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domingo, maio 31

BARCAÇA_68

 

*        Com naturalidade, a nossa Barcaça segue silenciosa ao longo do Mondego, levando até às suas gentes um pouco de nós, algumas memórias, seja em prosa como em poesia. Mas admirando o seu patrimônio, porque é ele que nos traz à memória o que somos e o que nossos antepassados nos deixaram. Patrimônio, cultura e muito bairrismo. É neste espírito, Mário Silva fala-nos do Convento de Nossa Senhora dos Anjos, PARTE III já Fernando Curando nos traz uma lindíssima passagem da visita real de 26 de maio de 1852 à Figueira da Foz.

António Girão surpreende-nos com um soneto, “Soneto da Algema”. Maria Forte nostalgia das boas recordações da Vila de Montemor e do que leva ainda dentro de si, sentimentos, alegrias e ...

Carla M. Henriques fala-nos do real ao virtual e, sempre com uma escrita simples e muito intensa, aborda-nos essa passagem que estamos a atravessar, em que o virtual pode e leva-nos ao real ou vice-versa.

Vamos entrar na seção da poesia, onde as nossas colaboradoras nos descrevem sentimentos, momentos, alegrias e tristezas. Garça Real poderia chamar o seu grito. Isabel Capinha transporta-nos para momentos de aflição que viveram as gentes do concelho de Montemor-o-Velho com as cheias. Isabel Rama leva-nos a uma “Canção da Vida” cheia de amor e carinho. Isabel Tavares, como é simples fazer (para alguns) poemas com alma, paixão e muito amor.

Na música, algo diferente, mas intensivo. Estamos na época das Queima das Fitas, nada melhor que um fado de Coimbra.

Já na literatura, um Prêmio Nobel que saiu dos manuais dos estudantes: “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago.

Boas leituras e até 30 de junho.


Convento de Nossa Senhora dos Anjos

 

PARTE III

 


Morto Diogo de Azambuja, os rendimentos do convento dos Anjos estiveram sempre muito longe de serem opulentos e muito perto de poderem ser considerados miseráveis, aliás, como era salutar princípio da Ordem a que pertencia.

Entretanto, e apesar de tudo, o convento está numa fase de construção passível de atrair devotos e benfeitores. A igreja, de planta longitudinal, além das funções religiosas, começa a funcionar como lugar de eleição para sepultura, nomeadamente das elites locais, por meio da progressiva abertura de capelas funerárias, tanto do lado da epístola como do lado do evangelho, engradecendo-a dimensionalmente e enriquecendo-a sob o ponto de vista artístico. O produto destas instituições pias permitirá à comunidade religiosa, não só a sobrevivência em segurança, mas também, com o remanescente, ampliar as estruturas conventuais.

A 31 de outubro de 1531, os frades contratualizam com a “Governança” da vila a conduta da água (recolhida na nascente do Cano) para o convento, contrato esse que seria mais tarde, a 2 de agosto de 1552, homologado por alvará de D. João III. A este propósito, refira-se que tanto D. João III como D. Sebastião concedeu muitas mercês e privilégios ao convento dos Anjos, uma comunidade pequena, pois o máximo da lotação seria de 30 frades e conversos.

Entre 1535 e 1542, é rasgada na parede sul da igreja a capela de Nossa Senhora da Piedade ou capela da Deposição. Possuidora de um belo portal, esta capela serviu de monumento funerário da família de Fernão de Pina. Nele foi colocado um retábulo mostrando o “Descimento de Cristo da Cruz”, composição de fino lavor renascentista e revelando uma acentuada carga dramática nas expressões corporais e faciais dos seus protagonistas. Esta excelente obra escultórica está atribuída ao francês João de Ruão. Um frontão circular em relevo com o Padre Eterno em ato de bênção em cima do arco do retábulo.

De 1563 vem o conjunto retabular existente na capela das Almas do Purgatório, capela situada do lado do evangelho, logo a seguir à pia batismal, e onde, durante o ano, se recolhe a imagem e andor do Senhor dos Passos após a função dos Passos em Domingo de Ramos. Neste retábulo podemos ver, nos planos fundeiros, a beleza paisagística da cidade de Jerusalém, com o Monte Gólgota a suportar em plano maior a figura de Cristo pregado na Cruz.

Poucos anos depois, em 1567, fez-se para a capela-mor um bom e grandioso retábulo, do qual subsiste o sacrário. No entanto, surgem notícias de que, em 11 de abril de 1572, o convento sofria grandes obras, excluindo a igreja.


· FIGUEIRA DA FOZ – VISITA REAL DE 26 DE MAIO DE 1852

Há 174 anos, no dia 26 de maio de 1852, a família real visitou a Figueira da Foz.


Melhor dizendo, metade da família real, porque a outra metade ficou em Verride, numa situação mal-esclarecida que aqui tentaremos compreender.

Em agosto de 1851 morreu o sogro de D. Maria II, pai do seu terceiro marido D. Fernando II.


Depois de tomar luto por seis meses, e depois de longos anos de lutas políticas, entendeu o governo do Duque de Saldanha que seria conveniente uma visita da família real ao Norte do país, recentemente abalado pelas revoltas da Maria da Fonte e da Patuleia, e ainda com resquícios do Miguelismo derrotado.


Assim, em 15 de abril de 1852, a família real, composta por D. Maria II, o seu 3º marido D. Fernando II e os dois filhos, o príncipe D. Pedro (futuro rei D. Pedro V) e o infante D. Luís (futuro rei D. Luís I), embarcou em Lisboa, num vapor de guerra, com destino a Vila Franca de Xira.


D. Maria II tinha 33 anos, D. Fernando II tinha 36 anos, D. Pedro 15 anos e D. Luís 14 anos.

A família real vinha acompanhada pela dama de serviço D. Maria das Dores Sousa Coutinho, pelo camarista Thomaz de Mello Breyner (Visconde da Carreira), aio dos príncipes, pelo Dr. Kessler, médico da casa real, por António Severino Alves, intendente das reais cavalariças, por 16 criados e criadas, 39 moços e empregados subalternos, 45 fiéis, cocheiros e demais criados das cavalariças reais.


Do ministério ia apenas o Duque de Saldanha, acompanhado pelo subchefe do Estado Maior, o Visconde de Pinheiro, pelos ajudantes Barão de Sarmento, Barão da Foz, D. Francisco de Almeida, Roussado Gorjão, D. Rodrigo de Almeida e Guedes da Costa.


A comitiva era ainda apoiada por 36 cavalos e 36 muares, fora o gado adstrito às carretas de transporte e bagagens.

