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domingo, maio 31

BARCAÇA_68

 

*        Com naturalidade, a nossa Barcaça segue silenciosa ao longo do Mondego, levando até às suas gentes um pouco de nós, algumas memórias, seja em prosa como em poesia. Mas admirando o seu patrimônio, porque é ele que nos traz à memória o que somos e o que nossos antepassados nos deixaram. Patrimônio, cultura e muito bairrismo. É neste espírito que Fernando Curando nos traz uma lindíssima passagem da visita real de 26 de maio de 1852 à Figueira da Foz.

António Girão surpreende-nos com um soneto, “Soneto da Algema”. Maria Forte nostalgia das boas recordações da Vila de Montemor e do que leva ainda dentro de si, sentimentos, alegrias e ...

Carla M. Henriques fala-nos do real ao virtual e, sempre com uma escrita simples e muito intensa, aborda-nos essa passagem que estamos a atravessar, em que o virtual pode e leva-nos ao real ou vice-versa.

Vamos entrar na seção da poesia, onde as nossas colaboradoras nos descrevem sentimentos, momentos, alegrias e tristezas. Garça Real poderia chamar o seu grito. Isabel Capinha transporta-nos para momentos de aflição que viveram as gentes do concelho de Montemor-o-Velho com as cheias. Isabel Rama leva-nos a uma “Canção da Vida” cheia de amor e carinho. Isabel Tavares, como é simples fazer (para alguns) poemas com alma, paixão e muito amor.

Na música, algo diferente, mas intensivo. Estamos na época das Queima das Fitas, nada melhor que um fado de Coimbra.

Já na literatura, um Prêmio Nobel que saiu dos manuais dos estudantes: “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago.

Boas leituras e até 30 de junho.


(em actualização)

· FIGUEIRA DA FOZ – VISITA REAL DE 26 DE MAIO DE 1852

Há 174 anos, no dia 26 de maio de 1852, a família real visitou a Figueira da Foz.


Melhor dizendo, metade da família real, porque a outra metade ficou em Verride, numa situação mal-esclarecida que aqui tentaremos compreender.

Em agosto de 1851 morreu o sogro de D. Maria II, pai do seu terceiro marido D. Fernando II.


Depois de tomar luto por seis meses, e depois de longos anos de lutas políticas, entendeu o governo do Duque de Saldanha que seria conveniente uma visita da família real ao Norte do país, recentemente abalado pelas revoltas da Maria da Fonte e da Patuleia, e ainda com resquícios do Miguelismo derrotado.


Assim, em 15 de abril de 1852, a família real, composta por D. Maria II, o seu 3º marido D. Fernando II e os dois filhos, o príncipe D. Pedro (futuro rei D. Pedro V) e o infante D. Luís (futuro rei D. Luís I), embarcou em Lisboa, num vapor de guerra, com destino a Vila Franca de Xira.


D. Maria II tinha 33 anos, D. Fernando II tinha 36 anos, D. Pedro 15 anos e D. Luís 14 anos.

A família real vinha acompanhada pela dama de serviço D. Maria das Dores Sousa Coutinho, pelo camarista Thomaz de Mello Breyner (Visconde da Carreira), aio dos príncipes, pelo Dr. Kessler, médico da casa real, por António Severino Alves, intendente das reais cavalariças, por 16 criados e criadas, 39 moços e empregados subalternos, 45 fiéis, cocheiros e demais criados das cavalariças reais.


Do ministério ia apenas o Duque de Saldanha, acompanhado pelo subchefe do Estado Maior, o Visconde de Pinheiro, pelos ajudantes Barão de Sarmento, Barão da Foz, D. Francisco de Almeida, Roussado Gorjão, D. Rodrigo de Almeida e Guedes da Costa.


A comitiva era ainda apoiada por 36 cavalos e 36 muares, fora o gado adstrito às carretas de transporte e bagagens.

Desembarcaram em Vila Franca de Xira, seguindo depois, por terra, para Caldas da Rainha, Alcobaça, Leiria, Pombal, Condeixa, Coimbra, Aveiro, Porto, Vila Nova de Famalicão, Barcelos, Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Santo Tirso, Ermesinde, novamente Porto, Ovar, novamente Aveiro, Montemor-o-Velho, Figueira da Foz, Verride, Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da Rainha, Runa e finalmente Lisboa.


