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sexta-feira, julho 31

BARCAÇA_70

 


Barcaça

Barcaça segue na bolina dos dias confusos, entre os ventos da política e os incêndios que assolam a Europa. Navega por águas incertas, onde o rumo se perde entre discursos, cinzas e inquietações. Ainda assim, avança — não por conhecer o destino, mas por saber que permanecer à deriva nunca foi uma escolha.

Iniciamos com “Parte V Convento de Nossa Senhora dos Anjos”, do nosso colaborador Mário Silva.

Já Fernando Curado evoca tempos idos de banhistas ilustres que passavam pela praia de Buarcos (Júlio Isidro).

Carla M. Henriques, O texto reflete sobre a expressão «estás como o tempo», associando as mudanças do clima às emoções e ao estado físico de uma pessoa. A autora descreve um dia marcado pelo pouco descanso, pelas dores e pelo cansaço, sentindo-se tão instável e “cinzenta” quanto o céu. Apesar disso, reconhece que há dias mais leves e luminosos, em que tudo parece correr melhor e a esperança regressa.

Mesmo num momento de tristeza e exaustão, decide sorrir e partilhar uma fotografia, não para esconder o que sente, mas como uma forma de procurar energia positiva e impedir que as dificuldades dominem todo o dia. No final, questiona se somos nós que nos parecemos com o tempo ou se é o tempo que reflete aquilo que sentimos, concluindo que, apesar de tudo, vale a pena tentar encontrar um pouco de luz.

Maria Forte leva-nos aos Bancos da Praça onde tudo acontecia e ninguém dava um passo em frente.

António Girão, com o seu ar atento, verificou uma situação que o deixou intrigado e a todos nós.

Maria Rama Matias é um menino de 10 anos, curioso, irreverente e muito imaginativo. Um dia, enquanto os pais estão ausentes, decide explorar o sótão, um lugar proibido e cheio de objetos antigos. Lá, encontra um velho relógio coberto de pó e, ao limpá-lo, vê um raio de luz dourada refletir-se num espelho antigo.

Na secção da Poesia, Garça Real, O poema descreve o desejo intenso de partir e alcançar novos horizontes. A chuva e o céu cinzento simbolizam a sensação de estar preso e a vontade de liberdade reprimida. Depois, o aparecimento do céu azul e do sol representa a esperança e a aproximação da viagem. No final, o futuro é visto com otimismo, como um caminho cheio de promessas, liberdade e possibilidades infinitas.

Isabel Capinha: O texto fala sobre a valorização de pessoas sensíveis, bondosas e verdadeiras, que sabem amar, demonstrar carinho, cultivar amizades e apreciar as pequenas coisas da vida. Também destaca a importância de ter um coração livre de ódio e preconceito, reconhecer os próprios erros, aprender com eles e recomeçar. A mensagem celebra pessoas que carregam amor, empatia, perdão e emoções sinceras dentro de si.

Isabel Tavares: O poema “Ame-se” transmite uma mensagem de amor-próprio, esperança e valorização pessoal. Mesmo diante das dificuldades, da tristeza, da solidão ou das desilusões da vida, a pessoa deve continuar a amar-se e a reconhecer o seu próprio valor. O texto reforça que cada ser humano é único, especial e criado por Deus para ser feliz, não devendo duvidar da sua importância. Assim, a principal mensagem é que, independentemente das circunstâncias, devemos cuidar de nós, aceitar-nos e manter o amor-próprio.

Na seção de literatura, clássicos da literatura universal.

Na discografia, alguém que nos deixou recentemente: Luís Represas.

 

Agradecimento

A Barcaça segue o seu rumo pelas terras de Montemor-o-Velho e da Figueira da Foz, levando consigo o empenho, a dedicação e o espírito de colaboração de todos os que fazem parte desta caminhada.

Agradecemos sinceramente a todos os colaboradores pelo excelente trabalho desenvolvido, pelo compromisso demonstrado e pelo contributo essencial para o sucesso deste percurso.

Que continuemos a navegar juntos, com entusiasmo e confiança, rumo a novos desafios e conquistas.

Muito obrigado a todos!



Convento de Nossa Senhora dos Anjos.

 

PARTE V

 

No século XVIII, operaram-se novas reformas. Na parede do altar-mor foi pintado um grande retábulo fingido, do qual hoje apenas restam fragmentos, e, já para os finais do século, foram introduzidos nas outras paredes da capela-mor renascentista azulejos historiados com cenas da Vida da Virgem, cujo rasto se perdeu. Deslocou-se o túmulo de Diogo de Azambuja do seu local primitivo para um canto, substituiu-se a porta de acesso à sacristia por uma de cantaria emoldurada de azulejos e edificaram-se anexos adossados à igreja. Também o primitivo altar quinhentista da capela-mor foi substituído por outro, de talha em madeira, no seguimento do estilo utilizado em Santa Cruz desde cerca de 1750. No andar superior do claustro foi incluída uma capela abobadada com comunicação para o coro.

Após a extinção das ordens religiosas, em maio de 1834, e a subsequente venda em hasta pública das estruturas conventuais (exceto a igreja) a José Ferreira Pinto Bastos, fecharam-se as portas de ligação do claustro à sacristia, torre sineira, capela e coro alto, entaiparam-se portas, romperam-se as paredes e caixas murárias, e repartiram-se as instalações visando à sua adaptação a habitações, tabernas, palheiros, armazéns e estábulos. Foi o fim de uma estrutura que, durante séculos, foi composta por igreja e claustro, livraria e celas, hospedaria e refeitório, celeiros e cozinhas, adega e lagar de vinho, pátio com poço de água, armazéns de azeite e lojas de acomodação.

À semelhança do que aconteceu com muitos outros conventos e mosteiros, a igreja, as alfaias e os paramentos do culto divino terão sido entregues à diocese de Coimbra. Os restantes bens móveis, por certo, foram arrolados, alienados (“roubados” ou vendidos ao desbarato), dispersos ou abandonados. As propriedades, rendas, foros e juros terão seguido os mesmos caminhos. O “saque” e a venda foram uma constante.

