Com
naturalidade, a nossa Barcaça segue silenciosa ao longo do Mondego, levando até
às suas gentes um pouco de nós, algumas memórias, seja em prosa como em poesia.
Mas admirando o seu patrimônio, porque é ele que nos traz à memória o que somos
e o que nossos antepassados nos deixaram. Patrimônio, cultura e muito
bairrismo. É neste espírito que Fernando Curando nos traz uma lindíssima
passagem da visita real de 26 de maio de 1852 à Figueira da Foz.
António
Girão surpreende-nos com um soneto, “Soneto da Algema”. Maria Forte nostalgia
das boas recordações da Vila de Montemor e do que leva ainda dentro de si,
sentimentos, alegrias e ...
Carla
M. Henriques fala-nos do real ao virtual e, sempre com uma escrita simples e
muito intensa, aborda-nos essa passagem que estamos a atravessar, em que o
virtual pode e leva-nos ao real ou vice-versa.
Vamos
entrar na seção da poesia, onde as nossas colaboradoras nos descrevem
sentimentos, momentos, alegrias e tristezas. Garça Real poderia chamar o
seu grito. Isabel Capinha transporta-nos para momentos de aflição que viveram
as gentes do concelho de Montemor-o-Velho com as cheias. Isabel Rama leva-nos a
uma “Canção da Vida” cheia de amor e carinho. Isabel Tavares, como é simples
fazer (para alguns) poemas com alma, paixão e muito amor.
Na
música, algo diferente, mas intensivo. Estamos na época das Queima das Fitas,
nada melhor que um fado de Coimbra.
Já
na literatura, um Prêmio Nobel que saiu dos manuais dos estudantes: “Ensaio
sobre a Cegueira” de José Saramago.
Boas
leituras e até 30 de junho.
· FIGUEIRA DA FOZ – VISITA REAL DE 26
DE MAIO DE 1852
Há 174 anos, no dia 26 de maio de 1852, a família real visitou a Figueira da Foz.
Melhor
dizendo, metade da família real, porque a outra metade ficou em Verride, numa
situação mal-esclarecida que aqui tentaremos compreender.
Em agosto de 1851 morreu o sogro de D. Maria II, pai do seu terceiro marido D. Fernando II.
Depois de tomar luto por seis meses, e depois de longos anos de lutas políticas, entendeu o governo do Duque de Saldanha que seria conveniente uma visita da família real ao Norte do país, recentemente abalado pelas revoltas da Maria da Fonte e da Patuleia, e ainda com resquícios do Miguelismo derrotado.
Assim, em 15 de abril de 1852, a família real, composta por D. Maria II, o seu 3º marido D. Fernando II e os dois filhos, o príncipe D. Pedro (futuro rei D. Pedro V) e o infante D. Luís (futuro rei D. Luís I), embarcou em Lisboa, num vapor de guerra, com destino a Vila Franca de Xira.
D.
Maria II tinha 33 anos, D. Fernando II tinha 36 anos, D. Pedro 15 anos e D.
Luís 14 anos.
A família real vinha acompanhada pela dama de serviço D. Maria das Dores Sousa Coutinho, pelo camarista Thomaz de Mello Breyner (Visconde da Carreira), aio dos príncipes, pelo Dr. Kessler, médico da casa real, por António Severino Alves, intendente das reais cavalariças, por 16 criados e criadas, 39 moços e empregados subalternos, 45 fiéis, cocheiros e demais criados das cavalariças reais.
Do ministério ia apenas o Duque de Saldanha, acompanhado pelo subchefe do Estado Maior, o Visconde de Pinheiro, pelos ajudantes Barão de Sarmento, Barão da Foz, D. Francisco de Almeida, Roussado Gorjão, D. Rodrigo de Almeida e Guedes da Costa.
A
comitiva era ainda apoiada por 36 cavalos e 36 muares, fora o gado adstrito às
carretas de transporte e bagagens.
Desembarcaram em Vila Franca de Xira, seguindo depois, por terra, para Caldas da Rainha, Alcobaça, Leiria, Pombal, Condeixa, Coimbra, Aveiro, Porto, Vila Nova de Famalicão, Barcelos, Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Santo Tirso, Ermesinde, novamente Porto, Ovar, novamente Aveiro, Montemor-o-Velho, Figueira da Foz, Verride, Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da Rainha, Runa e finalmente Lisboa.
Estava previsto que a família real visitasse a Figueira da Foz no dia 25 de maio, onde dormiria, atravessando no dia seguinte o Mondego a caminho de Leiria.