Estava previsto que a família real visitasse a Figueira da Foz no dia 25 de maio, onde dormiria, atravessando no dia seguinte o Mondego a caminho de Leiria.


Na realidade, e pelos motivos à frente expostos, a visita só veio a ocorrer no dia seguinte, a 26 de maio, sem a presença da rainha D. Maria II e do infante D. Luís, e não tenho havido pernoita como previsto.


Em finais de abril a Câmara Municipal da Figueira da Foz foi avisada deste itinerário pelo Dr. Henriques Seco, Secretário-geral do distrito, servindo de Governador Civil.


No dia 2 de maio imediato, o Presidente da Câmara, Joaquim Maria Ferreira Pestana, convocou uma reunião com várias personalidades para planear a receção da família real.


A Câmara Municipal, composta pelo referido Presidente e pelos Vereadores António José Monteiro de Barros, António Dias, Adriano Freire de Macedo e João José da Costa, nomeou 4 Comissões para dirigirem a receção da família real: a Comissão promotora dos donativos para as despesas, a Comissão para o arranjo das casas onde ficaria a família real, a Comissão para a decoração da Igreja Matriz, ruas, arcos e outros arranjos e a Comissão para o arranjo dos barcos no rio.


A Comissão encarregada da escolha da casa onde seria recebida a família real elegeu a casa do Dr. António José Duarte Silva e para pernoita a casa de António Pinto Mello Fortes e a casa dos herdeiros de Caetana Efigénia Salazar.


Tendo-se concluído que a casa do Dr. António José Duarte Silva era pequena para receber tão grande comitiva, decidiu a Comissão escolher a Casa do Paul (que mais tarde pertenceria ao Dr. Pereira das Neves).


O Administrador do Concelho, Dr. João Inácio da Costa Brandão, informou a Câmara que o Governador Civil, Dr. Henriques Seco, viria à Figueira da Foz com o Diretor das Obras Públicas do Distrito para observar o estado das estradas que a família real atravessaria.


O Chefe do Distrito foi recebido em sessão extraordinária da Câmara, a que assistiram as Comissões dos festejos, tendo informado que as estradas de Coimbra à Figueira estavam intransitáveis pelo que o itinerário de Montemor-o-Velho à Figueira da Foz se efetuaria de barco, pelo rio.


Assim, no dia 26 de maio de 1852, pelas 5H30M, a família real embarcou em Montemor-o-Velho, no lugar de Ponte da Alagoa, e, descendo o Rio Mondego, desembarcou no cais em frente da Alfândega da Figueira sob um monumental arco triunfal, eram 7H30M da manhã.

O monumental arco fora projetado por João Pedro Fernandes Thomaz Pippa, funcionário público e antigo aluno da Academia das Belas Artes de Lisboa, fazendo-nos lembrar o arco da Rua Augusta em Lisboa (projetado em 1759, após o terramoto de 1755, iniciado em 1815 e concluído em 1875).

Uma grande multidão apinhava-se no cais da Alfândega, das janelas do casario pendiam vistosas colgaduras, o Mondego estava cheio de barcos ornamentados, repletos de gente, e no ar estralejavam foguetes, soavam músicas e vivas ao rei.

A vila da Figueira estava em festa, ansiando a chegada da comitiva real que seria recebida pela Câmara Municipal debaixo de um esbelto pálio em cujas varas pegavam o Presidente, os quatro Vereadores e o Dr. José Joaquim Borges (antigo Vereador).

Do cais partiu um grandioso cortejo em direção à Igreja Matriz, passando pelas Ruas da Alfândega, Praça do Comércio, ruas da Oliveira e do Paço, todas muito lindamente ornamentadas.

Depois do “Te Deum Laudamus” na Igreja Matriz, celebrado pelo pároco José Rodrigues Torrão, acolitado pelos párocos de Maiorca, Alhadas, Quiaios, Brenha, Ferreira e Lavos, o cortejo real dirigiu-se para o Largo da Fonte, onde, na Casa do Paul, numa sala sumptuosamente decorada, receberam a família real e serviram um faustoso almoço.

Após o almoço, o Rei decidiu visitar o Forte de Santa Catarina, porque quis ver de perto os motivos das fortes e antigas reivindicações dos figueirenses sobre as necessárias obras de melhoramento do porto e da barra.

Depois a comitiva real voltou ao cais da Alfândega, onde voltou a embarcar.

Foi um dia de festa na Figueira da Foz.

Foi há 174 anos.