Apesar de, em junho de 1910, a igreja, incluindo o túmulo de Diogo de Azambuja, ter sido classificada como Monumento Nacional, só em 1933 é que a Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais dá início ao seu louvável empreendimento de recuperação daquele que, à época, era considerado, nas palavras de Augusto dos Santos Conceição, como “um reservatório de águas lodosas, que minavam, sem descanso, os velhos alicerces (refere-se, obviamente, às cheias dos campos do Mondego, que, inverno após inverno, inundavam e debilitavam o templo), enquanto a chuva fendia as abóbadas e esboroava as cimalhas, paredes e contrafortes.”

Em 1935, o Estado adquire o claustro, classificando-o como monumento nacional por decreto de 26 de março de 1936. Entre 1936 e 1939, assiste-se à reconstrução da armação do telhado, das janelas e respetivas molduras, dos pavimentos e rebocos. Em 1967, reparam-se rebocos e caixilhos; em 1994 e 1997, beneficiam-se as coberturas da igreja, sacristia e claustro, bem como o interior de todas as áreas, incluindo a igreja; em 1998, levam-se a cabo as obras de reconstrução das coberturas que dão para o claustro; e, a partir de 2020, recebe uma intervenção profunda, assim como o seu entorno, para acolher o tão ambicionado museu.

Inaugurado no dia 12 de maio de 2025 [a chamada “fase experimental” durou até 16 de junho], o Museu Municipal - Peregrinações foca-se na história local e na vida do célebre escritor manlianense Fernão Mendes Pinto.

O Convento dos Anjos ganhou assim uma nova vida, acolhendo um equipamento cultural de excelência que pretende ser um lugar de encontro e partilha, de reflexão e diálogo sobre Montemor-o-Velho, o seu passado, presente e futuro. 

J
JÚLIO ISIDRO – UM BANHISTA ILUSTRE EM BUARCOS

Júlio José de Pinho Isidro do Carmo, locutor de rádio e apresentador de televisão, nasceu em Lisboa em 5 de janeiro de 1945, filho de José Sesinando Mantero da Silva Isidro do Carmo e de Brígida da Silva de Pinho.

Nasceu em Lisboa, mas foi em Buarcos que deu os primeiros passos e no seu mar aprendeu a nadar.

Aqui passaram as suas férias de verão, desde que nasceu até cerca de duas décadas depois.

Após a falência financeira da sua família, na sua infância, Júlio Isidro recebeu roupas usadas de um primo que vivia na Figueira da Foz, roupas que depois eram adaptadas pela sua mãe para que ele as pudesse usar.

Aqui se apaixonou, em todos os verões, um verdadeiro “pinga-amor tão interiorizado que só ele sentia os batimentos do coração, que nem elas suspeitavam”.

Júlio Isidro partilhou publicamente que, durante um verão em Buarcos, se apaixonou por uma francesa chamada Annick Storez, paixão que tanto o marcaria, levando-o a viajar sozinho de comboio, em terceira classe, rumo a França, apenas para tentar ver a jovem de quem guardava memórias da praia de Buarcos.

Júlio Isidro teve uma vida profissional de sucesso, principalmente no Rádio Clube Português, na Rádio Comercial, na RTP e na TVI.

Com pouco mais de 15 anos, no dia 16 de janeiro de 1960, estreou-se na RTP, coapresentando até 1966 o Programa Juvenil e o Programa Infantil.

E com apenas 16 anos, apresentou vários espetáculos no então Casino Peninsular da Figueira da Foz.

Trabalhou no Rádio Clube Português de 1968 a 1975, à noite, apresentando noticiários, enquanto durante o dia exercia a sua atividade profissional como delegado de informação médica.

Na Rádio Comercial, foi autor e apresentador de programas de sucesso como "CDC - Clube das Donas de Casa", "Grafonola Ideal" e "Febre de Sábado de Manhã".

Teve inúmeros sucessos na RTP, com O Fungagá da Bicharada (1974 a 1976), Arte & Manhas (1977-1978), Jardim Jaleco (1978), O Passeio dos Alegres (1980 a 1982), Festa é Festa (1982 a 1983), A Festa Continua (1983 a 1984), Arroz Doce (1985), o Clube dos Amigos Disney (1986 a 1989), "Oito e Oitenta" (1990), "Regresso ao Passado" (1990 a 1991) e E.T. - Entretenimento Total (1991 a 1992), Antenas no Ar (1997), Jardim das Estrelas (1997-2000), Amigo Público (1998-1999), A Outra Face da Lua (2000), Agora é que são Elas (2000), Entrada Livre (2001), Estúdio 5 (2002), O Passeio dos Alegres - 20 Anos (2002), Tributo a... (2003), Portugal no Coração (2006-2007), Quarto Crescente (2008-2009), Inesquecível (2010-), Verão Total (2014), Traz P'ra Frente (2015-presente), Presidente do Júri do Festival RTP da Canção (2017, 2018 e 2019), Retratos de Abril (2019) e muitos outros.

Ao longo da sua extensa carreira na televisão pública, Júlio Isidro dedicou múltiplos programas e emissões especiais a esta região, sendo um dos exemplos mais marcantes a gravação do seu programa recreativo “Jardim das Estrelas” na Figueira da Foz em 1997.

O programa incluiu entrevistas a personalidades da região, atuações musicais e a promoção do patrimônio e das gentes de Buarcos para os emigrantes portugueses por meio da RTP Internacional.

Também trabalhou na TVI, onde apresentou: Sons do Sol (1993-1994), Marchas Populares de Lisboa (1994), Clips & Spots (1994), Domingo Gordo (1994), Mil e Uma Tardes (1994), Luzes da Ribalta (1994-1995), Dar que Falar (1995-1996) e Olhó Popular (1996-1997).

Publicou vários livros infantis, como Histórias do Tio Julião (D. Quixote, 1989), Juliana das Farturas (D. Quixote, 1990), É Tudo Primos e Primas (Edições Asa, 2004), Ideias Giras (Edições Asa, 2005), O Planeta de Cristal (Edições Asa, 2006), 100 Histórias para Contar e Sonhar (Edições Asa, 2006), A Nossa Televisão (Desde os Avós até Nós!) (Asa, 2007), O Palácio da Animação (Asa, 2008), A Nova Arca de Noé (Asa, 2009), 50 Anos! 50 velas! (Asa, 2010).

Para além dos livros infantis, escreveu "Conto Final Parágrafo", uma espécie de biografia do seu tempo.