Na realidade, e pelos motivos à frente expostos, a visita só veio a ocorrer no dia seguinte, a 26 de maio, sem a presença da rainha D. Maria II e do infante D. Luís, e não tenho havido pernoita como previsto.
Em finais de abril a Câmara Municipal da Figueira da Foz foi avisada deste itinerário pelo Dr. Henriques Seco, Secretário-geral do distrito, servindo de Governador Civil.
No dia 2 de maio imediato, o Presidente da Câmara, Joaquim Maria Ferreira Pestana, convocou uma reunião com várias personalidades para planear a receção da família real.
A Câmara Municipal, composta pelo referido Presidente e pelos Vereadores António José Monteiro de Barros, António Dias, Adriano Freire de Macedo e João José da Costa, nomeou 4 Comissões para dirigirem a receção da família real: a Comissão promotora dos donativos para as despesas, a Comissão para o arranjo das casas onde ficaria a família real, a Comissão para a decoração da Igreja Matriz, ruas, arcos e outros arranjos e a Comissão para o arranjo dos barcos no rio.
A Comissão encarregada da escolha da casa onde seria recebida a família real elegeu a casa do Dr. António José Duarte Silva e para pernoita a casa de António Pinto Mello Fortes e a casa dos herdeiros de Caetana Efigénia Salazar.
Tendo-se concluído que a casa do Dr. António José Duarte Silva era pequena para receber tão grande comitiva, decidiu a Comissão escolher a Casa do Paul (que mais tarde pertenceria ao Dr. Pereira das Neves).
O Administrador do Concelho, Dr. João Inácio da Costa Brandão, informou a Câmara que o Governador Civil, Dr. Henriques Seco, viria à Figueira da Foz com o Diretor das Obras Públicas do Distrito para observar o estado das estradas que a família real atravessaria.
O Chefe do Distrito foi recebido em sessão extraordinária da Câmara, a que assistiram as Comissões dos festejos, tendo informado que as estradas de Coimbra à Figueira estavam intransitáveis pelo que o itinerário de Montemor-o-Velho à Figueira da Foz se efetuaria de barco, pelo rio.
Assim,
no dia 26 de maio de 1852, pelas 5H30M, a família real embarcou em
Montemor-o-Velho, no lugar de Ponte da Alagoa, e, descendo o Rio Mondego,
desembarcou no cais em frente da Alfândega da Figueira sob um monumental arco
triunfal, eram 7H30M da manhã.
O
monumental arco fora projetado por João Pedro Fernandes Thomaz Pippa,
funcionário público e antigo aluno da Academia das Belas Artes de Lisboa,
fazendo-nos lembrar o arco da Rua Augusta em Lisboa (projetado em 1759, após o
terramoto de 1755, iniciado em 1815 e concluído em 1875).
Uma
grande multidão apinhava-se no cais da Alfândega, das janelas do casario
pendiam vistosas colgaduras, o Mondego estava cheio de barcos ornamentados,
repletos de gente, e no ar estralejavam foguetes, soavam músicas e vivas ao
rei.
A
vila da Figueira estava em festa, ansiando a chegada da comitiva real que seria
recebida pela Câmara Municipal debaixo de um esbelto pálio em cujas varas
pegavam o Presidente, os quatro Vereadores e o Dr. José Joaquim Borges (antigo
Vereador).
Do
cais partiu um grandioso cortejo em direção à Igreja Matriz, passando pelas
Ruas da Alfândega, Praça do Comércio, ruas da Oliveira e do Paço, todas muito
lindamente ornamentadas.
Depois
do “Te Deum Laudamus” na Igreja Matriz, celebrado pelo pároco José Rodrigues
Torrão, acolitado pelos párocos de Maiorca, Alhadas, Quiaios, Brenha, Ferreira
e Lavos, o cortejo real dirigiu-se para o Largo da Fonte, onde, na Casa do
Paul, numa sala sumptuosamente decorada, receberam a família real e serviram um
faustoso almoço.
Após
o almoço, o Rei decidiu visitar o Forte de Santa Catarina, porque quis ver de
perto os motivos das fortes e antigas reivindicações dos figueirenses sobre as
necessárias obras de melhoramento do porto e da barra.
Depois
a comitiva real voltou ao cais da Alfândega, onde voltou a embarcar.
Foi
um dia de festa na Figueira da Foz.
Foi
há 174 anos.
Mas,
algo de estranho aconteceu nesta visita real à Figueira da Foz, porque na
comitiva real faltava a rainha D. Maria II e o infante D. Luís.