Mas, algo de estranho aconteceu nesta visita real à Figueira da Foz, porque na comitiva real faltava a rainha D. Maria II e o infante D. Luís.

Da família real só D. Fernando e o Príncipe D. Pedro compareceram. Por que não estavam a rainha D. Maria II e o infante D. Luís?

Previa-se que a família real chegasse à Figueira da Foz a 25 de maio, onde jantaria e pernoitaria, seguindo no dia seguinte em direção a Leiria, com almoço na Marinha das Ondas.

Em reunião extraordinária da Câmara de 25 de maio, onde estiveram presentes as Comissões das festas, o Presidente Joaquim Pestana apresentara e lera as felicitações que dirigiria à Rainha, tendo todos concordado.

Contudo, neste mesmo dia 25 de maio, a Câmara recebeu um ofício do Secretário-geral, servindo de Governador Civil, informando que a rainha decidira regressar de imediato de Montemor-o-Velho para Lisboa, sem passar pela Figueira da Foz, por motivo de cansaço e por ter sido reclamada a sua presença em Lisboa.

A notícia espalhou-se rapidamente, os figueirenses estavam dececionados, e de imediato se constituiu uma Comissão composta pelo Presidente da Câmara, pelo Vereador António Dias, pela Direção da Associação Comercial, pelo Administrador do Concelho, pelo Pároco, e outros.

Todos se dirigiram a Montemor, onde já tinha chegado a família real, com o fim de convencerem a Rainha a visitar a Figueira da Foz.

A comitiva real aceitou parcialmente o pedido dos figueirenses e ficou acordado que no dia seguinte, 26 de maio, El-Rei D. Fernando e o Príncipe D. Pedro visitariam a Figueira.

Constou que o verdadeiro motivo que impediu a Rainha de visitar a Figueira terá sido evitar ficar hospedada numa determinada casa no trajeto da Figueira para Leiria.

Esta casa localizava-se na Marinha das Ondas, pertencendo a Joaquim Gonçalves Curado, conhecido por Joaquim da Marinha, ou Gaialo, um homem temido na região por, supostamente, ter mandado executar vários opositores políticos.

Lavos foi concelho durante 23 anos, de 1830 a 1853, quando viveu tempos de barbárie provocada por “malvados” pagos por Joaquim Gonçalves Curado, nomeado Administrador do concelho em 1841.

Este Administrador de Lavos fomentou a barbárie numa época em que em Lavos “os assassinos e ladrões iam-se aniquilando uns aos outros e só depois de mutuamente se extinguirem os grandes malvados, é que ali se restabeleceu o sossego”.

No seu tempo de Administrador de Lavos, de 1841 a 1851, houve doze assassinatos, supostamente mandatados por si.

Joaquim da Marinha tinha altas proteções, e por isso conseguira conservar-se no cargo de Administrador do concelho de Lavos, mesmo depois de se estabelecer o governo regenerador em 1851.

Assim, Joaquim da Marinha conseguiu convencer os organizadores da visita régia de modo que a rainha almoçasse e pernoitasse na sua casa da Marinha das Ondas.

De facto, em 18 de janeiro de 1852, em sessão extraordinária da Câmara Municipal de Lavos, presidida por José Francisco Vaz, fora deliberado tomar providências acerca da “recepção de Sua Majestade a Rainha e sua augusta família quando transitar por este concelho”, uma vez que a família real, no regresso a Lisboa teria de “seguir pela estrada real da beira-mar”.

Para o efeito, Joaquim da Marinha realizou despesas significativas e, “dentre os objetos que comprou foi uma farda para ele, como Administrador, e um bacio de prata para o quarto destinado à Rainha”.

A então vila da Figueira não possuía uma casa nobre com categoria para a pernoita da família real, mas a estadia na Marinha das Ondas, em casa do Administrador de Lavos, menos lhe terá agradado.

Assim, D. Maria II e o infante D. Luís ficaram em Verride, em casa de Jerónimo Pereira de Vasconcelos, aguardando o regresso do marido D. Fernando e do filho D. Pedro que visitavam a Figueira durante algumas horas.

(Jerónimo Pereira de Vasconcelos era um militar luso-brasileiro, primeiro barão e visconde de Ponte da Barca, marechal-de-campo e ministro de Estado honorário e da Guerra, par do reino e fidalgo Cavaleiro da Casa Real).

De Verride, a família real seguiu para Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da Rainha e Runa, tenho chegado a Lisboa no dia 2 de junho.