Desembarcaram em Vila Franca de Xira, seguindo depois, por terra, para Caldas da Rainha, Alcobaça, Leiria, Pombal, Condeixa, Coimbra, Aveiro, Porto, Vila Nova de Famalicão, Barcelos, Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Santo Tirso, Ermesinde, novamente Porto, Ovar, novamente Aveiro, Montemor-o-Velho, Figueira da Foz, Verride, Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da Rainha, Runa e finalmente Lisboa.


Estava previsto que a família real visitasse a Figueira da Foz no dia 25 de maio, onde dormiria, atravessando no dia seguinte o Mondego a caminho de Leiria.


Na realidade, e pelos motivos à frente expostos, a visita só veio a ocorrer no dia seguinte, a 26 de maio, sem a presença da rainha D. Maria II e do infante D. Luís, e não tenho havido pernoita como previsto.


Em finais de abril a Câmara Municipal da Figueira da Foz foi avisada deste itinerário pelo Dr. Henriques Seco, Secretário-geral do distrito, servindo de Governador Civil.


No dia 2 de maio imediato, o Presidente da Câmara, Joaquim Maria Ferreira Pestana, convocou uma reunião com várias personalidades para planear a receção da família real.


A Câmara Municipal, composta pelo referido Presidente e pelos Vereadores António José Monteiro de Barros, António Dias, Adriano Freire de Macedo e João José da Costa, nomeou 4 Comissões para dirigirem a receção da família real: a Comissão promotora dos donativos para as despesas, a Comissão para o arranjo das casas onde ficaria a família real, a Comissão para a decoração da Igreja Matriz, ruas, arcos e outros arranjos e a Comissão para o arranjo dos barcos no rio.


A Comissão encarregada da escolha da casa onde seria recebida a família real elegeu a casa do Dr. António José Duarte Silva e para pernoita a casa de António Pinto Mello Fortes e a casa dos herdeiros de Caetana Efigénia Salazar.


Tendo-se concluído que a casa do Dr. António José Duarte Silva era pequena para receber tão grande comitiva, decidiu a Comissão escolher a Casa do Paul (que mais tarde pertenceria ao Dr. Pereira das Neves).


O Administrador do Concelho, Dr. João Inácio da Costa Brandão, informou a Câmara que o Governador Civil, Dr. Henriques Seco, viria à Figueira da Foz com o Diretor das Obras Públicas do Distrito para observar o estado das estradas que a família real atravessaria.


O Chefe do Distrito foi recebido em sessão extraordinária da Câmara, a que assistiram as Comissões dos festejos, tendo informado que as estradas de Coimbra à Figueira estavam intransitáveis pelo que o itinerário de Montemor-o-Velho à Figueira da Foz se efetuaria de barco, pelo rio.


Assim, no dia 26 de maio de 1852, pelas 5H30M, a família real embarcou em Montemor-o-Velho, no lugar de Ponte da Alagoa, e, descendo o Rio Mondego, desembarcou no cais em frente da Alfândega da Figueira sob um monumental arco triunfal, eram 7H30M da manhã.

O monumental arco fora projetado por João Pedro Fernandes Thomaz Pippa, funcionário público e antigo aluno da Academia das Belas Artes de Lisboa, fazendo-nos lembrar o arco da Rua Augusta em Lisboa (projetado em 1759, após o terramoto de 1755, iniciado em 1815 e concluído em 1875).

Uma grande multidão apinhava-se no cais da Alfândega, das janelas do casario pendiam vistosas colgaduras, o Mondego estava cheio de barcos ornamentados, repletos de gente, e no ar estralejavam foguetes, soavam músicas e vivas ao rei.

A vila da Figueira estava em festa, ansiando a chegada da comitiva real que seria recebida pela Câmara Municipal debaixo de um esbelto pálio em cujas varas pegavam o Presidente, os quatro Vereadores e o Dr. José Joaquim Borges (antigo Vereador).

Do cais partiu um grandioso cortejo em direção à Igreja Matriz, passando pelas Ruas da Alfândega, Praça do Comércio, ruas da Oliveira e do Paço, todas muito lindamente ornamentadas.

Depois do “Te Deum Laudamus” na Igreja Matriz, celebrado pelo pároco José Rodrigues Torrão, acolitado pelos párocos de Maiorca, Alhadas, Quiaios, Brenha, Ferreira e Lavos, o cortejo real dirigiu-se para o Largo da Fonte, onde, na Casa do Paul, numa sala sumptuosamente decorada, receberam a família real e serviram um faustoso almoço.

Após o almoço, o Rei decidiu visitar o Forte de Santa Catarina, porque quis ver de perto os motivos das fortes e antigas reivindicações dos figueirenses sobre as necessárias obras de melhoramento do porto e da barra.

Depois a comitiva real voltou ao cais da Alfândega, onde voltou a embarcar.

Foi um dia de festa na Figueira da Foz.

Foi há 174 anos.

Mas, algo de estranho aconteceu nesta visita real à Figueira da Foz, porque na comitiva real faltava a rainha D. Maria II e o infante D. Luís.

Da família real só D. Fernando e o Príncipe D. Pedro compareceram. Por que não estavam a rainha D. Maria II e o infante D. Luís?

Previa-se que a família real chegasse à Figueira da Foz a 25 de maio, onde jantaria e pernoitaria, seguindo no dia seguinte em direção a Leiria, com almoço na Marinha das Ondas.

Em reunião extraordinária da Câmara de 25 de maio, onde estiveram presentes as Comissões das festas, o Presidente Joaquim Pestana apresentara e lera as felicitações que dirigiria à Rainha, tendo todos concordado.

Contudo, neste mesmo dia 25 de maio, a Câmara recebeu um ofício do Secretário-geral, servindo de Governador Civil, informando que a rainha decidira regressar de imediato de Montemor-o-Velho para Lisboa, sem passar pela Figueira da Foz, por motivo de cansaço e por ter sido reclamada a sua presença em Lisboa.

A notícia espalhou-se rapidamente, os figueirenses estavam dececionados, e de imediato se constituiu uma Comissão composta pelo Presidente da Câmara, pelo Vereador António Dias, pela Direção da Associação Comercial, pelo Administrador do Concelho, pelo Pároco, e outros.

Todos se dirigiram a Montemor, onde já tinha chegado a família real, com o fim de convencerem a Rainha a visitar a Figueira da Foz.

A comitiva real aceitou parcialmente o pedido dos figueirenses e ficou acordado que no dia seguinte, 26 de maio, El-Rei D. Fernando e o Príncipe D. Pedro visitariam a Figueira.