Da
família real só D. Fernando e o Príncipe D. Pedro compareceram. Por que não
estavam a rainha D. Maria II e o infante D. Luís?
Previa-se
que a família real chegasse à Figueira da Foz a 25 de maio, onde jantaria e
pernoitaria, seguindo no dia seguinte em direção a Leiria, com almoço na
Marinha das Ondas.
Em
reunião extraordinária da Câmara de 25 de maio, onde estiveram presentes as
Comissões das festas, o Presidente Joaquim Pestana apresentara e lera as
felicitações que dirigiria à Rainha, tendo todos concordado.
Contudo,
neste mesmo dia 25 de maio, a Câmara recebeu um ofício do Secretário-geral,
servindo de Governador Civil, informando que a rainha decidira regressar de
imediato de Montemor-o-Velho para Lisboa, sem passar pela Figueira da Foz, por
motivo de cansaço e por ter sido reclamada a sua presença em Lisboa.
A
notícia espalhou-se rapidamente, os figueirenses estavam dececionados, e de
imediato se constituiu uma Comissão composta pelo Presidente da Câmara, pelo
Vereador António Dias, pela Direção da Associação Comercial, pelo Administrador
do Concelho, pelo Pároco, e outros.
Todos
se dirigiram a Montemor, onde já tinha chegado a família real, com o fim de
convencerem a Rainha a visitar a Figueira da Foz.
A
comitiva real aceitou parcialmente o pedido dos figueirenses e ficou acordado
que no dia seguinte, 26 de maio, El-Rei D. Fernando e o Príncipe D. Pedro
visitariam a Figueira.
Constou
que o verdadeiro motivo que impediu a Rainha de visitar a Figueira terá sido
evitar ficar hospedada numa determinada casa no trajeto da Figueira para
Leiria.
Esta
casa localizava-se na Marinha das Ondas, pertencendo a Joaquim Gonçalves
Curado, conhecido por Joaquim da Marinha, ou Gaialo, um homem temido na região
por, supostamente, ter mandado executar vários opositores políticos.
Lavos
foi concelho durante 23 anos, de 1830 a 1853, quando viveu tempos de barbárie
provocada por “malvados” pagos por Joaquim Gonçalves Curado, nomeado
Administrador do concelho em 1841.
Este
Administrador de Lavos fomentou a barbárie numa época em que em Lavos “os
assassinos e ladrões iam-se aniquilando uns aos outros e só depois de
mutuamente se extinguirem os grandes malvados, é que ali se restabeleceu o
sossego”.
No
seu tempo de Administrador de Lavos, de 1841 a 1851, houve doze assassinatos,
supostamente mandatados por si.
Joaquim
da Marinha tinha altas proteções, e por isso conseguira conservar-se no cargo
de Administrador do concelho de Lavos, mesmo depois de se estabelecer o governo
regenerador em 1851.
Assim,
Joaquim da Marinha conseguiu convencer os organizadores da visita régia de modo
que a rainha almoçasse e pernoitasse na sua casa da Marinha das Ondas.
De
facto, em 18 de janeiro de 1852, em sessão extraordinária da Câmara Municipal
de Lavos, presidida por José Francisco Vaz, fora deliberado tomar providências
acerca da “recepção de Sua Majestade a Rainha e sua augusta família quando
transitar por este concelho”, uma vez que a família real, no regresso a Lisboa
teria de “seguir pela estrada real da beira-mar”.
Para
o efeito, Joaquim da Marinha realizou despesas significativas e, “dentre os
objetos que comprou foi uma farda para ele, como Administrador, e um bacio de
prata para o quarto destinado à Rainha”.
A
então vila da Figueira não possuía uma casa nobre com categoria para a pernoita
da família real, mas a estadia na Marinha das Ondas, em casa do Administrador
de Lavos, menos lhe terá agradado.
Assim,
D. Maria II e o infante D. Luís ficaram em Verride, em casa de Jerónimo Pereira
de Vasconcelos, aguardando o regresso do marido D. Fernando e do filho D. Pedro
que visitavam a Figueira durante algumas horas.
(Jerónimo
Pereira de Vasconcelos era um militar luso-brasileiro, primeiro barão e
visconde de Ponte da Barca, marechal-de-campo e ministro de Estado honorário e
da Guerra, par do reino e fidalgo Cavaleiro da Casa Real).
De
Verride, a família real seguiu para Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da
Rainha e Runa, tenho chegado a Lisboa no dia 2 de junho.
