Boa
noite, nestas viagens pelo Mondego num mês difícil onde as águas invadiram
trilhos antigos e mais uma vez visitaram as povoações, uma palavra de apreço
para todos os que se prontificaram em ajudar um povo que estava perdido entre
os degraus de sua casa e as estradas cobertas de água que os deixaram mais uma
vez sós.
Mas
a nossa Barcaça segue o seu caminho divulgando o que nos vai na alma, seja em
forma de poesia, em histórias como na divulgação do nosso património.
Pontos Sem Fim, uma resenha do que se passou no distrito de Coimbra com as cheias e a ventania.
Maria Forte, toca-nos com o seu "Grito" de tantas coisas que pensamos que só acontecem aos outros mas quando nos bate à porta é que sentimos as fragilidades ... e são muitas.
Fernando
Curado que mensalmente aqui divulga histórias do património da Figueira da Foz
nesta edição traz-nos “FIGUEIRA DA FOZ - O CASAMENTO DO 1º JUÍZ DE FORA”.
Carla
M. Henriques, um tema atualíssimo a mãe natureza, já António Girão debruça-se
sobre um tema também na ordem do dia, “Qual a razão para insegurança nalgumas
localidades do interior?”
Na secção de Poesia Garça Real os seus sonhos,
como desejaria ou como deseja encontrar o dia de amanhã. Isabel Capinha como
saindo de casa e vagueado pelos campos onde sente os odores e vê as cores do
nosso campo. Isabel Tavares mergulha na sua praia conjugando as palavras pela
positiva, onde o amor, afeto e esperança está sempre presente. Isabel Rama como
tivesse entrado na Barcaça e percorrendo o seu leito sente agonia de uma população
“- Aí, Jesus! Meu Deus!”
Na
livraria escolhi “Rezar de olhos abertos” de José Tolentino Mendonça
E
cito: “Há pessoas que rezam baixando os olhos, escondendo nas mãos o rosto,
voltando-se para dentro. Há outras, porém, que abrem esforçadamente os olhos ao
rezar, numa tentativa de observar a vida no seu espanto. Quer umas, quer outras
- estão certas.”
Já na Música escolho Zeca Afonso num tema que tanto nos diz. Em Balada do Outono | José Afonso ao vivo no Coliseu 1983
Aqui
vai um relato detalhado e factual sobre os momentos e consequências das cheias
e inundações que afetaram o Centro de Portugal em 2026, com foco nas zonas
de Montemor-o-Velho, Coimbra, Ereira, e Figueira da Foz, e o impacto nos
habitantes dessas comunidades:
🌧️
Contexto meteorológico e causa das cheias
No
início de 2026, o território português foi atingido por uma série excepcional
de tempestades atlânticas, um verdadeiro comboio de tempestades, com
precipitação persistente e intensa e ventos fortes, incluindo a depressão Storm
Kristin, uma das mais violentas já registadas no país.
Este
padrão de tempo extremo gerou volumes de chuva recorde, saturou solos e rios e
sobrecarregou barragens e sistemas de drenagem, precipitantes da crise
hidrológica na bacia do rio Mondego.
🌊
Situação em Coimbra e no vale do Mondego
Inundações,
risco e evacuações
· A
cidade de Coimbra enfrentou níveis de precipitação históricos — com mais
de 1 200 mm de chuva entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026 — um recorde
absoluto na região.
· As
inundações foram impulsionadas pelo transbordo do rio Mondego e seus
afluentes, com risco de grande cheia que poderia atingir até a baixa da cidade.
· Autoridades
emitiram alertas máximos e realizaram ações de evacuação preventiva de
milhares de habitantes nas zonas ribeirinhas, com cerca de 3 000 pessoas
retiradas de áreas de risco em torno de Coimbra, Montemor-o-Velho e Soure.
· Casas,
infra-estruturas e serviços básicos sofreram danos severos, incluindo estradas,
mercados e parte das muralhas históricas.
👥 A “agonia”
dos habitantes — relatos de moradores contaram dias de incerteza,
vigilância constante do nível do rio, deslocamentos forçados, comunidades
isoladas e interrupção de vida normal (escolas, comércio, serviços).
🏘️
Montemor-o-Velho e Ereira: zonas baixas isoladas
· A
freguesia de Ereira, no concelho de Montemor-o-Velho, tornou-se
literalmente uma ilha cercada pelas águas por mais de uma semana,
isolando moradores, agricultura e comércio locais pelo transbordo do Mondego e
a saturação dos canais adjacentes.