A família real só voltaria trinta anos depois, em 3 de agosto de 1882, quando D. Luís I, acompanhado da rainha D. Maria Pia de Saboia e de vários ministros, veio inaugurar o troço que ligava a Figueira da Foz à Pampilhosa e a Pampilhosa a Vilar Formoso (linha da Beira Alta).

 

SONETO DA ALGEMA

Num largo erguido em zelo teatral,

surge André Ventura, em pose de juiz,

brandindo algemas, gesto triunfal,

compradas, diz-se, em loja pouco sisuda e feliz.

 

Clama justiça em tom quase imperial,

contra um visitante de fama e raiz,

mas o cenário roça o carnaval,

mais farsa do que ato firme e feliz.

 

Entre bandeiras, gritos e encenação,

confunde-se o zelo com vaidade vã,

e a política vira uma palhaçada de ocasião.

 

Se a intenção era força soberana,

restou o ridículo riso na multidão,

teatro breve, de glória meio profana. 

O que nunca saiu de mim.

 Durante muito tempo pensei que as origens eram um lugar. Hoje sei que estava enganada. As origens não são uma morada.

São uma marca. Há lugares de onde saímos. E há lugares que nunca saem de nós.

Montemor-o-Velho é um desses lugares. Saí de lá há muitos anos. A vida levou-me para outras cidades, outras experiências, outras versões de mim. Mas há coisas que ficaram. Ou talvez seja mais correto dizer que vieram comigo.

A forma como olho para as pessoas. A importância que dou às histórias. O respeito por quem trabalha sem fazer alarde. A capacidade de encontrar beleza nas coisas simples. Muito daquilo que sou foi forjado naquela terra. Não apenas pelas ruas ou pelas paisagens. Mas pelas pessoas. Porque são sempre as pessoas que transformam um lugar numa memória.

Ao longo da vida fui colecionando experiências, projetos, viagens e encontros. Mas continuo a carregar vozes que nasceram muito antes disso. Algumas já partiram. Outras continuam por lá. Algumas nem imaginam que ainda vivem dentro de mim.

Depois da morte dos meus pais afastei-me. Não por falta de amor. Pelo contrário. Havia amor a mais e chão a menos para o suportar. Voltar significava encontrar ausências. E às vezes a dor tem uma forma estranha de nos proteger: afasta-nos daquilo que mais amamos.

Precisei desse tempo.

Precisei dessa distância.

Mas aprendi uma coisa. As raízes não desaparecem porque deixamos de visitar a árvore. Continuam lá. Silenciosas.

À espera.

E talvez seja por isso que hoje escrevo.

Porque escrever também é uma forma de regressar. Não ao passado. Mas às pessoas. Às histórias. Àquilo que ajudou a construir quem somos.

Falamos muito sobre partir.

Sobre conquistar o mundo. Sobre ir mais longe.

Mas raramente falamos da coragem que é reconhecer de onde viemos.

Porque ninguém cresce sozinho. Somos feitos de lugares.

Mas sobretudo de pessoas.

E se hoje sou quem sou, devo muito às que cruzaram o meu caminho naquela terra.

Algumas ensinaram-me através do amor. Outras através do exemplo. Outras através da ausência. Todas deixaram marca.

E talvez seja isso que as origens realmente sejam.

Não o lugar onde nascemos.

Mas o conjunto de histórias que continua a viver dentro de nós, mesmo quando já fomos embora.

Porque há terras que visitamos.

E há terras que habitamos para sempre.

Montemor, para mim, será sempre uma delas.

Mais sentimental até porque sua 6 junho faço anos



Desenganem-se.

Não é inteligência artificial.

Não é uma fotografia inventada por um robô qualquer.

É real. Muito real.

E talvez seja isso que a torna tão bonita.

Porque hoje já desconfiamos de tudo. Do que vemos, do que sentimos, do que parece demasiado perfeito para ser verdade.

Mas este momento existiu. Sem preparação. Sem pose. Sem tentativa de parecer especial.

Aconteceu. Assim.

Há silêncios que dizem mais do que muitas pessoas conseguem dizer a vida inteira.

Nesta fotografia há calma. Há presença. Há aquele tipo de ternura que não se explica muito bem, mas que se sente logo. Dois seres quietos, encostados um ao outro, como se naquele instante o mundo pudesse esperar.

