Número total de visualizações de páginas

segunda-feira, agosto 31

BARCAÇA_71

 


Boa noite, Barcaça larga das terras de Montemor, onde os foguetes e a música, com a bela gastronomia, acompanham o mergulho na Feira que muitos munícipes esperam que lhes tragam noites felizes.

Nos Pontos Sem Fim, Montemor-o-Velho demonstra grande capacidade para organizar festas e grandes eventos, mobilizando população, associações, visitantes e comércio local. No entanto, essa dinâmica contrasta com a percepção de falta de infraestruturas permanentes adequadas no concelho.

O caso da Feira do Ano é particularmente ilustrativo: a Pista de Atletismo fica indisponível durante cerca de um mês para a montagem, realização e desmontagem do evento. Isto levanta uma questão sobre a necessidade de equipamentos que permitam acolher grandes iniciativas sem prejudicar o uso regular pela população.

A reflexão não pretende criticar as festas, que são importantes para a identidade local e para a economia, mas distinguir animação temporária de desenvolvimento estrutural. O concelho necessita de melhores equipamentos desportivos e culturais, espaços públicos, acessibilidades, estacionamento, condições para crianças, jovens e associações, e de uma estratégia de investimento equilibrada pelas freguesias.

Montemor-o-Velho tem capacidade para fazer festa; o desafio é demonstrar a mesma ambição na construção de infraestruturas e condições para o futuro.

Mário Silva fala-nos. No início do século XV, Montemor-o-Velho começou a recuperar da crise demográfica e económica provocada pela Peste Negra, fomes e guerras. Um momento decisivo ocorreu em 1416, quando D. João I e D. Duarte doou a vila e o castelo ao infante D. Pedro, duque de Coimbra.

A localização estratégica de Montemor-o-Velho, junto aos férteis campos do Mondego e a importantes vias terrestres e fluviais, tornou a vila um centro relevante do Baixo Mondego. O infante D. Pedro valorizou-a, construindo infraestruturas, mantendo aí a sua corte e reforçando a sua importância regional.

Em 1426, por iniciativa do infante D. Pedro, foi criada uma feira franca anual, realizada de 1 a 15 de setembro. A feira beneficiava-se de amplos privilégios, incluindo redução de impostos, isenção de portagens, proteção dos comerciantes e visitantes e limitações à intervenção das autoridades durante o evento.

A criação da feira em 1426 foi uma estratégia para reforçar Montemor-o-Velho como centro comercial e económico do Baixo Mondego, aproveitando a sua localização privilegiada e os investimentos promovidos pelo infante D. Pedro.

Fernando Curado: A Colónia Balnear da Gala nasceu em 1947, por iniciativa da Comissão Municipal de Assistência e da Junta de Província da Beira Litoral, com o objetivo de proporcionar às crianças mais carenciadas os benefícios do mar, do sol e de melhores condições de higiene e saúde. A construção começou em 1949, na Mata do Cabedelo, e a colónia foi inaugurada em 24 de setembro de 1950, tendo como principal impulsionador o professor Bissaya Barreto.

Durante décadas, a instituição recebeu milhares de crianças, muitas das quais tiveram ali o primeiro contacto com o mar. Funcionava entre junho e outubro, em turnos, oferecendo alojamento, alimentação, banhos de mar e atividades de lazer.

Carla M. Henriques, A Feira do Ano, em Montemor-o-Velho, desperta memórias de infância, de encontros, alegria e de um tempo em que tudo parecia maior e mais intenso. Hoje, apesar de a Feira continuar cheia de gente, música e vida, existe a sensação de que algo mudou — talvez a própria Feira, mas sobretudo quem a olha.

Com o passar dos anos, algumas pessoas partiram, outras se afastaram e muitas memórias ficaram para trás. Percebemos, então, que também podemos ter saudades de lugares, de pessoas e das versões de nós próprios que ali viveram.