· Comunidades
agrícolas, particularmente arrozais e campos de produção, ficaram totalmente
submersos, transformando estradas em rios e interrompendo ligações essenciais
com centros urbanos e entre vizinhos.
· A
junta local denunciou, além das cheias, a falta de manutenção adequada das
infra-estruturas de contenção como fator que agravou a situação, deixando
muitos sentir-se desamparados perante a emergência.
A
agonia de muitos residentes passou por dias sem acesso fácil a serviços
de socorro, abastecimento e comunicação, e pelo medo constante de novos surtos
de água isolarem ainda mais as zonas rurais.
🚧
Figueira da Foz: impactos e rescaldo
Embora
Figueira da Foz, na foz do Mondego, tenha sido mais afetada por impacto
meteorológico e consequências indiretas do temporal do que por cheias tão
intensas como nas zonas interiores, a região enfrentou desafios:
· Estradas
importantes como a A14 ficaram inoperacionais por longos períodos devido
a danos causados pelas inundações e água acumulada.
· A
logística, comércios e transporte sofreram interrupções, deixando residentes e
empresas locais numa sensação de limbo até à normalização das ligações.
· A
cidade também viveu outras emergências humanitárias (como incêndios noutros
locais), o que reforçou a sensação de instabilidade geral no distrito de
Coimbra.
🧠
Impacto humano e emoções na população
A
experiência dos habitantes dessas áreas durante as cheias de 2026 incluiu:
· Evacuações
forçadas e noites sem dormir, com famílias a
reunir-se em abrigos ou casas de amigos/familiares fora da zona inundada.
· Medo
da perda de bens, casas e rendimentos, especialmente para
agricultores que viram safras e infra-estrutura rural destruídas.
· Sentimento
de impotência e desamparo, vincado por críticas à manutenção
da infraestrutura hidráulica e respostas oficiais, que muitos consideraram
lentas ou insuficientes.
· A
comunidade enfrentou também dificuldades práticas — corte de estradas e
comunicações, falta de acesso a serviços básicos e necessidades urgentes de
ajuda humanitária.
📌
Resumo
👉 Um comboio de
tempestades consecutivas no início de 2026 trouxe chuva e ventos extremos,
saturando solos e enchendo rios.
👉 O Mondego e
seus afluentes transbordaram, com consequências dramáticas em Coimbra,
Montemor-o-Velho e Ereira: populações evacuadas, aldeias temporariamente
isoladas e campos inundados.
👉 Figueira da
Foz, embora mais perto da foz, enfrentou impactos nas comunicações e
transporte, acentuando o sentimento de crise.
👉 Para muitos
habitantes, foram dias de incerteza, medo e luta para proteger o que mais
importa — famílias, casas e modos de vida.
Não.
Não vai voltar ao normal.
Parem
de perguntar isso.
Depois
de uma tempestade, de uma cheia, de um abalo, não há botão de reset.
Há
lama. Há prejuízo.
Há
medo. Há insegurança.
E
há uma coisa ainda mais violenta: a queda da ilusão.
A
ilusão de que o chão é fixo.
A
ilusão de que o que sempre foi, continuará a ser.
A
ilusão de que basta esperar que “volte ao normal”.
Não
volta.
Quando
a estrutura de base é mexida, seja uma casa inundada, uma vila, uma cidade
fustigada, uma relação que acaba, um negócio que cai, um sistema que falha, não
é só o cenário que muda.
É a identidade.
Porque
nós construímo-nos em cima de referências de segurança.
E
quando elas tremem, nós trememos com elas.
O
problema é que fomos educados para esperar.
Esperar
que o Estado resolva.
Esperar
que o rio baixe.
Esperar
que a economia estabilize.
Esperar
que a vida “acalma”.
Mas
esperar é um luxo perigoso quando a base já foi abalada.
Não
é sobre voltar ao que era.
É
sobre assumir que o que era morreu.
E
isto é político, sim.
Porque
comunidades inteiras vivem numa falsa sensação de controlo.
Porque
continuamos a construir como se a água não voltasse.
Porque
falamos de prevenção depois da tragédia.
Porque
romantizamos a resiliência, mas não questionamos as estruturas que falham.
E
também é pessoal. Muito pessoal.
Quando
a tua base abana, tu questionas tudo.