Constou que o verdadeiro motivo que impediu a Rainha de visitar a Figueira terá sido evitar ficar hospedada numa determinada casa no trajeto da Figueira para Leiria.

Esta casa localizava-se na Marinha das Ondas, pertencendo a Joaquim Gonçalves Curado, conhecido por Joaquim da Marinha, ou Gaialo, um homem temido na região por, supostamente, ter mandado executar vários opositores políticos.

Lavos foi concelho durante 23 anos, de 1830 a 1853, quando viveu tempos de barbárie provocada por “malvados” pagos por Joaquim Gonçalves Curado, nomeado Administrador do concelho em 1841.

Este Administrador de Lavos fomentou a barbárie numa época em que em Lavos “os assassinos e ladrões iam-se aniquilando uns aos outros e só depois de mutuamente se extinguirem os grandes malvados, é que ali se restabeleceu o sossego”.

No seu tempo de Administrador de Lavos, de 1841 a 1851, houve doze assassinatos, supostamente mandatados por si.

Joaquim da Marinha tinha altas proteções, e por isso conseguira conservar-se no cargo de Administrador do concelho de Lavos, mesmo depois de se estabelecer o governo regenerador em 1851.

Assim, Joaquim da Marinha conseguiu convencer os organizadores da visita régia de modo que a rainha almoçasse e pernoitasse na sua casa da Marinha das Ondas.

De facto, em 18 de janeiro de 1852, em sessão extraordinária da Câmara Municipal de Lavos, presidida por José Francisco Vaz, fora deliberado tomar providências acerca da “recepção de Sua Majestade a Rainha e sua augusta família quando transitar por este concelho”, uma vez que a família real, no regresso a Lisboa teria de “seguir pela estrada real da beira-mar”.

Para o efeito, Joaquim da Marinha realizou despesas significativas e, “dentre os objetos que comprou foi uma farda para ele, como Administrador, e um bacio de prata para o quarto destinado à Rainha”.

A então vila da Figueira não possuía uma casa nobre com categoria para a pernoita da família real, mas a estadia na Marinha das Ondas, em casa do Administrador de Lavos, menos lhe terá agradado.

Assim, D. Maria II e o infante D. Luís ficaram em Verride, em casa de Jerónimo Pereira de Vasconcelos, aguardando o regresso do marido D. Fernando e do filho D. Pedro que visitavam a Figueira durante algumas horas.

(Jerónimo Pereira de Vasconcelos era um militar luso-brasileiro, primeiro barão e visconde de Ponte da Barca, marechal-de-campo e ministro de Estado honorário e da Guerra, par do reino e fidalgo Cavaleiro da Casa Real).

De Verride, a família real seguiu para Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da Rainha e Runa, tenho chegado a Lisboa no dia 2 de junho.

A família real só voltaria trinta anos depois, em 3 de agosto de 1882, quando D. Luís I, acompanhado da rainha D. Maria Pia de Saboia e de vários ministros, veio inaugurar o troço que ligava a Figueira da Foz à Pampilhosa e a Pampilhosa a Vilar Formoso (linha da Beira Alta).

 

SONETO DA ALGEMA

Num largo erguido em zelo teatral,

surge André Ventura, em pose de juiz,

brandindo algemas, gesto triunfal,

compradas, diz-se, em loja pouco sisuda e feliz.

 

Clama justiça em tom quase imperial,

contra um visitante de fama e raiz,

mas o cenário roça o carnaval,

mais farsa do que ato firme e feliz.

 

Entre bandeiras, gritos e encenação,

confunde-se o zelo com vaidade vã,

e a política vira uma palhaçada de ocasião.

 

Se a intenção era força soberana,

restou o ridículo riso na multidão,

teatro breve, de glória meio profana. 

O que nunca saiu de mim.

 Durante muito tempo pensei que as origens eram um lugar. Hoje sei que estava enganada. As origens não são uma morada.

São uma marca. Há lugares de onde saímos. E há lugares que nunca saem de nós.

Montemor-o-Velho é um desses lugares. Saí de lá há muitos anos. A vida levou-me para outras cidades, outras experiências, outras versões de mim. Mas há coisas que ficaram. Ou talvez seja mais correto dizer que vieram comigo.

A forma como olho para as pessoas. A importância que dou às histórias. O respeito por quem trabalha sem fazer alarde. A capacidade de encontrar beleza nas coisas simples. Muito daquilo que sou foi forjado naquela terra. Não apenas pelas ruas ou pelas paisagens. Mas pelas pessoas. Porque são sempre as pessoas que transformam um lugar numa memória.

Ao longo da vida fui colecionando experiências, projetos, viagens e encontros. Mas continuo a carregar vozes que nasceram muito antes disso. Algumas já partiram. Outras continuam por lá. Algumas nem imaginam que ainda vivem dentro de mim.

Depois da morte dos meus pais afastei-me. Não por falta de amor. Pelo contrário. Havia amor a mais e chão a menos para o suportar. Voltar significava encontrar ausências. E às vezes a dor tem uma forma estranha de nos proteger: afasta-nos daquilo que mais amamos.

Precisei desse tempo.

Precisei dessa distância.

Mas aprendi uma coisa. As raízes não desaparecem porque deixamos de visitar a árvore. Continuam lá. Silenciosas.

À espera.

E talvez seja por isso que hoje escrevo.

Porque escrever também é uma forma de regressar. Não ao passado. Mas às pessoas. Às histórias. Àquilo que ajudou a construir quem somos.

Falamos muito sobre partir.

Sobre conquistar o mundo. Sobre ir mais longe.

Mas raramente falamos da coragem que é reconhecer de onde viemos.

Porque ninguém cresce sozinho. Somos feitos de lugares.

Mas sobretudo de pessoas.

E se hoje sou quem sou, devo muito às que cruzaram o meu caminho naquela terra.

Algumas ensinaram-me através do amor. Outras através do exemplo. Outras através da ausência. Todas deixaram marca.

E talvez seja isso que as origens realmente sejam.

Não o lugar onde nascemos.

Mas o conjunto de histórias que continua a viver dentro de nós, mesmo quando já fomos embora.

Porque há terras que visitamos.

E há terras que habitamos para sempre.

Montemor, para mim, será sempre uma delas.

Mais sentimental até porque sua 6 junho faço anos



Desenganem-se.

Não é inteligência artificial.

Não é uma fotografia inventada por um robô qualquer.

É real. Muito real.

E talvez seja isso que a torna tão bonita.

Porque hoje já desconfiamos de tudo. Do que vemos, do que sentimos, do que parece demasiado perfeito para ser verdade.

Mas este momento existiu. Sem preparação. Sem pose. Sem tentativa de parecer especial.

