a construção do monumento, decidiu a Comissão Administrativa municipal, em sessão de 19 de agosto de 1930, atribuir o nome do maestro David de Souza à antiga Rua dos Banhos.

A Comissão Administrativa municipal era então dirigida pelo capitão Melo Cabral (não havia Câmara Municipal desde o golpe militar de 1926).

Existia agora uma rua com o nome de David de Sousa, mas a construção do monumento, tão desejado por tantos, não se iniciava, apesar de já haver muito dinheiro em caixa para o efeito.

Em carta de 17 de setembro de 1931, o Administrador do Concelho respondeu ao ofício da Câmara do dia 25 de agosto anterior, solicitando que a Câmara pedisse a Sousa Prego o dinheiro em sua posse e nomeasse uma nova Comissão que erigisse o monumento.

Todavia, da primitiva Comissão do Monumento a David de Sousa restavam somente dois cidadãos, Ezequiel de Sousa Prego e Raimundo Esteves Pereira, visto terem falecido os outros vogais.

Então, em 23 de setembro de 1931, a Comissão Administrativa municipal, agora dirigida por José da Silva Fonseca, deliberou solicitar a intervenção do Ministro dos Negócios Estrangeiros junto de Ezequiel Prego, a residir no Brasil, para que fosse possível recuperar os 7.200$00 angariados para a construção do monumento a David de Sousa.

Passados 3 meses, em ofício de 31 de dezembro de 1931, a Direção Geral dos Serviços Centrais do Ministério dos Negócios Estrangeiros comunicou à Comissão Administrativa municipal que, relativamente ao seu ofício de 1 de outubro anterior, o Consulado Geral de Portugal no Rio de Janeiro acabava de informar que o Dr. Ezequiel Carneiro Prego comparecera naquele Consulado, onde tinha declarado:

• Que existia a importância de 7.200$00 à sua guarda para construir um monumento a David de Sousa, de sua iniciativa;

• Que a Comissão do Monumento teria de ser reconstituída, pois ele e Raimundo Esteves estavam ausentes de Portugal e tinham falecido os restantes membros;

• Que sendo esta Comissão de iniciativa particular, nenhuma conta teria a prestar ao Administrador do Concelho ou à Câmara Municipal;

• Que não se sentia na obrigação de entregar os 7.200$00 à Câmara Municipal porque esta nunca interferira na subscrição;

• Que a Câmara Municipal em 23 de setembro de 1931 dera publicidade ao pedido do Administrador do Concelho para coagir o declarante a entregar-lhe aquela quantia, coação que repelia, bem como a injúria que ela envolvia;

• Que aguardava a solução que ao caso quisessem dar os senhores João de Barros, José de Barros, José Augusto Pinto, Cardoso Marta, Américo da Assunção, Mário Alves (representante de Raimundo Esteves) e Manuel José Cruz (representante de Ezequiel Prego).

Em sessão de 6 de janeiro de 1932, a Comissão Administrativa municipal deliberou dar a conhecer ao Administrador do Concelho este ofício do Ministério dos Negócios Estrangeiros, solicitando-lhe o maior interesse no início da construção do monumento, sem exigir a entrega de quantia alguma, e recordando-lhe que só tinha intervindo neste assunto por sua solicitação.

Neste ano de 1932 já existia a maquete do monumento a David de Sousa, mas passaram muitos anos até que o monumento fosse edificado.

Em sessão da Câmara Municipal de 29 de junho de 1938 o vereador Manuel Nunes de Oliveira disse não fazer sentido que, havendo uma Comissão encarregada de angariar fundos destinados a erigir um monumento a David de Sousa, não fosse dado qualquer conhecimento acerca do dinheiro que “parece haver depositado num Banco”, nem do que procura ou pretende fazer.

Propôs Nunes de Oliveira, e foi aprovado por unanimidade, que a Câmara oficiasse de novo, desta vez a cada um dos membros da supracitada Comissão, para que comunicassem as suas intenções, e caso não se obtivessem respostas se deveria pedir a interferência do Administrador do Concelho, pois o assunto “requeria interferência policial”.

Em maio de 1939 Fausto de Almeida lamentava que a Figueira continuasse “(…) ainda hoje a mostrar para com ele a mesma ingrata indiferença, não exibindo orgulhosa aquele monumento que há muito devia homenagear na sua terra David de Sousa”.

Em 1942, uma Comissão liderada pelo Dr. Pedro de Aguiar, de Lisboa, consegue os fundos necessários para construir um busto em bronze modelado graciosamente pelo mestre Maximiano Alves.

Em 6 de maio de 1948, três décadas após a morte de David de Sousa, o monumento foi inaugurado ao fundo da Rua da Liberdade, sendo da autoria do escultor Leopoldo de Almeida e do arquiteto Carlos Ramos.

Ficaram por conta da Câmara as despesas com as individualidades convidadas para a inauguração do monumento, e só não foram maiores porque o Dr. Manuel dos Santos Freitas, de Lisboa, fez-se representar pelo seu filho David Fernando que era professor na escola do Conde Ferreira, na Figueira da Foz.

O Dr. Álvaro Malafaia era então o presidente da Câmara, sendo vereadores o Dr. Ernesto Tomé, o capitão Francisco de Boaventura Militão, o Eng.º António Alberto da Cunha Rei, o Dr. António Sotero de Oliveira, o Dr. Sérgio Costa Lobo Madureira e Carlos Lino Gaspar.

 


APOSENTEI-ME.