Quem
és.
O
que faz sentido.
O
que vale a pena.
O
que é seguro.
E
a resposta não é nostalgia.
Não
é “vamos ver como fica”.
Não
é fingir que amanhã será igual a ontem.
A
resposta é adaptação brutal.
É
flexibilidade emocional.
É
reconstrução consciente.
É
perceber que a nova normalidade não é um prémio de consolação, é o único
caminho possível.
Nada
volta ao sítio onde ficou.
Volta
diferente. Ou não volta.
E
talvez a maturidade coletiva, e individual, comece aqui: na coragem de admitir
que estabilidade permanente é um mito.
O
rio sobe. O vento leva.
Os
sistemas falham.
As
estruturas cedem.
E
tu?
Ficas
à espera que “normalize”?
Ou
assumes que tens de te reorganizar por dentro?
Não
há regresso ao ponto anterior.
Há
evolução ou há estagnação.
E
se a base foi mexida, então mexe-te também.
Reconstrói. Reposiciona. Recomeça. S
em
ilusões. Com consciência.
Porque
o mundo não te deve estabilidade.
Mas
tu deves a ti própria a capacidade de te reinventares.
FIGUEIRA DA FOZ - O CASAMENTO DO 1º JUÍZ DE FORA
José de Seabra da Silva, natural de S. Martinho da Torre de Vilela (Coimbra), estadista marcante da segunda metade do século XVIII, ministro de D. José I, de 1771 a 1774, e de D. Maria I, de 1788 a 1799, adquiriu a Quinta do Canal em 1770.
No ano seguinte, em 1771, por decreto de 12 de março, a Figueira foi elevada a vila e recebeu Bento José da Silva como seu 1º Juiz de Fora, o qual tomou posse em 30 de julho de 1771, então com 35 anos, tendo desempenhado o cargo até 1774.
O Juiz de Fora era nomeado pelo Rei, e representava-o, e assim era denominado porque deveria ser estranho ao concelho para o qual era designado e, não dependendo do poder local, o tornava mais isento nas decisões judiciais.
Bento José da Silva, conterrâneo e amigo de José de Seabra da Silva, o dono da Quinta do Canal, então ministro de D. José I, terá tido papel importante na nomeação do seu amigo para 1º Juiz de Fora da Figueira.
Bento
José da Silva, então com 46 anos, casou na capela da Quinta do Canal com D.
Caetana Efigénia de Salazar Vasconcelos da Silva e Crato, vinte anos mais nova.
O casamento realizou-se no dia 28 de janeiro de 1782 e os padrinhos foram José de Seabra da Silva, o proprietário da Quinta do Canal, e sua esposa D. Ana Felícia Coutinho Pereira de Sousa Tavares da Horta Amado Cerveira.
O padre, D. José da Costa Torres, celebrou o ato solene num bonito e valioso altar, que está hoje em Barra, na Capela de Nossa Senhora do Rosário.
A noiva, Caetana Efigénia, com 26 anos, sexta filha do Juiz da Alfândega, José Lázaro da Silva, e de Maria Rosa Beatriz, nasceu na Figueira da Foz a 27 de outubro de 1756.
Caetana Efigénia foi batizada em 17 de novembro do mesmo ano, pelo padre Manoel Thomaz, sendo padrinhos o cónego Caetano de Figueiredo e a sua tia Marcelina Josefa Caetano.
Caetana Efigénia tinha 15 anos quando o seu futuro marido, Bento José da Siva, chegou à Figueira da Foz, em 1771, para ocupar o lugar de 1º Juiz de Fora.
Bento José da Silva frequentava a casa do Juiz da Alfândega, José Lázaro da Silva, onde conheceu e se apaixonou pela sua filha, Caetana Efigénia.
A mãe da noiva, Maria Rosa Beatriz, e as sete tias da noiva, irmãs de Maria Rosa, eram conhecidas na Figueira como “as senhoras alfândegas”.
No dia 1 de novembro de 1781, José Seabra da Siva e o seu irmão Lucas Seabra da Silva, assinaram na Quinta do Canal, como testemunhas, a escritura em que Bento José da Silva se comprometeu a casar com Caetana Efigénia.