Recebeu as seguintes condecorações: Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, concedida em 2006 pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, Grã-Cruz da Ordem do Mérito, atribuída em 2020 pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Portugal, no ano de 2020, a Medalha Municipal de Mérito Cultural pela Câmara Municipal de Lisboa, em 2024, e o Globo de Ouro de Mérito e Excelência atribuído pela SIC (em conjunto com a revista Caras), no ano de 2025, homenageando os seus 65 anos de carreira dedicados à comunicação e à televisão portuguesa.

Ao receber a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Portugal, o texto oficial sublinhou que a distinção celebrava não só a sua carreira, mas especificamente a sua dedicação contínua como "amante incondicional" da Figueira da Foz e de Buarcos em particular.


Sempre ouvi a expressão «estás como o tempo» e, durante muito tempo, não percebia verdadeiramente o que queria dizer.

Hoje percebi.

Acordei às seis da manhã, depois de ter adormecido apenas às duas. Quatro horas de descanso. Cada dia que passa, durmo menos. A cabeça parece prestes a rebentar, as dores na coluna voltaram com força e as pernas insistem em lembrar-me de que ainda não estão bem. O dia está estranho. O sol ora aparece. Ora desaparece. Está indeciso.

E eu estou como o tempo.

Talvez esta expressão nunca tenha feito tanto sentido como hoje. Ou talvez já o tivesse feito noutras alturas e eu nunca tivesse parado verdadeiramente para perceber. Porque também há dias em que estamos como o tempo: quando o céu acorda limpo, o sol entra pela janela e sorrimos sem uma razão concreta. Há dias em que tudo parece mais leve, em que a vida nos corre melhor por dentro e o mundo, por instantes, parece devolver-nos alguma esperança.

Mas hoje não.

Hoje o céu pesa tanto quanto o corpo. Hoje as nuvens parecem ter encontrado morada dentro de mim. Mesmo que, por vezes, o sol até leve a melhor e nos contemple com os seus raios. Hoje nem a comidinha da mãe reconfortou a minha alma.

Ainda assim, posso sempre partilhar uma fotografia a sorrir. Não para fingir que está tudo bem, mas para tentar chamar a energia boa para junto de mim. Como quem abre uma pequena janela no meio de um dia “cinzento” por dentro e espera que, de alguma forma, entre um pouco de luz.

Porque uma fotografia a sorrir não invalida o cansaço, as dores que teimaram em voltar ou um pouco de tristeza que por vezes sinto. Às vezes, é apenas uma tentativa de não deixar que tudo isso ocupe o dia inteiro. Nós ocupamos a mente. E permaneça na alma.

Dias. Há dias assim.

Há dias em que não somos nós que descrevemos o tempo. É o tempo que nos descreve a nós.

E, afinal, o tempo está como nós ou somos nós que estamos como o tempo? Talvez dependa do dia. Hoje, confesso, não sei. Mas vou forçar-me a sorrir. Nem que seja só para ver se o sol ou este tempo estranho percebem a indireta e se resolvem. 

Os bancos da praça.

 Há uma coisa curiosa em Montemor. Os bancos da praça têm a melhor vista da vila. Não porque estejam virados para o castelo. Nem para o Mondego. Nem sequer porque estejam no centro de tudo. Mas porque, há décadas, permanecem exatamente em frente ao edifício onde tantas decisões se tomam. E isso faz deles as únicas testemunhas que nunca precisaram de votar... para ver tudo.

Dali passaram presidentes. Vereadores. Campanhas. Promessas. Discursos. Fotografias. Inaugurações.

Mudaram as cores dos cartazes.

Mudaram os rostos.

Mudaram os carros estacionados.

Mudaram as montras.

Mudaram as gerações.

Mas há uma coisa que raramente muda. Os mesmos bancos. E, muitas vezes... As mesmas conversas. Há qualquer coisa de profundamente portuguesa, e talvez profundamente montemorense, nesta capacidade de transformar um banco de jardim numa tribuna.

Ali discute-se política. Futebol. A vida dos vizinhos.

Quem casou.

Quem se separou.

Quem voltou.

Quem foi embora.

Quem ganhou.

Quem perdeu.

Quem devia fazer.

Quem nunca fez.

Todos têm opinião. Poucos têm disponibilidade. O curioso é que, quase sempre, a culpa mora dentro do edifício da frente. Mas quase ninguém se pergunta há quanto tempo ocupa exatamente o mesmo banco. É mais confortável comentar quem decide... do que decidir alguma coisa sobre a própria vida.

Talvez por isso aqueles bancos saibam mais sobre nós do que qualquer arquivo municipal.

Conhecem as nossas rotinas. Os nossos medos. As nossas desculpas. As nossas indignações de estimação. E, sobretudo, conhecem uma estranha habilidade que temos para esperar que a mudança venha sempre do outro lado da praça.

Às vezes imagino que um daqueles bancos resolve finalmente falar.

Não acredito que denunciasse políticos.

Nem empresários.

Nem famílias conhecidas.

Acho que faria uma revelação muito mais incómoda. Diria apenas: "Passei uma vida inteira a ver pessoas à espera que alguém mudasse a vila. Quase nunca vi alguém levantar-se para começar por si." E talvez seja precisamente por isso que aqueles bancos continuam ali. Não para descansar quem passa. Mas para lembrar que também é possível passar uma vida inteira sentado... convencido de que o mundo é que nunca saiu do lugar.

Da próxima vez que passares pelos bancos da praça, não olhes para quem lá está. Os bancos da praça continuarão lá... quando nós já cá não estivermos. A única pergunta que realmente importa é esta: Quando esse dia chegar, foste apenas espectador do teu tempo... ou tiveste a coragem de lhe deixar uma marca?


MUITO GRAVE.

Onde anda a CPCJ de Cantanhede?!

No passado sábado fomos (eu estava acompanhado) à festa à minha terra (Pereira, Montemor-o-Velho). Cerca da meia-noite, vínhamos para o automóvel e passamos junto a duas jovens. Uma delas dirigiu-se a nós e disse para a outra: — Este senhor foi, meu professor! É o stôr Girão!"

De facto, foi minha aluna em aulas de apoio pedagógico.

Perante a estranheza de encontrar ali uma jovem de 14 anos, perguntei como tinha ido para lá. Respondeu que foi com a colega que a acompanhava. Esta vinha de uma cidade a cerca de 50 quilômetros dali, primeiro de metro até Coimbra e, depois, de comboio. A jovem de 14 anos, de uma aldeia a 10 quilómetros de Cantanhede, foi de autocarro até Coimbra e, tal como a outra, de comboio até Pereira.