A
família real só voltaria trinta anos depois, em 3 de agosto de 1882, quando D.
Luís I, acompanhado da rainha D. Maria Pia de Saboia e de vários ministros,
veio inaugurar o troço que ligava a Figueira da Foz à Pampilhosa e a Pampilhosa
a Vilar Formoso (linha da Beira Alta).
SONETO DA ALGEMA
Num largo erguido em
zelo teatral,
surge André Ventura, em
pose de juiz,
brandindo algemas,
gesto triunfal,
compradas, diz-se, em
loja pouco sisuda e feliz.
Clama justiça em tom
quase imperial,
contra um visitante de
fama e raiz,
mas o cenário roça o
carnaval,
mais farsa do que ato
firme e feliz.
Entre bandeiras, gritos
e encenação,
confunde-se o zelo com
vaidade vã,
e a política vira uma
palhaçada de ocasião.
Se a intenção era força
soberana,
restou o ridículo riso
na multidão,
teatro breve, de glória
meio profana.
O
que nunca saiu de mim.
Durante muito tempo pensei que as origens eram
um lugar. Hoje sei que estava enganada. As origens não são uma morada.
São
uma marca. Há lugares de onde saímos. E há lugares que nunca saem de nós.
Montemor-o-Velho
é um desses lugares. Saí de lá há muitos anos. A vida levou-me para outras
cidades, outras experiências, outras versões de mim. Mas há coisas que ficaram.
Ou talvez seja mais correto dizer que vieram comigo.
A
forma como olho para as pessoas. A importância que dou às histórias. O respeito
por quem trabalha sem fazer alarde. A capacidade de encontrar beleza nas coisas
simples. Muito daquilo que sou foi forjado naquela terra. Não apenas pelas ruas
ou pelas paisagens. Mas pelas pessoas. Porque são sempre as pessoas que
transformam um lugar numa memória.
Ao
longo da vida fui colecionando experiências, projetos, viagens e encontros. Mas
continuo a carregar vozes que nasceram muito antes disso. Algumas já partiram.
Outras continuam por lá. Algumas nem imaginam que ainda vivem dentro de mim.
Depois
da morte dos meus pais afastei-me. Não por falta de amor. Pelo contrário. Havia
amor a mais e chão a menos para o suportar. Voltar significava encontrar
ausências. E às vezes a dor tem uma forma estranha de nos proteger: afasta-nos
daquilo que mais amamos.
Precisei
desse tempo.
Precisei
dessa distância.
Mas
aprendi uma coisa. As raízes não desaparecem porque deixamos de visitar a
árvore. Continuam lá. Silenciosas.
À
espera.
E
talvez seja por isso que hoje escrevo.
Porque
escrever também é uma forma de regressar. Não ao passado. Mas às pessoas. Às
histórias. Àquilo que ajudou a construir quem somos.
Falamos
muito sobre partir.
Sobre
conquistar o mundo. Sobre ir mais longe.
Mas
raramente falamos da coragem que é reconhecer de onde viemos.
Porque
ninguém cresce sozinho. Somos feitos de lugares.
Mas
sobretudo de pessoas.
E
se hoje sou quem sou, devo muito às que cruzaram o meu caminho naquela terra.
Algumas
ensinaram-me através do amor. Outras através do exemplo. Outras através da
ausência. Todas deixaram marca.
E
talvez seja isso que as origens realmente sejam.
Não
o lugar onde nascemos.
Mas
o conjunto de histórias que continua a viver dentro de nós, mesmo quando já
fomos embora.
Porque
há terras que visitamos.
E
há terras que habitamos para sempre.
Montemor,
para mim, será sempre uma delas.
Mais
sentimental até porque sua 6 junho faço anos
Desenganem-se.
Não
é inteligência artificial.
Não
é uma fotografia inventada por um robô qualquer.
É
real. Muito real.
E
talvez seja isso que a torna tão bonita.
Porque
hoje já desconfiamos de tudo. Do que vemos, do que sentimos, do que parece
demasiado perfeito para ser verdade.
Mas
este momento existiu. Sem preparação. Sem pose. Sem tentativa de parecer
especial.
Aconteceu.
Assim.
Há
silêncios que dizem mais do que muitas pessoas conseguem dizer a vida inteira.
Nesta
fotografia há calma. Há presença. Há aquele tipo de ternura que não se explica
muito bem, mas que se sente logo. Dois seres quietos, encostados um ao outro,
como se naquele instante o mundo pudesse esperar.