Caetana Efigénia e a mãe, Maria Rosa Beatriz, estavam representadas por Joaquim Inácio de Salazar e Vasconcelos, irmão da noiva, que, como procurador, em nome da noiva, declarou aceitar a promessa de casamento “o que fazia também o seu futuro esposo e que aceitava o dote que com ele se dotava para sustentação dos encargos de matrimónio para cujo efeito se dotava também com a legítima paterna” e, por parte da mãe, disse mais que esta, pelo grande gosto que tinha de que se efetuasse o casamento e para sustentar os encargos dele, “além dos vestidos e outros ornatos que a noiva levasse”, a dotava com a terça dos bens que ficassem pelo seu falecimento e com as heranças que lhe vinham da mãe, em Tomar.
A noiva, formosa e elegante, parecia uma antiga dama da corte francesa, com cabelos loiros, penteado à Maria Antonieta, herança atávica que lhe vinha dos Cratos de Krafteim.
Bastaria pensarmos que Caetana Efigénia era sobrinha das “senhoras Alfândegas”, irmãs de sua mãe, com quem convivera durante toda a sua infância e mocidade, especialmente com a sua tia Isabel Peregrina.
O noivo, Bento José da Silva, era um quarentão com boa presença, juiz, deputado, tesoureiro geral da Junta de Administração da Fazenda da Universidade.
Muito orgulhosos estavam os pais da noiva, pois casavam a sua filha com um homem importante, sob os auspícios do Dr. José Seabra da Silva, rico, ministro e próximo da família real.
O
casamento realizou-se na Quinta do Canal no dia 28 de janeiro de 1782.
No Natal anterior, Bento José da Silva passou a festa Natalícia em casa dos futuros sogros, onde pernoitou.
Em
26 de setembro de 1782 nasceu a primeira filha do casal, a menina Maria
Justina, oito meses depois do casamento e nove meses após a festa Natalícia.
Nos
últimos dias, a mãe natureza falou alto.
Falou
com chuva que não pediu licença, com trovoada que nos acordou por dentro, com
um vento tão forte que pareceu que o mundo perdeu o eixo. E, de repente, o país
ficou virado do avesso. Pessoas sem água. Sem luz. Sem comunicações. Coisas
simples, básicas, que só percebemos o quanto valem quando nos faltam.
E
é impossível não sentir isto como um aviso!
Porque
a natureza tem esse poder de nos pôr no lugar. De nos lembrar, sem palavras,
que a vida muda num segundo. Que aquilo que damos por garantido não é
garantido. Que a segurança é, tantas vezes, uma ilusão tranquila.
Depois,
quase como se nada tivesse acontecido, ela muda de rosto.
A
tempestade abranda, o céu abre, a luz volta. E há uma beleza tão serena nisso,
tão limpa, tão brilhante, que eu fico a pensar se não somos também assim. Nós.
A vida. Um dia por cima, outro dia por baixo. Um dia caos, outro dia paz. Um
dia medo, outro dia recomeço.
E
eu pergunto-me, em silêncio, se não haverá algo para aprender com tudo isto?!?
Acho
que sim. Há. Há mesmo!
Aprender
a não adiar o que importa. A não viver sempre como se houvesse tempo infinito.
A aproveitar melhor o que não se compra: presença, silêncio, conversas,
abraços, casa, pessoas, pequenos instantes que nos salvam sem darem por isso.
Claro
que precisamos de uma casa. De água. De luz. De condições básicas.
Mas
talvez também precisemos de outras coisas, que não se veem: mais calma, mais
leveza, mais respeito pelo essencial. Pelos outros. Por nós. Menos pressa.
Menos ruído. Menos distrações a roubar-nos a vida. E o seu sentido e valor!
E,
acima de tudo, talvez a mãe natureza esteja só a pedir-nos uma coisa simples e
enorme ao mesmo tempo.
Que
a protejamos. Que a respeitemos. Porque isso significa, na verdade,
respeitar-mo-nos e proteger-mo-nos.
Porque,
lembremo-nos sempre, quando ela treme, nós trememos com ela. ![]()
QUAL
A RAZÃO PARA A INSEGURANÇA NALGUMAS LOCALIDADES DO INTERIOR?!
Não
querendo ser arauto da verdade, pois analiso as situações perante a minha
experiência de vida (social, profissional e académica).
O
problema é estrutural e cultural: instalou-se a cultura de eleição de pessoas
para determinados cargos assente em premissas como a cor partidária, o
comportamento individual perante as respostas do coletivo e o "jeito"
que a junção destas duas situações possa dar. A capacidade, o conhecimento, o
mérito e outras bases essenciais para o desempenho de determinadas funções são
desprezadas ou anuladas. Enquanto a função vai sendo meramente administrativa e
política, as coisas fluem sem nós, vão andando.