Tentamos saber em casa de quem iam pernoitar e disseram que seria com uma amiga. Como sou dali, quis saber quem era a família, o que acabei por não conseguir identificar, porque nem a amiga estava por ali, nem encontraram no Facebook ?!?!?!?! a página da tal família.

Por lá ficaram, no meio de milhares de pessoas, aquelas duas jovens com a tenra idade de 14 anos.

Depois, as coisas acontecem e quem as denuncia passa as "passas do Algarve" por fazê-lo e pelo assédio que sofre por agir de acordo com a sua consciência e com a lei.

Por lutar contra estas situações, fui cilindrado, assediado, torturado mentalmente, sofrendo agora os efeitos irreversíveis, sempre pronto a contar às autoridades tudo, mas mesmo tudo. Tentaram destruir-me profissional, social e individualmente. Mas, mesmo aposentado, não deixo de ser professor que alcançou nas Provas de Aferição resultados de média de 36% acima da Média Nacional. O sofrimento obriga-me a escrever este parágrafo!

Deparei-me com este caso, como me deparei com outro, em sentido inverso: um jovem, da mesma idade, da mesma aldeia, foi retirado à família por problemas gravíssimos de saúde dele. Lutei ao lado da família até o tribunal!

TRISTE, GRAVE, PERIGOSO e LAMENTÁVEL.


O Espelho do tempo 

Matias é um menino irreverente e traquinas. Aos 10 anos, é uma criança sedenta de sabedoria, sempre pronta a questionar o mundo que o rodeia. Quando os pais se ausentam, Matias sobe ao lugar proibido – o sótão. É ali, entre caixas empoeiradas e objetos esquecidos, que dá asas à sua imaginação e vive aventuras inimagináveis.

Numa dessas visitas ao sótão, descobre um velho relógio coberto de pó.

Cuidadosamente, limpa-o... De repente, algo extraordinário acontece: um raio de luz dourada é projetado num espelho antigo, esquecido entre as muitas relíquias acumuladas no sótão. No reflexo, Matias vê uma pequena aldeia de barro e palha, onde uma criança nua corre livremente entre as cabanas. Ao longe, uma fogueira crepita e um ancião conta histórias a um grupo de pequenos ouvintes atentos. Matias percebe, maravilhado, que está na Pré-História — e que, de alguma forma, o relógio o transportou no tempo.

A cada toque no relógio, Matias é lançado para uma nova época. Vê crianças egípcias a aprenderem a escrever em tábuas de argila, meninos gregos a treinar com mestres filósofos, pequenos romanos a brincarem com bonecos de madeira. Em cada viagem, descobre como a infância foi moldada pelos tempos — ora livre, ora reprimida, ora tratada como um bem precioso, ora como uma mera extensão dos adultos.

Na última badalada, ouve gritos, gemidos e suspiros de crianças que morrem de fome e de guerra. Crianças que não pediram para nascer num mundo cruel, governado por homens sem piedade. O coração de Matias aperta-se. Ele chora, desiludido com a humanidade. As suas lágrimas caem sobre o velho relógio e o espelho — e então algo mágico acontece.

Em todos os cantos do mundo, crianças de todas as raças e crenças marcham juntas numa revolução de Paz. Os mísseis transformam-se em pombas brancas, que enchem os céus com esperança. O mundo renasce das cinzas da guerra, do ódio e da violência.

Um admirável Mundo Novo desponta, dando origem a uma Nova Ordem Mundial, fundada sob o signo da Paz.

— Matias, onde estás? — ouve-se a voz da mãe ao longe.

Matias acorda. Olha em volta e percebe que adormecera no sótão. Afinal, tudo fora um sonho... Mas não se entristece. Corre para a rua e conta o seu sonho a outras crianças. Porque, afinal, não basta sonhar — é preciso também acreditar.


Do céu cinzento

caem cordas de água

que amarram ao cais

vontades de distância…

Nos céus, súbito um clarão,

revolta surda,

grito mudo há tanto sufocado…

desejo de partir para longe…

Agora é o sol poente

num céu imensamente azul,

apelo de uma partida adiada.

Amanhã, será o sol,

a luz intensa,

a viagem com hora marcada

rumo à lonjura.

Amanhã, o sol

e o azul das promessas…

Tempo de infinito sem limites.

GOSTO DE GENTE ASSIM…

Gosto de gente

com a cabeça no lugar,

que ri,

que chora,

que se emociona com

uma simples carta,

um telefonema,

uma canção suave,

um bom filme,

um bom livro,

um gesto de carinho,

um abraço,

um afago.

Gosto de gente

que ama e sente saudades,

que gosta de amigos,

que cultiva flores,

que ama animais.

que admira paisagens,

que escuta o som do vento e da chuva.

Gosto de gente

que tem tempo para sorrir bondade,

que tem tempo para semear perdão e repartir ternuras,

que tem tempo para partilhar vivências

que tem tempo e espaço para as emoções dentro de si!

Gosto de gente

que gosta de fazer as coisas que gosta,

que procura a verdade e está sempre pronta a aprender

que colhe, orienta, se entende, aconselha.

Gosto de gente

de coração desarmado,

sem ódio e preconceitos.

Gosto de gente

que erra e reconhece,

que cai e se levanta,

que tira lições dos erros.

Goste de gente

com AMOR dentro de si…

Gosto muito de gente assim.....

AME-SE

Ainda que a vida… traia

Ainda que o sol se esconda

Ainda que as lágrimas caiam

Que o rio seque

Que as folhas amareleçam

Ame-se!

Ainda que a chuva… fustigue

Ainda que do céu caiam raios

Ainda que o mar esteja revolto

Ainda que à sua volta não haja flores

Ainda que as cores tenham empalidecido

Ame-se!

Você é uma pessoa única

Inigualável,

Ninguém é igual a você!

Você é exatamente

Como DEUS planeou

Quando a si criou

Para ser feliz!...

Não duvide… portanto…

Ame-se!

Ainda que os seus abraços ternos

Fiquem parados no ar…

Que os seus beijos quentes

Não tenha a quem os dar…

Ainda que todo o amor

Que alberga no peito

Se perca no seu olhar…

Ame-se!