Aconteceu. Assim.

Há silêncios que dizem mais do que muitas pessoas conseguem dizer a vida inteira.

Nesta fotografia há calma. Há presença. Há aquele tipo de ternura que não se explica muito bem, mas que se sente logo. Dois seres quietos, encostados um ao outro, como se naquele instante o mundo pudesse esperar.

Sempre achei curioso como os animais nos encontram. Não precisam que lhes digamos muito. Percebem quando estamos cansados, quando precisamos de colo, quando só queremos ficar ali, em silêncio, sem ter de explicar nada.

Assim foi.

Talvez seja por isso que gosto tanto destes momentos. Porque não pedem nada. Não cobram nada. Não exigem versões melhores de nós.

Apenas ficam.

Dão amor. Presença. Carinho. Uns mimos e, pelo caminho, se lhes apetecer, umas arranhadelas.

Mas há qualquer coisa profundamente bonita neste gesto. O encostar da testa. Os olhos fechados. A confiança. A paz pequena de um instante simples.

Às vezes a felicidade é mesmo isto.

Um momento pequeno.

Um abraço sem braços.

E um coração que, por instantes, finalmente desacelera. 


Do céu cinzento

caem cordas de água

que amarram ao cais

vontades de distância…

Nos céus, súbito um clarão,

revolta surda,

grito mudo há tanto sufocado…

desejo de partir para longe…

Agora é o sol poente

num céu imensamente azul,

apelo de uma partida adiada.

Amanhã, será o sol,

a luz intensa,

a viagem com hora marcada

rumo à lonjura.

Amanhã, o sol

e o azul das promessas…

Tempo de infinito sem limites.

CHEIAS

O céu rasga a sua paz,

escurece o horizonte,

e o rio, como um monstro esquecido,

levanta-se, imenso, voraz.

As águas sussurram promessas de ruína,

invadindo as terras e engolindo os campos.

O vento é um lamento distante,

as árvores, de raízes trêmulas,

perdem a luta, e dobram-se ao peso

do que se ergue em fúria.

O rosto do homem é uma máscara de pavor,

enquanto as águas avançam,

arrastando tudo à sua volta.

E quando, finalmente, as águas se aquietam,

fica o silêncio de uma terra destruída,

restos de um mundo submerso.

As cheias vêm como um sonho assustador,

e vão como um pesadelo não contado,

deixando na memória

que o eco da natureza,

quando se zanga, é a dona do fim.

Canção da Vida 

A vida começa como um sussurro, um acorde frágil que desperta no silêncio. É o nascimento, a primeira nota pura que rompe o vazio e anuncia: estou aqui. Nesse instante, tudo é descoberta — o olhar curioso, o passo incerto, o descompasso alegre de quem aprende a existir.

Depois, a melodia cresce. Ganha ritmo, intensidade e cores. É a juventude, o tempo das harmonias ousadas, das danças apressadas, dos sonhos que se lançam ao vento. O compasso alonga-se, encontra equilíbrio, e no meio dele surgem pausas — breves silêncios que ensinam a ouvir melhor a música.

Então, a canção amadurece. Torna-se profunda, marcada pelas marcas do tempo e pelos ecos das memórias. Cada acorde é mais lento, mas também mais cheio de sentido. É a sabedoria que nasce do vivido, a beleza que se encontra nas notas simples.

Por fim, chega o último trecho: suave, delicado, quase impercetível. A melodia despede-se, mas não morre. Permanece no ar como eco, lembrança, saudade. Porque a vida, mesmo quando finda, continua sendo música — guardada no coração de quem escutou a sua canção.

FAZER POEMAS

Fazer poemas…

É namorar com as palavras

é tocar freneticamente

nos mais secretos pensamentos

é criar histórias da nossa história

é um respirar puro e limpo da alma

é sonhar, é amar, é perdoar,

é esquecer, é lembrar, é rir

é chorar…


Fazer poemas…

É adormecer num lugar

que nos leva para outras paragens

é um salto no escuro

quando começa a clarear

é permanecer e ficar agarrada

a sentimentos escondidos

sem culpa e sem temor

é sentir amor…


Fazer poemas…

É deixar entrar um raio de lua cheia

deitar-se num chão pejado de estrelas

e adormecer coberta pelo raiar do sol

é sonhar com sítios desconhecidos

e encontrar corações que batem

no mesmo compasso…

Alimentam-se dos meus sonhos

e querem sonhá-los connosco!...




Resumo

Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como «um rastilho de pólvora». Uma cegueira coletiva. Romance contundente. Saramago a ver mais longe. Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos, face ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da preocupação cívica.






sábado, fevereiro 28

BARCAÇA_65

Boa noite, nestas viagens pelo Mondego num mês difícil onde as águas invadiram trilhos antigos e mais uma vez visitaram as povoações, uma palavra de apreço para todos os que se prontificaram em ajudar um povo que estava perdido entre os degraus de sua casa e as estradas cobertas de água que os deixaram mais uma vez sós.

Mas a nossa Barcaça segue o seu caminho divulgando o que nos vai na alma, seja em forma de poesia, em histórias como na divulgação do nosso património.

Pontos Sem Fim, uma resenha do que se passou no distrito de Coimbra com as cheias e a ventania.

Mário Silva fala-nos do Convento de Nossa Senhora dos Anjos monumento com tanta história que aqui na primeira parte já nos trás um cheirinho da sua grandiosidade.

Maria Forte, toca-nos com o seu "Grito" de tantas coisas que pensamos que só acontecem aos outros mas quando nos bate à porta é que sentimos as fragilidades ... e são muitas.

Fernando Curado que mensalmente aqui divulga histórias do património da Figueira da Foz nesta edição traz-nos “FIGUEIRA DA FOZ - O CASAMENTO DO 1º JUÍZ DE FORA”.

Carla M. Henriques, um tema atualíssimo a mãe natureza, já António Girão debruça-se sobre um tema também na ordem do dia, “Qual a razão para insegurança nalgumas localidades do interior?”

 Na secção de Poesia Garça Real os seus sonhos, como desejaria ou como deseja encontrar o dia de amanhã. Isabel Capinha como saindo de casa e vagueado pelos campos onde sente os odores e vê as cores do nosso campo. Isabel Tavares mergulha na sua praia conjugando as palavras pela positiva, onde o amor, afeto e esperança está sempre presente. Isabel Rama como tivesse entrado na Barcaça e percorrendo o seu leito sente agonia de uma população “- Aí, Jesus! Meu Deus!”