Quando
os imprevistos começam a aparecer, a pouca capacidade (estou a ser
politicamente correto) de os resolver aparece e, aparece da pior forma: nada é
resolvido e a bola de neve adensa-se, até tornar-se uma avalanche. A
criminalidade, nalguns casos, parece-me ser um caso desses, uma falta de visão
proactiva preocupante: não se conhecem as peças do jogo que devam ser jogadas e
inicia-se a técnica do tapa-buracos e o buraco alarga-se a aprofundasse até se
tornar sem fundo. Normalmente, as pessoas mal preparadas (ou impreparadas) para
o desempenho de uma função não aceitam opiniões, pois isso choca com a
incompetência e a resolução dos problemas. Então, qual a razão para essas
pessoas estarem no poder micro-local (a expressão é minha)?!
O
caciquismo, os interesses instalados, a dependência, seja por qual razão seja e
os compadrios. Forma-se uma barreira intransponível!
Outra
razão está diretamente ligada às forças de segurança, sobre a qual tenho
opinião formada, mas não a dou, pois "há sempre quem tenha razão" e
os outros são tratados como "malucos", só porque incomodam. Quando se
conhece a razão de um problema, diz a ciência que é meio caminho andado para o
resolver.
Então,
não se resolve porquê?!
Talvez
apareçam outras situações (não lhes chamo interesses, para não parecer mal)
corporativos, de defesa entre pares que impossibilita ir à raiz da questão e
resolvê-la. Aqui, reside o ponto fulcral: quais são esses interesses?!
Eu
sei quais são e como se resolveriam, mas isso iria mexer com muita coisa, com
ambições políticas, profissionais, pessoais, familiares e por aí além.
Vivo
em Cantanhede há cerca de quinze anos e já ouvi milhares de vezes que a culpa é
de quem vem de fora. A nossa região tem excelentes pessoas que são de cá, tem
excelentes pessoas que vêm de fora e tem gente que não presta, também de ambas
as situações. Isto para dizer o quê?!
Para
dizer que, enquanto houver "doutorados em balcão de tasca" a opinar
sobre o que não sabem e a trucidar quem sabe, a insegurança nunca acabará.
Mais
uma vez, porquê?!
Simples:
isso iria mexer com o primo do neto da tia, do cunhado da prima desses
"opinadores" e o crime é necessário para essa gente e, como no velho
ditado "cães e lobos comem todos" e não interessa "fazer
ondas", sob pena de se "destapar o cu" a muita gente. Vai-se
vivendo "nas papas e bolos", enganando todos (não é tolos, é mesmo
todos!)
Resumindo: há que
tomar decisões sérias, bem fundamentadas, com exposições, sobretudo ao poder
local, nas suas várias vertentes: político; de segurança e de instituições de
cidadãos que possam fazer parte do processo. Mas, com coerência, com unidade e
com assertividade. Ir aos lugares certos, com as palavras certas, a razão
certa, sem medo, pois somos uma sociedade democrática que deve funcionar
"oleadamente" sem "pedras na engrenagem". Sobre isto, muito
há a dizer e muito mais a fazer, basta olhar à nossa volta, em que a vítima é
quase sempre tida como a culpada, porque isso interessa à passividade. E, estou
a ser muito meigo!
Agora que a vida
tem um sabor novo
não vou desistir
dos sonhos de outrora…
Regressarei serena
e autêntica
às manhãs azuis
que as nuvens
esconderam…
Encontrarei, intactas,
as pétalas desse
passado
que a névoa ocultou
e o vento desfolhou …
Encontrarei a flor
saudosa
ainda à espera deste agora renovado.
OUTRA TERRA - VERDES
CAMPOS
Verdes campos, vastos e
serenos,
onde o vento dança
entre as folhas,
e a terra respira em
silêncio,
como se guardasse
segredos do mundo.
Nos verdes campos,
as flores brotam como
estrelas tímidas,
colorindo o chão com
suas cores,
é o abraço da terra
que acolhe tudo o que
lá nasce.
O céu, de um azul sem
fim,.
olha de longe, atento e
sereno,
como um guardião do que
é puro.