Os clássicos da literatura universal são livros que continuam a falar connosco, geração após geração, porque exploram aquilo que há de mais humano: o amor, a ambição, a liberdade, o medo, a justiça, a esperança e a procura de sentido.
Cada clássico é uma porta aberta para outros tempos, outras vozes e outras formas de ver o mundo. Ler estas obras é descobrir personagens inesquecíveis, refletir sobre grandes temas universais e perceber que há histórias que nunca envelhecem.
Porque os clássicos não pertencem apenas ao passado. Continuam vivos em cada leitor que os redescobre.
Até sempre, Luís Represas [1956 - 2026]






domingo, maio 31

BARCAÇA_68

 

*        Com naturalidade, a nossa Barcaça segue silenciosa ao longo do Mondego, levando até às suas gentes um pouco de nós, algumas memórias, seja em prosa como em poesia. Mas admirando o seu patrimônio, porque é ele que nos traz à memória o que somos e o que nossos antepassados nos deixaram. Patrimônio, cultura e muito bairrismo. É neste espírito, Mário Silva fala-nos do Convento de Nossa Senhora dos Anjos, PARTE III já Fernando Curando nos traz uma lindíssima passagem da visita real de 26 de maio de 1852 à Figueira da Foz.

António Girão surpreende-nos com um soneto, “Soneto da Algema”. Maria Forte nostalgia das boas recordações da Vila de Montemor e do que leva ainda dentro de si, sentimentos, alegrias e ...

Carla M. Henriques fala-nos do real ao virtual e, sempre com uma escrita simples e muito intensa, aborda-nos essa passagem que estamos a atravessar, em que o virtual pode e leva-nos ao real ou vice-versa.

Vamos entrar na seção da poesia, onde as nossas colaboradoras nos descrevem sentimentos, momentos, alegrias e tristezas. Garça Real poderia chamar o seu grito. Isabel Capinha transporta-nos para momentos de aflição que viveram as gentes do concelho de Montemor-o-Velho com as cheias. Isabel Rama leva-nos a uma “Canção da Vida” cheia de amor e carinho. Isabel Tavares, como é simples fazer (para alguns) poemas com alma, paixão e muito amor.

Na música, algo diferente, mas intensivo. Estamos na época das Queima das Fitas, nada melhor que um fado de Coimbra.

Já na literatura, um Prêmio Nobel que saiu dos manuais dos estudantes: “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago.

Boas leituras e até 30 de junho.


Convento de Nossa Senhora dos Anjos

 

PARTE III

 


Morto Diogo de Azambuja, os rendimentos do convento dos Anjos estiveram sempre muito longe de serem opulentos e muito perto de poderem ser considerados miseráveis, aliás, como era salutar princípio da Ordem a que pertencia.

Entretanto, e apesar de tudo, o convento está numa fase de construção passível de atrair devotos e benfeitores. A igreja, de planta longitudinal, além das funções religiosas, começa a funcionar como lugar de eleição para sepultura, nomeadamente das elites locais, por meio da progressiva abertura de capelas funerárias, tanto do lado da epístola como do lado do evangelho, engradecendo-a dimensionalmente e enriquecendo-a sob o ponto de vista artístico. O produto destas instituições pias permitirá à comunidade religiosa, não só a sobrevivência em segurança, mas também, com o remanescente, ampliar as estruturas conventuais.

A 31 de outubro de 1531, os frades contratualizam com a “Governança” da vila a conduta da água (recolhida na nascente do Cano) para o convento, contrato esse que seria mais tarde, a 2 de agosto de 1552, homologado por alvará de D. João III. A este propósito, refira-se que tanto D. João III como D. Sebastião concedeu muitas mercês e privilégios ao convento dos Anjos, uma comunidade pequena, pois o máximo da lotação seria de 30 frades e conversos.

Entre 1535 e 1542, é rasgada na parede sul da igreja a capela de Nossa Senhora da Piedade ou capela da Deposição. Possuidora de um belo portal, esta capela serviu de monumento funerário da família de Fernão de Pina. Nele foi colocado um retábulo mostrando o “Descimento de Cristo da Cruz”, composição de fino lavor renascentista e revelando uma acentuada carga dramática nas expressões corporais e faciais dos seus protagonistas. Esta excelente obra escultórica está atribuída ao francês João de Ruão. Um frontão circular em relevo com o Padre Eterno em ato de bênção em cima do arco do retábulo.

De 1563 vem o conjunto retabular existente na capela das Almas do Purgatório, capela situada do lado do evangelho, logo a seguir à pia batismal, e onde, durante o ano, se recolhe a imagem e andor do Senhor dos Passos após a função dos Passos em Domingo de Ramos. Neste retábulo podemos ver, nos planos fundeiros, a beleza paisagística da cidade de Jerusalém, com o Monte Gólgota a suportar em plano maior a figura de Cristo pregado na Cruz.

Poucos anos depois, em 1567, fez-se para a capela-mor um bom e grandioso retábulo, do qual subsiste o sacrário. No entanto, surgem notícias de que, em 11 de abril de 1572, o convento sofria grandes obras, excluindo a igreja.


· FIGUEIRA DA FOZ – VISITA REAL DE 26 DE MAIO DE 1852

Há 174 anos, no dia 26 de maio de 1852, a família real visitou a Figueira da Foz.


Melhor dizendo, metade da família real, porque a outra metade ficou em Verride, numa situação mal-esclarecida que aqui tentaremos compreender.

Em agosto de 1851 morreu o sogro de D. Maria II, pai do seu terceiro marido D. Fernando II.


Depois de tomar luto por seis meses, e depois de longos anos de lutas políticas, entendeu o governo do Duque de Saldanha que seria conveniente uma visita da família real ao Norte do país, recentemente abalado pelas revoltas da Maria da Fonte e da Patuleia, e ainda com resquícios do Miguelismo derrotado.


Assim, em 15 de abril de 1852, a família real, composta por D. Maria II, o seu 3º marido D. Fernando II e os dois filhos, o príncipe D. Pedro (futuro rei D. Pedro V) e o infante D. Luís (futuro rei D. Luís I), embarcou em Lisboa, num vapor de guerra, com destino a Vila Franca de Xira.