Na livraria escolhi “Rezar de olhos abertos” de José Tolentino Mendonça

E cito: “Há pessoas que rezam baixando os olhos, escondendo nas mãos o rosto, voltando-se para dentro. Há outras, porém, que abrem esforçadamente os olhos ao rezar, numa tentativa de observar a vida no seu espanto. Quer umas, quer outras - estão certas.”

Já na Música escolho Zeca Afonso num tema que tanto nos diz. Em Balada do Outono | José Afonso ao vivo no Coliseu 1983    


Aqui vai um relato detalhado e factual sobre os momentos e consequências das cheias e inundações que afetaram o Centro de Portugal em 2026, com foco nas zonas de Montemor-o-Velho, Coimbra, Ereira, e Figueira da Foz, e o impacto nos habitantes dessas comunidades:


🌧️ Contexto meteorológico e causa das cheias

No início de 2026, o território português foi atingido por uma série excepcional de tempestades atlânticas, um verdadeiro comboio de tempestades, com precipitação persistente e intensa e ventos fortes, incluindo a depressão Storm Kristin, uma das mais violentas já registadas no país.

Este padrão de tempo extremo gerou volumes de chuva recorde, saturou solos e rios e sobrecarregou barragens e sistemas de drenagem, precipitantes da crise hidrológica na bacia do rio Mondego.


🌊 Situação em Coimbra e no vale do Mondego

Inundações, risco e evacuações

·      A cidade de Coimbra enfrentou níveis de precipitação históricos — com mais de 1 200 mm de chuva entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026 — um recorde absoluto na região.

·      As inundações foram impulsionadas pelo transbordo do rio Mondego e seus afluentes, com risco de grande cheia que poderia atingir até a baixa da cidade.

·      Autoridades emitiram alertas máximos e realizaram ações de evacuação preventiva de milhares de habitantes nas zonas ribeirinhas, com cerca de 3 000 pessoas retiradas de áreas de risco em torno de Coimbra, Montemor-o-Velho e Soure.

·      Casas, infra-estruturas e serviços básicos sofreram danos severos, incluindo estradas, mercados e parte das muralhas históricas.

👥 A “agonia” dos habitantes — relatos de moradores contaram dias de incerteza, vigilância constante do nível do rio, deslocamentos forçados, comunidades isoladas e interrupção de vida normal (escolas, comércio, serviços).


🏘️ Montemor-o-Velho e Ereira: zonas baixas isoladas

·      A freguesia de Ereira, no concelho de Montemor-o-Velho, tornou-se literalmente uma ilha cercada pelas águas por mais de uma semana, isolando moradores, agricultura e comércio locais pelo transbordo do Mondego e a saturação dos canais adjacentes.

·      Comunidades agrícolas, particularmente arrozais e campos de produção, ficaram totalmente submersos, transformando estradas em rios e interrompendo ligações essenciais com centros urbanos e entre vizinhos.

·      A junta local denunciou, além das cheias, a falta de manutenção adequada das infra-estruturas de contenção como fator que agravou a situação, deixando muitos sentir-se desamparados perante a emergência.

A agonia de muitos residentes passou por dias sem acesso fácil a serviços de socorro, abastecimento e comunicação, e pelo medo constante de novos surtos de água isolarem ainda mais as zonas rurais.


🚧 Figueira da Foz: impactos e rescaldo

Embora Figueira da Foz, na foz do Mondego, tenha sido mais afetada por impacto meteorológico e consequências indiretas do temporal do que por cheias tão intensas como nas zonas interiores, a região enfrentou desafios:

·      Estradas importantes como a A14 ficaram inoperacionais por longos períodos devido a danos causados pelas inundações e água acumulada.

·      A logística, comércios e transporte sofreram interrupções, deixando residentes e empresas locais numa sensação de limbo até à normalização das ligações.

·      A cidade também viveu outras emergências humanitárias (como incêndios noutros locais), o que reforçou a sensação de instabilidade geral no distrito de Coimbra.


🧠 Impacto humano e emoções na população

A experiência dos habitantes dessas áreas durante as cheias de 2026 incluiu:

·      Evacuações forçadas e noites sem dormir, com famílias a reunir-se em abrigos ou casas de amigos/familiares fora da zona inundada.

·      Medo da perda de bens, casas e rendimentos, especialmente para agricultores que viram safras e infra-estrutura rural destruídas.

·      Sentimento de impotência e desamparo, vincado por críticas à manutenção da infraestrutura hidráulica e respostas oficiais, que muitos consideraram lentas ou insuficientes.

·      A comunidade enfrentou também dificuldades práticas — corte de estradas e comunicações, falta de acesso a serviços básicos e necessidades urgentes de ajuda humanitária.


📌 Resumo

👉 Um comboio de tempestades consecutivas no início de 2026 trouxe chuva e ventos extremos, saturando solos e enchendo rios.
👉 O Mondego e seus afluentes transbordaram, com consequências dramáticas em Coimbra, Montemor-o-Velho e Ereira: populações evacuadas, aldeias temporariamente isoladas e campos inundados.
👉 Figueira da Foz, embora mais perto da foz, enfrentou impactos nas comunicações e transporte, acentuando o sentimento de crise.
👉 Para muitos habitantes, foram dias de incerteza, medo e luta para proteger o que mais importa — famílias, casas e modos de vida. 


Convento de Nossa Senhora dos Anjos

PARTE I

 

Localizado a nascente da vila de Montemor-o-Velho, no sopé da colina e junto aos “campos do Prado”, o Convento de Nossa Senhora dos Anjos constituiu-se desde finais do século XV e inícios do século XVI como uma das principais entradas monumentais desta vila-museu, marcando igualmente o quotidiano das suas gentes.

As fontes são unânimes ao declararem que esta casa conventual teve a sua origem numa pequena ermida, titulada de Nossa Senhora dos Anjos, propriedade de Diogo da Azambuja, figura maior da história nacional e da história manlianense, que foi fidalgo da Casa Real, membro do Conselho Real, cavaleiro freire da Ordem de Avis, comendador de Cabeço de Vide e Alter Pedroso, guarda-roupa e guarda-mor de D. Pedro (rei de Aragão), alcaide-mor do castelo de Monsaraz, vedor-mor das artilharias e dos arsenais do Reino, e, na costa africano, fundador e capitão-mor da fortaleza de São Jorge da Mina, fundador, capitão e alcaide-mor do Castelo Real de Mogador, e capitão de Safim e da vila e castelo de Santa Cruz do Cabo Gué.