Ainda assim, voltar a Montemor-o-Velho continua a despertar um profundo sentimento de pertença. Porque há lugares que, mesmo distantes no tempo e na vida, permanecem para sempre ligados a nós.

A Feira pode já não ser a mesma, mas as memórias continuam a lembrar-nos de onde viemos.

Isabel Rama: O texto conta a história de um rapaz que se senta debaixo de uma figueira para ouvir histórias e versos trazidos pelo vento. Ele regista essas vozes num caderno, sem assinar, até perceber que a sua própria identidade se mistura com as histórias dos outros. Assim, compreende que as palavras não pertencem verdadeiramente a ninguém e que cada pessoa é apenas um meio por meio do qual as vozes e experiências dos outros continuam a existir. Garça Real no seu poema - O poema fala sobre um amor intenso que se perdeu e sobre a esperança de encontrar novamente a felicidade. A pessoa começa por viver um sentimento maravilhoso, cheio de sonhos e promessas, mas essa “luz” acaba. Depois, reconstrói a sua vida e volta a sonhar, procurando um novo olhar que reacenda a esperança. As “asas” simbolizam a vontade de recomeçar, seguir novos caminhos e acreditar num futuro melhor, aguardando apenas um sinal da pessoa amada. Isabel Capinha: O poema “Sou Mãe – Sou Avó” expressa o amor profundo, intenso e protetor de uma mãe e avó pelos seus filhos e netos. A autora considera-os partes de si mesma, guardando cada sorriso e lágrima no coração. O poema destaca também o seu desejo de os proteger sempre, usando toda a sua força, coragem e amor, porque cada um deles representa uma parte essencial da sua própria vida. Isabel Tavares: O poema reflete sobre a essência humana e os caminhos que cada pessoa percorre ao longo da vida. Destaca que poucas pessoas se sentem verdadeiramente realizadas ou conseguem amar-se a si próprias. A vida é apresentada como complexa, marcada por escolhas e, por vezes, pelo sofrimento. Apesar das dificuldades, é importante compreendê-la, aceitá-la e valorizá-la, encontrando beleza na natureza, na fé e no amor.

Na literatura - Tema: crítica política ao processo desencadeado pelo 25 de Abril de 1974, incluindo a democracia instaurada e, no segundo volume, a descolonização. Na escolha musical, "Dio, come ti amo" (italiano para 'Deus, Como Eu Te Amo') é uma música gravada pelos cantores italianos Domenico Modugno e Gigliola Cinquetti, composta e escrita pelo próprio Modugno. A música venceu o Festival de Música de Sanremo em 1966 e representou a Itália – interpretada por Modugno – no Festival Eurovisão da Canção de 1966, realizado em Luxemburgo.

Boas leituras.

Se a ideia é fazer uma reflexão crítica sobre as festas de verão em Montemor-o-Velho e, ao mesmo tempo, questionar a falta de infraestruturas no concelho, há um argumento forte: o concelho demonstra capacidade para organizar grandes eventos e mobilizar população, associações e visitantes, mas essa capacidade nem sempre parece traduzir-se numa rede de equipamentos e condições permanentes à altura dessa dinâmica.

Em 2026, o calendário de verão voltou a ser bastante preenchido: houve festas e iniciativas em várias freguesias, como Pereira, Ereira, Verride e Resgatados, além da grande Feira do Ano – Festas Concelhias, que decorre de 29 de agosto a 8 de setembro. A própria Feira é apresentada pelo Município como um dos momentos mais importantes da agenda anual, reunindo milhares de visitantes e centenas de expositores.

Mas é precisamente aqui que pode surgir a pergunta política e cívica:

Se conseguimos ter festas, concertos, tasquinhas, feiras e milhares de pessoas durante o verão, por que é que continuamos a sentir falta de infraestruturas permanentes?

Há exemplos concretos que tornam esta discussão interessante. Durante a Feira do Ano, a Pista de Atletismo fica interditada entre 17 de agosto e 18 de setembro devido à montagem, realização e desmontagem das estruturas do certame. Ou seja, um equipamento destinado à prática desportiva fica indisponível durante cerca de um mês para acolher um evento temporário.