D. Maria II tinha 33 anos, D. Fernando II tinha 36 anos, D. Pedro 15 anos e D. Luís 14 anos.

A família real vinha acompanhada pela dama de serviço D. Maria das Dores Sousa Coutinho, pelo camarista Thomaz de Mello Breyner (Visconde da Carreira), aio dos príncipes, pelo Dr. Kessler, médico da casa real, por António Severino Alves, intendente das reais cavalariças, por 16 criados e criadas, 39 moços e empregados subalternos, 45 fiéis, cocheiros e demais criados das cavalariças reais.


Do ministério ia apenas o Duque de Saldanha, acompanhado pelo subchefe do Estado Maior, o Visconde de Pinheiro, pelos ajudantes Barão de Sarmento, Barão da Foz, D. Francisco de Almeida, Roussado Gorjão, D. Rodrigo de Almeida e Guedes da Costa.


A comitiva era ainda apoiada por 36 cavalos e 36 muares, fora o gado adstrito às carretas de transporte e bagagens.

Desembarcaram em Vila Franca de Xira, seguindo depois, por terra, para Caldas da Rainha, Alcobaça, Leiria, Pombal, Condeixa, Coimbra, Aveiro, Porto, Vila Nova de Famalicão, Barcelos, Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Santo Tirso, Ermesinde, novamente Porto, Ovar, novamente Aveiro, Montemor-o-Velho, Figueira da Foz, Verride, Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da Rainha, Runa e finalmente Lisboa.


Estava previsto que a família real visitasse a Figueira da Foz no dia 25 de maio, onde dormiria, atravessando no dia seguinte o Mondego a caminho de Leiria.


Na realidade, e pelos motivos à frente expostos, a visita só veio a ocorrer no dia seguinte, a 26 de maio, sem a presença da rainha D. Maria II e do infante D. Luís, e não tenho havido pernoita como previsto.


Em finais de abril a Câmara Municipal da Figueira da Foz foi avisada deste itinerário pelo Dr. Henriques Seco, Secretário-geral do distrito, servindo de Governador Civil.


No dia 2 de maio imediato, o Presidente da Câmara, Joaquim Maria Ferreira Pestana, convocou uma reunião com várias personalidades para planear a receção da família real.


A Câmara Municipal, composta pelo referido Presidente e pelos Vereadores António José Monteiro de Barros, António Dias, Adriano Freire de Macedo e João José da Costa, nomeou 4 Comissões para dirigirem a receção da família real: a Comissão promotora dos donativos para as despesas, a Comissão para o arranjo das casas onde ficaria a família real, a Comissão para a decoração da Igreja Matriz, ruas, arcos e outros arranjos e a Comissão para o arranjo dos barcos no rio.


A Comissão encarregada da escolha da casa onde seria recebida a família real elegeu a casa do Dr. António José Duarte Silva e para pernoita a casa de António Pinto Mello Fortes e a casa dos herdeiros de Caetana Efigénia Salazar.


Tendo-se concluído que a casa do Dr. António José Duarte Silva era pequena para receber tão grande comitiva, decidiu a Comissão escolher a Casa do Paul (que mais tarde pertenceria ao Dr. Pereira das Neves).


O Administrador do Concelho, Dr. João Inácio da Costa Brandão, informou a Câmara que o Governador Civil, Dr. Henriques Seco, viria à Figueira da Foz com o Diretor das Obras Públicas do Distrito para observar o estado das estradas que a família real atravessaria.


O Chefe do Distrito foi recebido em sessão extraordinária da Câmara, a que assistiram as Comissões dos festejos, tendo informado que as estradas de Coimbra à Figueira estavam intransitáveis pelo que o itinerário de Montemor-o-Velho à Figueira da Foz se efetuaria de barco, pelo rio.


Assim, no dia 26 de maio de 1852, pelas 5H30M, a família real embarcou em Montemor-o-Velho, no lugar de Ponte da Alagoa, e, descendo o Rio Mondego, desembarcou no cais em frente da Alfândega da Figueira sob um monumental arco triunfal, eram 7H30M da manhã.

O monumental arco fora projetado por João Pedro Fernandes Thomaz Pippa, funcionário público e antigo aluno da Academia das Belas Artes de Lisboa, fazendo-nos lembrar o arco da Rua Augusta em Lisboa (projetado em 1759, após o terramoto de 1755, iniciado em 1815 e concluído em 1875).

Uma grande multidão apinhava-se no cais da Alfândega, das janelas do casario pendiam vistosas colgaduras, o Mondego estava cheio de barcos ornamentados, repletos de gente, e no ar estralejavam foguetes, soavam músicas e vivas ao rei.

A vila da Figueira estava em festa, ansiando a chegada da comitiva real que seria recebida pela Câmara Municipal debaixo de um esbelto pálio em cujas varas pegavam o Presidente, os quatro Vereadores e o Dr. José Joaquim Borges (antigo Vereador).

Do cais partiu um grandioso cortejo em direção à Igreja Matriz, passando pelas Ruas da Alfândega, Praça do Comércio, ruas da Oliveira e do Paço, todas muito lindamente ornamentadas.

Depois do “Te Deum Laudamus” na Igreja Matriz, celebrado pelo pároco José Rodrigues Torrão, acolitado pelos párocos de Maiorca, Alhadas, Quiaios, Brenha, Ferreira e Lavos, o cortejo real dirigiu-se para o Largo da Fonte, onde, na Casa do Paul, numa sala sumptuosamente decorada, receberam a família real e serviram um faustoso almoço.

Após o almoço, o Rei decidiu visitar o Forte de Santa Catarina, porque quis ver de perto os motivos das fortes e antigas reivindicações dos figueirenses sobre as necessárias obras de melhoramento do porto e da barra.

Depois a comitiva real voltou ao cais da Alfândega, onde voltou a embarcar.

Foi um dia de festa na Figueira da Foz.

Foi há 174 anos.

Mas, algo de estranho aconteceu nesta visita real à Figueira da Foz, porque na comitiva real faltava a rainha D. Maria II e o infante D. Luís.

Da família real só D. Fernando e o Príncipe D. Pedro compareceram. Por que não estavam a rainha D. Maria II e o infante D. Luís?

Previa-se que a família real chegasse à Figueira da Foz a 25 de maio, onde jantaria e pernoitaria, seguindo no dia seguinte em direção a Leiria, com almoço na Marinha das Ondas.