Na sequência da ação e influência exercida por Diogo de Azambuja junto do Geral da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, a 10 de junho de 1494, dia em que a Igreja Católica comemora a festa dos Anjos, o Papa Alexandre VI concede o Breve de Licença de edificação do convento de Nossa Senhora dos Anjos de Montemor-o-Velho, o primeiro e único daquela Ordem a ser edificado a norte da Extremadura, já que na região apenas existiam frades cónegos regulares de Santo Agostinho.

A partir deste ano, têm início as obras, com a adaptação das estruturas pré-existentes (ermida e casas de habitação), montagem dos estaleiros, estudo do terreno, planos e projetos, contratualização de “oficiais pedreyros e carpinteyros”, provisão de fundos para as obras e recrutamento de frades e noviços.

No entanto, estas obras terão decorrido de forma algo lenta, provavelmente devido a dificuldades em recursos humanos e materiais, pelo que só a intervenção de benfeitores, padroeiros e do próprio rei D. Manuel I tornou viável a continuação da empresa.

Não. Não vai voltar ao normal.

Parem de perguntar isso.

Depois de uma tempestade, de uma cheia, de um abalo, não há botão de reset.

Há lama. Há prejuízo.

Há medo. Há insegurança.

E há uma coisa ainda mais violenta: a queda da ilusão.

A ilusão de que o chão é fixo.

A ilusão de que o que sempre foi, continuará a ser.

A ilusão de que basta esperar que “volte ao normal”.

Não volta.

Quando a estrutura de base é mexida, seja uma casa inundada, uma vila, uma cidade fustigada, uma relação que acaba, um negócio que cai, um sistema que falha, não é só o cenário que muda.

 É a identidade.

Porque nós construímo-nos em cima de referências de segurança.

E quando elas tremem, nós trememos com elas.

O problema é que fomos educados para esperar.

Esperar que o Estado resolva.

Esperar que o rio baixe.

Esperar que a economia estabilize.

Esperar que a vida “acalma”.

Mas esperar é um luxo perigoso quando a base já foi abalada.

Não é sobre voltar ao que era.

É sobre assumir que o que era morreu.

E isto é político, sim.

Porque comunidades inteiras vivem numa falsa sensação de controlo.

Porque continuamos a construir como se a água não voltasse.

Porque falamos de prevenção depois da tragédia.

Porque romantizamos a resiliência, mas não questionamos as estruturas que falham.

E também é pessoal. Muito pessoal.

Quando a tua base abana, tu questionas tudo.

Quem és.

O que faz sentido.

O que vale a pena.

O que é seguro.

E a resposta não é nostalgia.

Não é “vamos ver como fica”.

Não é fingir que amanhã será igual a ontem.

A resposta é adaptação brutal.

É flexibilidade emocional.

É reconstrução consciente.

É perceber que a nova normalidade não é um prémio de consolação, é o único caminho possível.

Nada volta ao sítio onde ficou.

Volta diferente. Ou não volta.

E talvez a maturidade coletiva, e individual, comece aqui: na coragem de admitir que estabilidade permanente é um mito.

O rio sobe. O vento leva.

Os sistemas falham.

As estruturas cedem.

E tu?

Ficas à espera que “normalize”?

Ou assumes que tens de te reorganizar por dentro?

Não há regresso ao ponto anterior.

Há evolução ou há estagnação.

E se a base foi mexida, então mexe-te também.

 Reconstrói. Reposiciona. Recomeça. S

em ilusões. Com consciência.

Porque o mundo não te deve estabilidade.

Mas tu deves a ti própria a capacidade de te reinventares.


        FIGUEIRA DA FOZ - O CASAMENTO DO 1º JUÍZ DE FORA

José de Seabra da Silva, natural de S. Martinho da Torre de Vilela (Coimbra), estadista marcante da segunda metade do século XVIII, ministro de D. José I, de 1771 a 1774, e de D. Maria I, de 1788 a 1799, adquiriu a Quinta do Canal em 1770.


No ano seguinte, em 1771, por decreto de 12 de março, a Figueira foi elevada a vila e recebeu Bento José da Silva como seu 1º Juiz de Fora, o qual tomou posse em 30 de julho de 1771, então com 35 anos, tendo desempenhado o cargo até 1774.


O Juiz de Fora era nomeado pelo Rei, e representava-o, e assim era denominado porque deveria ser estranho ao concelho para o qual era designado e, não dependendo do poder local, o tornava mais isento nas decisões judiciais.


Bento José da Silva, conterrâneo e amigo de José de Seabra da Silva, o dono da Quinta do Canal, então ministro de D. José I, terá tido papel importante na nomeação do seu amigo para 1º Juiz de Fora da Figueira.

Bento José da Silva, então com 46 anos, casou na capela da Quinta do Canal com D. Caetana Efigénia de Salazar Vasconcelos da Silva e Crato, vinte anos mais nova.

O casamento realizou-se no dia 28 de janeiro de 1782 e os padrinhos foram José de Seabra da Silva, o proprietário da Quinta do Canal, e sua esposa D. Ana Felícia Coutinho Pereira de Sousa Tavares da Horta Amado Cerveira.


O padre, D. José da Costa Torres, celebrou o ato solene num bonito e valioso altar, que está hoje em Barra, na Capela de Nossa Senhora do Rosário.


A noiva, Caetana Efigénia, com 26 anos, sexta filha do Juiz da Alfândega, José Lázaro da Silva, e de Maria Rosa Beatriz, nasceu na Figueira da Foz a 27 de outubro de 1756.


Caetana Efigénia foi batizada em 17 de novembro do mesmo ano, pelo padre Manoel Thomaz, sendo padrinhos o cónego Caetano de Figueiredo e a sua tia Marcelina Josefa Caetano.


Caetana Efigénia tinha 15 anos quando o seu futuro marido, Bento José da Siva, chegou à Figueira da Foz, em 1771, para ocupar o lugar de 1º Juiz de Fora.


Bento José da Silva frequentava a casa do Juiz da Alfândega, José Lázaro da Silva, onde conheceu e se apaixonou pela sua filha, Caetana Efigénia.


A mãe da noiva, Maria Rosa Beatriz, e as sete tias da noiva, irmãs de Maria Rosa, eram conhecidas na Figueira como “as senhoras alfândegas”.


No dia 1 de novembro de 1781, José Seabra da Siva e o seu irmão Lucas Seabra da Silva, assinaram na Quinta do Canal, como testemunhas, a escritura em que Bento José da Silva se comprometeu a casar com Caetana Efigénia.