Os verdes campos são
mais que paisagem,
são um refúgio da alma,
um lugar onde o coração
encontra paz,
onde se aprende, no seu
silêncio,
que a beleza não está
nas coisas,
mas na quietude de um
instante.
Ali, não há pressa,
não há agitação,
apenas o ritmo do vento
e o sussurro das folhas
que contam histórias.
E é ali, entre as cores
e os aromas,
que compreendo que o
mundo é simples,
feito de vida, terra e
amor.
Quando a vida me alegra
Quando o sol me sorri
Quando o sonho me
apanha
Quando a luz está em
mim.
Quando o coração
extravasa
Tanto amor que eu sinto
Abro os braços e agarro
Este mundo… infinito.
Quando afago com os
olhos
Tanta coisa… tão bela
Sinto-me mergulhada
Em brandura e sossegos.
Quando os dias em flor
Se desfolham em mim
Eu aspiro esse amor
E faço dele um jardim.
Vozes
de Janeiro: O Lamento do Mondego
Era
uma noite como tantas outras de janeiro. Na pequena freguesia da Ereira, concelho
de Montemor-o-Velho, uma avó desfilava memórias, contando ao neto, Gustavo,
histórias de tempos em que as águas não pediam licença para entrar.
Lá
fora, a praia fluvial — que no verão transborda com as gargalhadas e as
correrias das crianças — repousava agora sob um silêncio baço, iluminada apenas
pelo brilho solitário de um candeeiro. O Mondego parecia aquietar-se num abismo
profundo...
Mas,
de repente, a tempestade anunciada rasgou a calma, varrendo ferozmente tudo o
que encontrava pelo caminho.
Na
escuridão das casas, o medo ganha forma. Ecoam preces e sussurros que o vento, no
seu açoite, ensurdece:
—
Aí, Jesus! Meu Deus!
Telhados
são desmembrados pela mão fria do temporal e o céu, carregado, parece chorar as
dores das cheias de outrora. Vozes perdem-se neste inferno noturno; recordações
que a alma preferia não resgatar. Indiferente ao pânico, mas vítima da sua própria
força, o Mondego corre com uma fúria clamando por clemência. Na sua voz de lama
e corrente, o rio parece suplicar:
—
Olhai por mim! O meu leito já não suporta o fardo de tanta água; sufoco na
minha própria imensidão.
Gustavo,
encolhido sob a manta de lã grossa que a avó tricotara em invernos mais calmos,
sentia o tremor do chão sob os seus pés descalços. O som não era apenas o do vento;
era um rugido grave, vindo do ventre da terra, como se o rio estivesse a tentar
saltar as margens para fugir de si mesmo.
—
Avó, o rio está a chorar? — sussurrou o menino, com os olhos fixos na janela
onde a chuva batia como se quisesse estilhaçar o vidro.
A
velha senhora não respondeu de imediato. As suas mãos, sulcadas pelo tempo como
o leito do próprio rio, apertaram o terço de madeira.
—
Não está a chorar, meu filho — disse ela, com a voz embargada. — Está a pedir espaço.
Nós tirámos-lhe as margens, demos-lhe muros de betão e esquecemo-nos que ele
tem memória. O que ouves é o Mondego a reclamar o que sempre foi seu.
Lá
fora, um estalido seco ecoou: um salgueiro centenário cedia finalmente à fúria
da corrente. A água, negra e voraz, começava a lamber as primeiras pedras do
cais, subindo a rua como uma serpente silenciosa. O candeeiro da rua soltou uma
última faísca azul e apagou-se. A escuridão era agora total, restando apenas o
brilho das brasas na lareira.
Mas,
como todas as tempestades, o vento começou finalmente a cansar-se. O uivo transformou-se
num sopro húmido e o Mondego, exausto, começou a recolher-se.
Quando
os primeiros raios de sol rasgaram as nuvens, uma luz dourada refletiu-se nos espelhos
de água.
—
Olha, avó! — exclamou o menino.
Lá
fora, as portas abriam-se. Vizinhos chamavam uns pelos outros; o Sr. Joaquim
trazia a sua barca para ajudar; a D. Maria trazia pão quente. Era um
formigueiro de braços dados, uma força que nenhuma cheia conseguia arrastar.
A
avó pousou a mão no ombro de Gustavo e sorriu:
—
Vês, meu filho? O rio pode ser forte, mas a nossa raiz é mais funda. Ele leva a
terra, mas nós trazemos sempre o amanhã de volta.
Sem comentários:
Enviar um comentário