Em reunião extraordinária da Câmara de 25 de maio, onde estiveram presentes as Comissões das festas, o Presidente Joaquim Pestana apresentara e lera as felicitações que dirigiria à Rainha, tendo todos concordado.

Contudo, neste mesmo dia 25 de maio, a Câmara recebeu um ofício do Secretário-geral, servindo de Governador Civil, informando que a rainha decidira regressar de imediato de Montemor-o-Velho para Lisboa, sem passar pela Figueira da Foz, por motivo de cansaço e por ter sido reclamada a sua presença em Lisboa.

A notícia espalhou-se rapidamente, os figueirenses estavam dececionados, e de imediato se constituiu uma Comissão composta pelo Presidente da Câmara, pelo Vereador António Dias, pela Direção da Associação Comercial, pelo Administrador do Concelho, pelo Pároco, e outros.

Todos se dirigiram a Montemor, onde já tinha chegado a família real, com o fim de convencerem a Rainha a visitar a Figueira da Foz.

A comitiva real aceitou parcialmente o pedido dos figueirenses e ficou acordado que no dia seguinte, 26 de maio, El-Rei D. Fernando e o Príncipe D. Pedro visitariam a Figueira.

Constou que o verdadeiro motivo que impediu a Rainha de visitar a Figueira terá sido evitar ficar hospedada numa determinada casa no trajeto da Figueira para Leiria.

Esta casa localizava-se na Marinha das Ondas, pertencendo a Joaquim Gonçalves Curado, conhecido por Joaquim da Marinha, ou Gaialo, um homem temido na região por, supostamente, ter mandado executar vários opositores políticos.

Lavos foi concelho durante 23 anos, de 1830 a 1853, quando viveu tempos de barbárie provocada por “malvados” pagos por Joaquim Gonçalves Curado, nomeado Administrador do concelho em 1841.

Este Administrador de Lavos fomentou a barbárie numa época em que em Lavos “os assassinos e ladrões iam-se aniquilando uns aos outros e só depois de mutuamente se extinguirem os grandes malvados, é que ali se restabeleceu o sossego”.

No seu tempo de Administrador de Lavos, de 1841 a 1851, houve doze assassinatos, supostamente mandatados por si.

Joaquim da Marinha tinha altas proteções, e por isso conseguira conservar-se no cargo de Administrador do concelho de Lavos, mesmo depois de se estabelecer o governo regenerador em 1851.

Assim, Joaquim da Marinha conseguiu convencer os organizadores da visita régia de modo que a rainha almoçasse e pernoitasse na sua casa da Marinha das Ondas.

De facto, em 18 de janeiro de 1852, em sessão extraordinária da Câmara Municipal de Lavos, presidida por José Francisco Vaz, fora deliberado tomar providências acerca da “recepção de Sua Majestade a Rainha e sua augusta família quando transitar por este concelho”, uma vez que a família real, no regresso a Lisboa teria de “seguir pela estrada real da beira-mar”.

Para o efeito, Joaquim da Marinha realizou despesas significativas e, “dentre os objetos que comprou foi uma farda para ele, como Administrador, e um bacio de prata para o quarto destinado à Rainha”.

A então vila da Figueira não possuía uma casa nobre com categoria para a pernoita da família real, mas a estadia na Marinha das Ondas, em casa do Administrador de Lavos, menos lhe terá agradado.

Assim, D. Maria II e o infante D. Luís ficaram em Verride, em casa de Jerónimo Pereira de Vasconcelos, aguardando o regresso do marido D. Fernando e do filho D. Pedro que visitavam a Figueira durante algumas horas.

(Jerónimo Pereira de Vasconcelos era um militar luso-brasileiro, primeiro barão e visconde de Ponte da Barca, marechal-de-campo e ministro de Estado honorário e da Guerra, par do reino e fidalgo Cavaleiro da Casa Real).

De Verride, a família real seguiu para Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da Rainha e Runa, tenho chegado a Lisboa no dia 2 de junho.

A família real só voltaria trinta anos depois, em 3 de agosto de 1882, quando D. Luís I, acompanhado da rainha D. Maria Pia de Saboia e de vários ministros, veio inaugurar o troço que ligava a Figueira da Foz à Pampilhosa e a Pampilhosa a Vilar Formoso (linha da Beira Alta).

 

SONETO DA ALGEMA

Num largo erguido em zelo teatral,

surge André Ventura, em pose de juiz,

brandindo algemas, gesto triunfal,

compradas, diz-se, em loja pouco sisuda e feliz.

 

Clama justiça em tom quase imperial,

contra um visitante de fama e raiz,

mas o cenário roça o carnaval,

mais farsa do que ato firme e feliz.

 

Entre bandeiras, gritos e encenação,

confunde-se o zelo com vaidade vã,

e a política vira uma palhaçada de ocasião.

 

Se a intenção era força soberana,

restou o ridículo riso na multidão,

teatro breve, de glória meio profana. 

O que nunca saiu de mim.

 Durante muito tempo pensei que as origens eram um lugar. Hoje sei que estava enganada. As origens não são uma morada.

São uma marca. Há lugares de onde saímos. E há lugares que nunca saem de nós.

Montemor-o-Velho é um desses lugares. Saí de lá há muitos anos. A vida levou-me para outras cidades, outras experiências, outras versões de mim. Mas há coisas que ficaram. Ou talvez seja mais correto dizer que vieram comigo.

A forma como olho para as pessoas. A importância que dou às histórias. O respeito por quem trabalha sem fazer alarde. A capacidade de encontrar beleza nas coisas simples. Muito daquilo que sou foi forjado naquela terra. Não apenas pelas ruas ou pelas paisagens. Mas pelas pessoas. Porque são sempre as pessoas que transformam um lugar numa memória.

Ao longo da vida fui colecionando experiências, projetos, viagens e encontros. Mas continuo a carregar vozes que nasceram muito antes disso. Algumas já partiram. Outras continuam por lá. Algumas nem imaginam que ainda vivem dentro de mim.

Depois da morte dos meus pais afastei-me. Não por falta de amor. Pelo contrário. Havia amor a mais e chão a menos para o suportar. Voltar significava encontrar ausências. E às vezes a dor tem uma forma estranha de nos proteger: afasta-nos daquilo que mais amamos.

Precisei desse tempo.

Precisei dessa distância.