Caetana Efigénia e a mãe, Maria Rosa Beatriz, estavam representadas por Joaquim Inácio de Salazar e Vasconcelos, irmão da noiva, que, como procurador, em nome da noiva, declarou aceitar a promessa de casamento “o que fazia também o seu futuro esposo e que aceitava o dote que com ele se dotava para sustentação dos encargos de matrimónio para cujo efeito se dotava também com a legítima paterna” e, por parte da mãe, disse mais que esta, pelo grande gosto que tinha de que se efetuasse o casamento e para sustentar os encargos dele, “além dos vestidos e outros ornatos que a noiva levasse”, a dotava com a terça dos bens que ficassem pelo seu falecimento e com as heranças que lhe vinham da mãe, em Tomar.


A noiva, formosa e elegante, parecia uma antiga dama da corte francesa, com cabelos loiros, penteado à Maria Antonieta, herança atávica que lhe vinha dos Cratos de Krafteim.


Bastaria pensarmos que Caetana Efigénia era sobrinha das “senhoras Alfândegas”, irmãs de sua mãe, com quem convivera durante toda a sua infância e mocidade, especialmente com a sua tia Isabel Peregrina.


O noivo, Bento José da Silva, era um quarentão com boa presença, juiz, deputado, tesoureiro geral da Junta de Administração da Fazenda da Universidade.


Muito orgulhosos estavam os pais da noiva, pois casavam a sua filha com um homem importante, sob os auspícios do Dr. José Seabra da Silva, rico, ministro e próximo da família real.


O casamento realizou-se na Quinta do Canal no dia 28 de janeiro de 1782.

No Natal anterior, Bento José da Silva passou a festa Natalícia em casa dos futuros sogros, onde pernoitou.


Em 26 de setembro de 1782 nasceu a primeira filha do casal, a menina Maria Justina, oito meses depois do casamento e nove meses após a festa Natalícia.

Nos últimos dias, a mãe natureza falou alto.

Falou com chuva que não pediu licença, com trovoada que nos acordou por dentro, com um vento tão forte que pareceu que o mundo perdeu o eixo. E, de repente, o país ficou virado do avesso. Pessoas sem água. Sem luz. Sem comunicações. Coisas simples, básicas, que só percebemos o quanto valem quando nos faltam.

E é impossível não sentir isto como um aviso!

Porque a natureza tem esse poder de nos pôr no lugar. De nos lembrar, sem palavras, que a vida muda num segundo. Que aquilo que damos por garantido não é garantido. Que a segurança é, tantas vezes, uma ilusão tranquila.

Depois, quase como se nada tivesse acontecido, ela muda de rosto.

A tempestade abranda, o céu abre, a luz volta. E há uma beleza tão serena nisso, tão limpa, tão brilhante, que eu fico a pensar se não somos também assim. Nós. A vida. Um dia por cima, outro dia por baixo. Um dia caos, outro dia paz. Um dia medo, outro dia recomeço.

E eu pergunto-me, em silêncio, se não haverá algo para aprender com tudo isto?!?

Acho que sim. Há. Há mesmo!

Aprender a não adiar o que importa. A não viver sempre como se houvesse tempo infinito. A aproveitar melhor o que não se compra: presença, silêncio, conversas, abraços, casa, pessoas, pequenos instantes que nos salvam sem darem por isso.

Claro que precisamos de uma casa. De água. De luz. De condições básicas.

Mas talvez também precisemos de outras coisas, que não se veem: mais calma, mais leveza, mais respeito pelo essencial. Pelos outros. Por nós. Menos pressa. Menos ruído. Menos distrações a roubar-nos a vida. E o seu sentido e valor!

E, acima de tudo, talvez a mãe natureza esteja só a pedir-nos uma coisa simples e enorme ao mesmo tempo.

Que a protejamos. Que a respeitemos. Porque isso significa, na verdade, respeitar-mo-nos e proteger-mo-nos.

Porque, lembremo-nos sempre, quando ela treme, nós trememos com ela. 🤍

QUAL A RAZÃO PARA A INSEGURANÇA NALGUMAS LOCALIDADES DO INTERIOR?!

Não querendo ser arauto da verdade, pois analiso as situações perante a minha experiência de vida (social, profissional e académica).

O problema é estrutural e cultural: instalou-se a cultura de eleição de pessoas para determinados cargos assente em premissas como a cor partidária, o comportamento individual perante as respostas do coletivo e o "jeito" que a junção destas duas situações possa dar. A capacidade, o conhecimento, o mérito e outras bases essenciais para o desempenho de determinadas funções são desprezadas ou anuladas. Enquanto a função vai sendo meramente administrativa e política, as coisas fluem sem nós, vão andando.

Quando os imprevistos começam a aparecer, a pouca capacidade (estou a ser politicamente correto) de os resolver aparece e, aparece da pior forma: nada é resolvido e a bola de neve adensa-se, até tornar-se uma avalanche. A criminalidade, nalguns casos, parece-me ser um caso desses, uma falta de visão proactiva preocupante: não se conhecem as peças do jogo que devam ser jogadas e inicia-se a técnica do tapa-buracos e o buraco alarga-se a aprofundasse até se tornar sem fundo. Normalmente, as pessoas mal preparadas (ou impreparadas) para o desempenho de uma função não aceitam opiniões, pois isso choca com a incompetência e a resolução dos problemas. Então, qual a razão para essas pessoas estarem no poder micro-local (a expressão é minha)?!

O caciquismo, os interesses instalados, a dependência, seja por qual razão seja e os compadrios. Forma-se uma barreira intransponível!

Outra razão está diretamente ligada às forças de segurança, sobre a qual tenho opinião formada, mas não a dou, pois "há sempre quem tenha razão" e os outros são tratados como "malucos", só porque incomodam. Quando se conhece a razão de um problema, diz a ciência que é meio caminho andado para o resolver.

Então, não se resolve porquê?!

Talvez apareçam outras situações (não lhes chamo interesses, para não parecer mal) corporativos, de defesa entre pares que impossibilita ir à raiz da questão e resolvê-la. Aqui, reside o ponto fulcral: quais são esses interesses?!

Eu sei quais são e como se resolveriam, mas isso iria mexer com muita coisa, com ambições políticas, profissionais, pessoais, familiares e por aí além.

Vivo em Cantanhede há cerca de quinze anos e já ouvi milhares de vezes que a culpa é de quem vem de fora. A nossa região tem excelentes pessoas que são de cá, tem excelentes pessoas que vêm de fora e tem gente que não presta, também de ambas as situações. Isto para dizer o quê?!

Para dizer que, enquanto houver "doutorados em balcão de tasca" a opinar sobre o que não sabem e a trucidar quem sabe, a insegurança nunca acabará.

Mais uma vez, porquê?!