Isso não significa que as festas sejam negativas — pelo contrário. As festas populares são importantes para a identidade das freguesias, para o movimento associativo, para o comércio local e para a própria economia do concelho. A questão é outra: não podemos confundir animação com desenvolvimento estrutural.

Um concelho precisa de festas, mas também precisa de:

·      melhores equipamentos desportivos;

·      espaços culturais e de convívio adequados;

·      melhores acessibilidades e estacionamento;

·      espaços públicos qualificados;

·      equipamentos para crianças e jovens;

·      melhores condições para as associações;

·      infraestruturas capazes de acolher eventos sem retirar, durante semanas, equipamentos à população;

·      uma estratégia que distribua investimento pelas freguesias e não apenas pelos grandes momentos do calendário.

E há uma questão ainda mais importante: as festas acontecem durante alguns dias; as infraestruturas ficam todo o ano.

Por isso, eu colocaria o debate nestes termos:

Montemor-o-Velho tem capacidade para fazer festa. Falta saber se tem a mesma ambição para construir o futuro.

Nos 600 anos da Feira Anual de Montemor-o-Velho (1426-2026)

 

PARTE I

 


Saída, à semelhança do resto do reino, de um longo período de recessão demográfica e económica, com origem na Peste Negra, nas fomes e nas guerras fernandinas e joaninas, a vila de Montemor-o-Velho conhece no dealbar da centúria de Quatrocentos um momento particularmente decisivo para a sua afirmação regional e nacional, quando, a 10 de setembro de 1416, D. João I e o infante D. Duarte doam ao infante D. Pedro, duque de Coimbra desde setembro de 1415, a vila e castelo de Montemor-o-Velho, com todos os seus direitos e jurisdições, os quais tiveram por renúncia da infanta D. Isabel, recebendo dele em troca a vila de Alvaiázere.

Beneficiando da riqueza proporcionada pelos férteis campos do Mondego e de um porto fluvial, muito próximo da foz do Mondego, onde convergiam diversas vias fluviais e terrestres, Montemor-o-Velho, a par de Coimbra, demarcava uma significativa centralidade em toda a área do Baixo Mondego, como bem o sentiu o infante D. Pedro, não só com a construção dos seus Paços no interior do castelo, de quatro pontes de pedra “que ha na valla junto a villa” e de dois chafarizes “com seos tanques, em que se vem as armas da villa, hum na Praça e outro no Mosteiro dos Anjos”, mas também com a permanência, “muitos tempos”, da sua corte nesta vila, pois “gostava de viver nella, que na verdade a vista que tinha das suas janellas era primeira sem segunda”.

Será justamente a pedido do infante D. Pedro, desejoso de atrair à vila não só muitos dos mercadores que, de há longo tempo, a cruzavam para chegar à foz do rio, mas também os próprios moradores do termo, que, por carta passada em Santarém, a 19 de fevereiro de 1426, D. João I e o infante D. Duarte outorgam que em Montemor-o-Velho se realizasse uma feira franca anual, de 1 a 15 de setembro.

Com esta carta, rigorosamente decalcada da atribuída, em 2 de outubro de 1420, à vila de Tomar, sede da Ordem de Cristo e, por isso mesmo, administrada, desde 25 de maio do mesmo ano, pelo infante D. Henrique, D. João I, “essembra com o Iffante Duarte”, pretende igualar, em prerrogativas comerciais, os senhorios de ambos os infantes. Ao conceder novos privilégios e vastas liberdades jurídicas e sociais, que derrogavam a lei geral, D. João I estava a criar um novo tipo de carta de feira, sempre ambicionado nos reinados seguintes.