Mas aprendi uma coisa. As raízes não desaparecem porque deixamos de visitar a árvore. Continuam lá. Silenciosas.

À espera.

E talvez seja por isso que hoje escrevo.

Porque escrever também é uma forma de regressar. Não ao passado. Mas às pessoas. Às histórias. Àquilo que ajudou a construir quem somos.

Falamos muito sobre partir.

Sobre conquistar o mundo. Sobre ir mais longe.

Mas raramente falamos da coragem que é reconhecer de onde viemos.

Porque ninguém cresce sozinho. Somos feitos de lugares.

Mas sobretudo de pessoas.

E se hoje sou quem sou, devo muito às que cruzaram o meu caminho naquela terra.

Algumas ensinaram-me através do amor. Outras através do exemplo. Outras através da ausência. Todas deixaram marca.

E talvez seja isso que as origens realmente sejam.

Não o lugar onde nascemos.

Mas o conjunto de histórias que continua a viver dentro de nós, mesmo quando já fomos embora.

Porque há terras que visitamos.

E há terras que habitamos para sempre.

Montemor, para mim, será sempre uma delas.

Mais sentimental até porque sua 6 junho faço anos



Desenganem-se.

Não é inteligência artificial.

Não é uma fotografia inventada por um robô qualquer.

É real. Muito real.

E talvez seja isso que a torna tão bonita.

Porque hoje já desconfiamos de tudo. Do que vemos, do que sentimos, do que parece demasiado perfeito para ser verdade.

Mas este momento existiu. Sem preparação. Sem pose. Sem tentativa de parecer especial.

Aconteceu. Assim.

Há silêncios que dizem mais do que muitas pessoas conseguem dizer a vida inteira.

Nesta fotografia há calma. Há presença. Há aquele tipo de ternura que não se explica muito bem, mas que se sente logo. Dois seres quietos, encostados um ao outro, como se naquele instante o mundo pudesse esperar.

Sempre achei curioso como os animais nos encontram. Não precisam que lhes digamos muito. Percebem quando estamos cansados, quando precisamos de colo, quando só queremos ficar ali, em silêncio, sem ter de explicar nada.

Assim foi.

Talvez seja por isso que gosto tanto destes momentos. Porque não pedem nada. Não cobram nada. Não exigem versões melhores de nós.

Apenas ficam.

Dão amor. Presença. Carinho. Uns mimos e, pelo caminho, se lhes apetecer, umas arranhadelas.

Mas há qualquer coisa profundamente bonita neste gesto. O encostar da testa. Os olhos fechados. A confiança. A paz pequena de um instante simples.

Às vezes a felicidade é mesmo isto.

Um momento pequeno.

Um abraço sem braços.

E um coração que, por instantes, finalmente desacelera. 


Do céu cinzento

caem cordas de água

que amarram ao cais

vontades de distância…

Nos céus, súbito um clarão,

revolta surda,

grito mudo há tanto sufocado…

desejo de partir para longe…

Agora é o sol poente

num céu imensamente azul,

apelo de uma partida adiada.

Amanhã, será o sol,

a luz intensa,

a viagem com hora marcada

rumo à lonjura.

Amanhã, o sol

e o azul das promessas…

Tempo de infinito sem limites.

CHEIAS

O céu rasga a sua paz,

escurece o horizonte,

e o rio, como um monstro esquecido,

levanta-se, imenso, voraz.

As águas sussurram promessas de ruína,

invadindo as terras e engolindo os campos.

O vento é um lamento distante,

as árvores, de raízes trêmulas,

perdem a luta, e dobram-se ao peso

do que se ergue em fúria.

O rosto do homem é uma máscara de pavor,

enquanto as águas avançam,

arrastando tudo à sua volta.

E quando, finalmente, as águas se aquietam,

fica o silêncio de uma terra destruída,

restos de um mundo submerso.

As cheias vêm como um sonho assustador,

e vão como um pesadelo não contado,

deixando na memória

que o eco da natureza,

quando se zanga, é a dona do fim.

Canção da Vida 

A vida começa como um sussurro, um acorde frágil que desperta no silêncio. É o nascimento, a primeira nota pura que rompe o vazio e anuncia: estou aqui. Nesse instante, tudo é descoberta — o olhar curioso, o passo incerto, o descompasso alegre de quem aprende a existir.

Depois, a melodia cresce. Ganha ritmo, intensidade e cores. É a juventude, o tempo das harmonias ousadas, das danças apressadas, dos sonhos que se lançam ao vento. O compasso alonga-se, encontra equilíbrio, e no meio dele surgem pausas — breves silêncios que ensinam a ouvir melhor a música.

Então, a canção amadurece. Torna-se profunda, marcada pelas marcas do tempo e pelos ecos das memórias. Cada acorde é mais lento, mas também mais cheio de sentido. É a sabedoria que nasce do vivido, a beleza que se encontra nas notas simples.

Por fim, chega o último trecho: suave, delicado, quase impercetível. A melodia despede-se, mas não morre. Permanece no ar como eco, lembrança, saudade. Porque a vida, mesmo quando finda, continua sendo música — guardada no coração de quem escutou a sua canção.

FAZER POEMAS

Fazer poemas…

É namorar com as palavras

é tocar freneticamente

nos mais secretos pensamentos

é criar histórias da nossa história

é um respirar puro e limpo da alma

é sonhar, é amar, é perdoar,

é esquecer, é lembrar, é rir

é chorar…


Fazer poemas…

É adormecer num lugar

que nos leva para outras paragens

é um salto no escuro

quando começa a clarear

é permanecer e ficar agarrada

a sentimentos escondidos

sem culpa e sem temor

é sentir amor…


Fazer poemas…

É deixar entrar um raio de lua cheia

deitar-se num chão pejado de estrelas

e adormecer coberta pelo raiar do sol

é sonhar com sítios desconhecidos

e encontrar corações que batem

no mesmo compasso…

Alimentam-se dos meus sonhos

e querem sonhá-los connosco!...




Resumo

Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como «um rastilho de pólvora». Uma cegueira coletiva. Romance contundente. Saramago a ver mais longe. Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos, face ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da preocupação cívica.






BARCAÇA_71

  Boa noite, Barcaça larga das terras de Montemor, onde os foguetes e a música, com a bela gastronomia, acompanham o mergulho na Feira que m...