DEDICO AO MEU PRIMO BERTO ESTAS PALAVRAS SIMPLES, MAS SENTIDAS

Aposentei-me esta semana, ao fim de quarenta e três anos como professor e mais alguns, ainda na juventude, a trabalhar numa fábrica. Foram cinquenta!

É uma palavra grande, “aposentei-me”, mas não cabe inteira no que sinto. Não deixei de ser professor; apenas abrandei o passo, como quem conhece bem o caminho e decide apreciá-lo com mais vagar.

Venho dos campos do Mondego. Foi ali que aprendi, ainda menino, com os primos Silva, a coragem das cheias e a luta diária pela vida. O rio ensinou-nos cedo que a força pode ser devastadora, mas também fértil e que resistir é uma forma de esperança. Com o Alberto aprendi quase tudo o que realmente importa. Prometemos um ao outro, ele com sete anos e eu com seis, que seríamos professores. Crescemos rodeados de gente boa, trabalhadora, mas que não sabia ler nem escrever. Talvez por isso quiséssemos tanto ensinar: porque sabíamos, mesmo sem o saber explicar, que o conhecimento abre caminhos onde antes só havia atalhos difíceis.

Aprendi cedo que a condição à partida não tem de nos impedir de alcançar metas. Essa lição não veio dos livros, veio da vida e, sobretudo, do exemplo do Alberto. Amo o Alberto, meu primo que foi irmão. Já foi, mas não deixou de estar. A sua voz, o seu riso, aquele riso que só ele tinha, acompanham-me todos os dias. Oiço-o muitas noites, ecoando na minha cabeça, com aquele timbre inconfundível e com a sua convicção firme de que não existiam impossíveis. Essa ideia é, para mim, a maior estrela que conheci, a mais brilhante.

Sou professor porque quis ser como o Alberto. E isso é difícil, muito difícil. Ele era grande, muito grande, tão grande como a mata onde íamos buscar musgo para o presépio, em sua casa ou na igreja da nossa aldeia. O Alberto tornou-me crente, porque há anjos, e ele foi um deles. Os nossos amigos de infância, e são muitos, reconhecem essa característica do Berto, era assim que eu lhe chamava. Havia nele uma grandeza simples, uma bondade natural que não precisava de palavras.

Não esqueço os amigos de infância do nosso Bairro do Tojal, lugar de partida e de chegada. Entre idas ao rio, aos marmelos no Traveiro, a apanhar pinhas para as nossas avós, construímos uma família feita de memórias, de cumplicidades e de resistência. Se a alguém devo ser professor, é ao Berto.

Dois beijos, claro: um para o Berto; outro para o Zé Alberto, o outro primo-irmão que nos acompanhava sempre e que me acompanha hoje, embora longe, sempre perto. Estão ambos aqui, no coração. Um abraço fraterno aos amigos de infância: lutámos com a força das águas do nosso rio Mondego e continuamos a ser uma família que adoro. Aposentei-me, sim. Mas ensinar, isso, não termina nunca.

Agora que a vida

tem um sabor novo

não vou desistir

dos sonhos de outrora…

Regressarei serena

e autêntica

às manhãs azuis

que as nuvens esconderam…

Encontrarei, intactas,

as pétalas desse passado

que a névoa ocultou

e o vento desfolhou …

Encontrarei a flor saudosa

ainda à espera deste agora renovado.



MEU PENSAMENTO VAGUEIA!

Vagueia meu pensamento

Que é levado pelo vento

Para lonjuras tamanhas!

Tão longe que nunca visto

Vou para lá das montanhas

E no céu com asas brancas

Alguém no céu eu avisto!

 

Mas continuo a andar

E ouço alguém a chorar

Com uma dor tão profunda

Que julgo estar a sonhar

Andando por sobre o mar

Mas a ninguém eu vislumbro…

 

Já cansada volto para trás

Aonde o meu sonho… jaz

Cansado de tanto andar!

Já é um sonho… antigo,

Que andou sempre comigo

Realizá-lo… já não sou capaz!...


Vivemos numa constante competição. O mundo está dividido entre vencedores e perdedores. O statu quo é amplamente justificado pela máxima «quem muito se esforça tudo pode». O resultado? Um mundo que reforça a desigualdade social e, ao mesmo tempo, culpabiliza as pessoas.

Ao analisar conceitos em torno da ética do estudo, do trabalho, do sucesso e do fracasso – e que meios são considerados legítimos para percorrer esses caminhos -, Michael J. Sandel sugere um novo olhar sobre essas relações. Salientando as contradições do discurso meritocrático, os seus contextos estruturais e a arrogância dos vencedores, o autor defende que a polarização vencedor-perdedor fez estagnar a mobilidade social, promovendo um misto de raiva e frustração que alimenta o protesto populista e a descrença nas instituições, no governo e entre cidadãos.

Para ultrapassarmos as crises que afetam as nossas sociedades, precisamos de repensar as ideias de sucesso e fracasso que têm acompanhado a globalização e a crescente desigualdade. A meritocracia gera uma complacência prejudicial entre os vencedores e impõe uma sentença dura aos perdedores.

Sandel, um dos filósofos mais prestigiados do nosso tempo, defende outra forma de pensar o sucesso, mais atenta ao papel da sorte, mais de acordo com uma ética de humildade e solidariedade e mais reivindicativa da dignidade do trabalho. Com base nestes fundamentos morais, A Tirania do Mérito apresenta uma visão esperançosa de uma nova política centrada, finalmente, no bem comum.



“Still Waiting at the Door”

Barcaça_64

 FOI EM 2021 "BARCAÇA" um projeto local e independente ligado ao concelho de Montemor-o-Velho (distrito de Coimbra, Baixo Mondego....