Sempre achei curioso como os animais nos encontram. Não precisam que lhes digamos muito. Percebem quando estamos cansados, quando precisamos de colo, quando só queremos ficar ali, em silêncio, sem ter de explicar nada.

Assim foi.

Talvez seja por isso que gosto tanto destes momentos. Porque não pedem nada. Não cobram nada. Não exigem versões melhores de nós.

Apenas ficam.

Dão amor. Presença. Carinho. Uns mimos e, pelo caminho, se lhes apetecer, umas arranhadelas.

Mas há qualquer coisa profundamente bonita neste gesto. O encostar da testa. Os olhos fechados. A confiança. A paz pequena de um instante simples.

Às vezes a felicidade é mesmo isto.

Um momento pequeno.

Um abraço sem braços.

E um coração que, por instantes, finalmente desacelera. 


Do céu cinzento

caem cordas de água

que amarram ao cais

vontades de distância…

Nos céus, súbito um clarão,

revolta surda,

grito mudo há tanto sufocado…

desejo de partir para longe…

Agora é o sol poente

num céu imensamente azul,

apelo de uma partida adiada.

Amanhã, será o sol,

a luz intensa,

a viagem com hora marcada

rumo à lonjura.

Amanhã, o sol

e o azul das promessas…

Tempo de infinito sem limites.

CHEIAS

O céu rasga a sua paz,

escurece o horizonte,

e o rio, como um monstro esquecido,

levanta-se, imenso, voraz.

As águas sussurram promessas de ruína,

invadindo as terras e engolindo os campos.

O vento é um lamento distante,

as árvores, de raízes trêmulas,

perdem a luta, e dobram-se ao peso

do que se ergue em fúria.

O rosto do homem é uma máscara de pavor,

enquanto as águas avançam,

arrastando tudo à sua volta.

E quando, finalmente, as águas se aquietam,

fica o silêncio de uma terra destruída,

restos de um mundo submerso.

As cheias vêm como um sonho assustador,

e vão como um pesadelo não contado,

deixando na memória

que o eco da natureza,

quando se zanga, é a dona do fim.

Canção da Vida 

A vida começa como um sussurro, um acorde frágil que desperta no silêncio. É o nascimento, a primeira nota pura que rompe o vazio e anuncia: estou aqui. Nesse instante, tudo é descoberta — o olhar curioso, o passo incerto, o descompasso alegre de quem aprende a existir.

Depois, a melodia cresce. Ganha ritmo, intensidade e cores. É a juventude, o tempo das harmonias ousadas, das danças apressadas, dos sonhos que se lançam ao vento. O compasso alonga-se, encontra equilíbrio, e no meio dele surgem pausas — breves silêncios que ensinam a ouvir melhor a música.

Então, a canção amadurece. Torna-se profunda, marcada pelas marcas do tempo e pelos ecos das memórias. Cada acorde é mais lento, mas também mais cheio de sentido. É a sabedoria que nasce do vivido, a beleza que se encontra nas notas simples.

Por fim, chega o último trecho: suave, delicado, quase impercetível. A melodia despede-se, mas não morre. Permanece no ar como eco, lembrança, saudade. Porque a vida, mesmo quando finda, continua sendo música — guardada no coração de quem escutou a sua canção.

FAZER POEMAS

Fazer poemas…

É namorar com as palavras

é tocar freneticamente

nos mais secretos pensamentos

é criar histórias da nossa história

é um respirar puro e limpo da alma

é sonhar, é amar, é perdoar,

é esquecer, é lembrar, é rir

é chorar…


Fazer poemas…

É adormecer num lugar

que nos leva para outras paragens

é um salto no escuro

quando começa a clarear

é permanecer e ficar agarrada

a sentimentos escondidos

sem culpa e sem temor

é sentir amor…


Fazer poemas…

É deixar entrar um raio de lua cheia

deitar-se num chão pejado de estrelas

e adormecer coberta pelo raiar do sol

é sonhar com sítios desconhecidos

e encontrar corações que batem

no mesmo compasso…

Alimentam-se dos meus sonhos

e querem sonhá-los connosco!...




Resumo

Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como «um rastilho de pólvora». Uma cegueira coletiva. Romance contundente. Saramago a ver mais longe. Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos, face ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da preocupação cívica.






BARCAÇA_68

           Com naturalidade, a nossa Barcaça segue silenciosa ao longo do Mondego, levando até às suas gentes um pouco de nós, algumas memór...