Sempre
achei curioso como os animais nos encontram. Não precisam que lhes digamos
muito. Percebem quando estamos cansados, quando precisamos de colo, quando só
queremos ficar ali, em silêncio, sem ter de explicar nada.
Assim
foi.
Talvez
seja por isso que gosto tanto destes momentos. Porque não pedem nada. Não
cobram nada. Não exigem versões melhores de nós.
Apenas
ficam.
Dão
amor. Presença. Carinho. Uns mimos e, pelo caminho, se lhes apetecer, umas
arranhadelas.
Mas
há qualquer coisa profundamente bonita neste gesto. O encostar da testa. Os
olhos fechados. A confiança. A paz pequena de um instante simples.
Às
vezes a felicidade é mesmo isto.
Um
momento pequeno.
Um
abraço sem braços.
E
um coração que, por instantes, finalmente desacelera.
Do céu cinzento
caem cordas de água
que amarram ao cais
vontades de distância…
Nos céus, súbito um
clarão,
revolta surda,
grito mudo há tanto
sufocado…
desejo de partir para
longe…
Agora é o sol poente
num céu imensamente
azul,
apelo de uma partida
adiada.
Amanhã, será o sol,
a luz intensa,
a viagem com hora
marcada
rumo à lonjura.
Amanhã, o sol
e o azul das promessas…
Tempo de infinito sem
limites.
CHEIAS
O céu rasga a sua paz,
escurece o horizonte,
e o rio, como um
monstro esquecido,
levanta-se, imenso,
voraz.
As águas sussurram
promessas de ruína,
invadindo as terras e
engolindo os campos.
O vento é um lamento
distante,
as árvores, de raízes
trêmulas,
perdem a luta, e
dobram-se ao peso
do que se ergue em
fúria.
O rosto do homem é uma
máscara de pavor,
enquanto as águas
avançam,
arrastando tudo à sua
volta.
E quando, finalmente,
as águas se aquietam,
fica o silêncio de uma
terra destruída,
restos de um mundo
submerso.
As cheias vêm como um
sonho assustador,
e vão como um pesadelo
não contado,
deixando na memória
que o eco da natureza,
quando se zanga, é a
dona do fim.
Canção da Vida
A
vida começa como um sussurro, um acorde frágil que desperta no silêncio. É o
nascimento, a primeira nota pura que rompe o vazio e anuncia: estou aqui. Nesse
instante, tudo é descoberta — o olhar curioso, o passo incerto, o descompasso
alegre de quem aprende a existir.
Depois,
a melodia cresce. Ganha ritmo, intensidade e cores. É a juventude, o tempo das
harmonias ousadas, das danças apressadas, dos sonhos que se lançam ao vento. O
compasso alonga-se, encontra equilíbrio, e no meio dele surgem pausas — breves
silêncios que ensinam a ouvir melhor a música.
Então,
a canção amadurece. Torna-se profunda, marcada pelas marcas do tempo e pelos
ecos das memórias. Cada acorde é mais lento, mas também mais cheio de sentido.
É a sabedoria que nasce do vivido, a beleza que se encontra nas notas simples.
Por
fim, chega o último trecho: suave, delicado, quase impercetível. A melodia
despede-se, mas não morre. Permanece no ar como eco, lembrança, saudade. Porque
a vida, mesmo quando finda, continua sendo música — guardada no coração de quem
escutou a sua canção.
FAZER POEMAS
Fazer poemas…
É namorar com as
palavras
é tocar freneticamente
nos mais secretos
pensamentos
é criar histórias da
nossa história
é um respirar puro e
limpo da alma
é sonhar, é amar, é
perdoar,
é esquecer, é lembrar,
é rir
é chorar…
Fazer poemas…
É adormecer num lugar
que nos leva para
outras paragens
é um salto no escuro
quando começa a clarear
é permanecer e ficar
agarrada
a sentimentos
escondidos
sem culpa e sem temor
é sentir amor…
Fazer poemas…
É deixar entrar um raio
de lua cheia
deitar-se num chão
pejado de estrelas
e adormecer coberta
pelo raiar do sol
é sonhar com sítios
desconhecidos
e encontrar corações
que batem
no mesmo compasso…
Alimentam-se dos meus
sonhos
e querem sonhá-los
connosco!...
Resumo
Um homem fica cego,
inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A
cegueira alastra como «um rastilho de pólvora». Uma cegueira coletiva. Romance
contundente. Saramago a ver mais longe. Personagens sem nome. Um mundo com as
contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um
tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre
na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos, face
ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da
preocupação cívica.