Simples: isso iria mexer com o primo do neto da tia, do cunhado da prima desses "opinadores" e o crime é necessário para essa gente e, como no velho ditado "cães e lobos comem todos" e não interessa "fazer ondas", sob pena de se "destapar o cu" a muita gente. Vai-se vivendo "nas papas e bolos", enganando todos (não é tolos, é mesmo todos!)

 🙂Resumindo: há que tomar decisões sérias, bem fundamentadas, com exposições, sobretudo ao poder local, nas suas várias vertentes: político; de segurança e de instituições de cidadãos que possam fazer parte do processo. Mas, com coerência, com unidade e com assertividade. Ir aos lugares certos, com as palavras certas, a razão certa, sem medo, pois somos uma sociedade democrática que deve funcionar "oleadamente" sem "pedras na engrenagem". Sobre isto, muito há a dizer e muito mais a fazer, basta olhar à nossa volta, em que a vítima é quase sempre tida como a culpada, porque isso interessa à passividade. E, estou a ser muito meigo!



         Agora que a vida

tem um sabor novo

não vou desistir

dos sonhos de outrora…

Regressarei serena

e autêntica

às manhãs azuis

que as nuvens esconderam…

Encontrarei, intactas,

as pétalas desse passado

que a névoa ocultou

e o vento desfolhou …

Encontrarei a flor saudosa

ainda à espera deste agora renovado.


OUTRA TERRA - VERDES CAMPOS

 

Verdes campos, vastos e serenos,

onde o vento dança entre as folhas,

e a terra respira em silêncio,

como se guardasse segredos do mundo.

 

Nos verdes campos,

as flores brotam como estrelas tímidas,

colorindo o chão com suas cores,

é o abraço da terra

que acolhe tudo o que lá nasce.

 

O céu, de um azul sem fim,.

olha de longe, atento e sereno,

como um guardião do que é puro.

 

Os verdes campos são mais que paisagem,

são um refúgio da alma,

um lugar onde o coração encontra paz,

onde se aprende, no seu silêncio,

que a beleza não está nas coisas,

mas na quietude de um instante.

 

Ali, não há pressa,

não há agitação,

apenas o ritmo do vento

e o sussurro das folhas que contam histórias.

 

E é ali, entre as cores e os aromas,

que compreendo que o mundo é simples,

feito de vida, terra e amor.


MUNDO INFINITO

Quando a vida me alegra

Quando o sol me sorri

Quando o sonho me apanha

Quando a luz está em mim.

 

Quando o coração extravasa

Tanto amor que eu sinto

Abro os braços e agarro

Este mundo… infinito.

 

Quando afago com os olhos

Tanta coisa… tão bela

Sinto-me mergulhada

Em brandura e sossegos.

 

Quando os dias em flor

Se desfolham em mim

Eu aspiro esse amor

E faço dele um jardim.


Vozes de Janeiro: O Lamento do Mondego

 

Era uma noite como tantas outras de janeiro. Na pequena freguesia da Ereira, concelho de Montemor-o-Velho, uma avó desfilava memórias, contando ao neto, Gustavo, histórias de tempos em que as águas não pediam licença para entrar.

Lá fora, a praia fluvial — que no verão transborda com as gargalhadas e as correrias das crianças — repousava agora sob um silêncio baço, iluminada apenas pelo brilho solitário de um candeeiro. O Mondego parecia aquietar-se num abismo profundo...

Mas, de repente, a tempestade anunciada rasgou a calma, varrendo ferozmente tudo o que encontrava pelo caminho.

Na escuridão das casas, o medo ganha forma. Ecoam preces e sussurros que o vento, no seu açoite, ensurdece:

— Aí, Jesus! Meu Deus!

Telhados são desmembrados pela mão fria do temporal e o céu, carregado, parece chorar as dores das cheias de outrora. Vozes perdem-se neste inferno noturno; recordações que a alma preferia não resgatar. Indiferente ao pânico, mas vítima da sua própria força, o Mondego corre com uma fúria clamando por clemência. Na sua voz de lama e corrente, o rio parece suplicar:

— Olhai por mim! O meu leito já não suporta o fardo de tanta água; sufoco na minha própria imensidão.

Gustavo, encolhido sob a manta de lã grossa que a avó tricotara em invernos mais calmos, sentia o tremor do chão sob os seus pés descalços. O som não era apenas o do vento; era um rugido grave, vindo do ventre da terra, como se o rio estivesse a tentar saltar as margens para fugir de si mesmo.

— Avó, o rio está a chorar? — sussurrou o menino, com os olhos fixos na janela onde a chuva batia como se quisesse estilhaçar o vidro.

A velha senhora não respondeu de imediato. As suas mãos, sulcadas pelo tempo como o leito do próprio rio, apertaram o terço de madeira.

— Não está a chorar, meu filho — disse ela, com a voz embargada. — Está a pedir espaço. Nós tirámos-lhe as margens, demos-lhe muros de betão e esquecemo-nos que ele tem memória. O que ouves é o Mondego a reclamar o que sempre foi seu.

Lá fora, um estalido seco ecoou: um salgueiro centenário cedia finalmente à fúria da corrente. A água, negra e voraz, começava a lamber as primeiras pedras do cais, subindo a rua como uma serpente silenciosa. O candeeiro da rua soltou uma última faísca azul e apagou-se. A escuridão era agora total, restando apenas o brilho das brasas na lareira.

Mas, como todas as tempestades, o vento começou finalmente a cansar-se. O uivo transformou-se num sopro húmido e o Mondego, exausto, começou a recolher-se.

Quando os primeiros raios de sol rasgaram as nuvens, uma luz dourada refletiu-se nos espelhos de água.

— Olha, avó! — exclamou o menino.

Lá fora, as portas abriam-se. Vizinhos chamavam uns pelos outros; o Sr. Joaquim trazia a sua barca para ajudar; a D. Maria trazia pão quente. Era um formigueiro de braços dados, uma força que nenhuma cheia conseguia arrastar.

A avó pousou a mão no ombro de Gustavo e sorriu:

— Vês, meu filho? O rio pode ser forte, mas a nossa raiz é mais funda. Ele leva a terra, mas nós trazemos sempre o amanhã de volta.


"Há pessoas que rezam baixando os olhos, escondendo nas mãos o rosto, voltando-se para dentro. Há outras, porém, que abrem esforçadamente os olhos ao rezar, numa tentativa de observar a vida no seu espanto. Quer umas, quer outras - estão certas."


Concerto no Coliseu de Lisboa a 29 de Janeiro de 1983


BARCAÇA_68

           Com naturalidade, a nossa Barcaça segue silenciosa ao longo do Mondego, levando até às suas gentes um pouco de nós, algumas memór...