Para além da isenção de portagens e costumagens, os privilégios concedidos nesta carta são extraordinariamente amplos. De facto, tudo quanto na feira de Montemor-o-Velho se vendesse “só pagaria metade da sisa, a não ser vinho que se vendesse atavernado e carne que se vendesse a talho, das quais cousas se teria de pagar a sisa em cheio. A todos que viessem à feira não seriam tomados seus animais de sela, ou de albarda, para nenhuma carga, nem eles seriam constrangidos a qualquer serviço na ida para a feira, enquanto nela andassem, nem quando para suas casas tornassem. Não seriam também presos, nem acusados, nem demandados por nenhum malefício em que fossem culpados, excepto se fosse feito na vila, no seu termo, ou na própria feira. Não seriam citados nem demandados por quaisquer dívidas, provenientes de heranças ou não, salvo se fossem de compras ou de vendas efectuadas na feira. Era também consentido aos feirantes andarem armados na feira e servirem-se de qualquer montada que lhes aprouvesse. Finalmente preceituava-se que os corregedores e meirinhos, assim da corte como do reino, não fizessem correição na feira, e se lá quisessem ir que fossem, mas só para comprar ou vender”.


A COLÔNIA BALNEÁRIA DA GALA, O PROF. Bissaya Barreto E A FUGA DE HENRIQUE GALVÃO.

Em 1947, a Comissão Municipal de Assistência lançou um desafio à Junta de Província da Beira Litoral: a criação de uma Colónia Balnear Infantil na Figueira da Foz, com capacidade para 500 crianças.

A Colónia Balnear foi aprovada pela Junta de Província e a sua construção foi iniciada em 1949, na Mata Florestal (Mata do Cabedelo), na Gala, em terreno cedido pelos Serviços Florestais.

Fernando Baeta Bissaya Barreto Rosa foi o grande impulsionador desta obra, quando idealizou construir uma Colónia Infantil destinada “sobretudo às crianças das massas trabalhadoras que, vivendo no campo ou na serra, necessitam da benfazeja acção climática da beira-mar.”

Foi inaugurada oficialmente em 24 de setembro de 1950, por Trigo de Negreiros, Ministro do Interior, pelo Prof. Bissaya Barreto, Presidente da Junta de Província da Beira Litoral, e por Álvaro Malafaia, Presidente da C.M. da Figueira da Foz.

Após a sua inauguração, a Colónia Balnear da Gala passou a receber anualmente cerca de 3000 crianças, divididas em turnos de 500, que integravam o estabelecimento durante 2 a 3 semanas ao longo dos meses de junho, julho, agosto, setembro e outubro, números que, em 1963, já tinham duplicado.


Bissaya Barreto estava certo de que as crianças podiam “trilhar o caminho da Saúde”, conhecendo outro ambiente “que não o ar impuro, a promiscuidade, a falta de asseio e de limpeza e de higiene em que viviam” e usufruindo das qualidades terapêuticas do Sol, “o maior dos médicos.”

O professor Bissaya Barreto tinha muita ligação à Figueira da Foz, onde operava no Hospital da Misericórdia e onde o Liceu Municipal tinha adotado o seu nome quando foi criado em 1932, designação que manteve até 1961 quando passou a Liceu Nacional.

Foi também o grande mentor do Hospital Hélio-Marítimo da Gala, idealizado por si no início da década de 30 e inaugurado em 1971.


Bissaya Barreto nasceu em Castanheira de Pera em 29-10-1886 e faleceu em 16-9-1974 em Lisboa.



Aluno brilhante, formou-se em Filosofia e Medicina na Universidade de Coimbra.

Republicano convicto, participou no grupo de Livre Pensamento (1904), na criação do Centro Republicano Académico, assinou o Manifesto Académico ao País dos estudantes revolucionários de Coimbra, lançou o jornal “Pátria” e aderiu à greve académica de 1907, integrando o grupo dos “intransigentes” quando era dirigente da Associação Académica e do Centro Republicano.

Recusou receber das mãos do rei o prémio que lhe foi atribuído por ser um dos melhores alunos da Universidade, e, em 1909, quando o combate entre republicanos e monárquicos se intensificou com as sociedades secretas, aderiu à Maçonaria, através da loja de iniciação de estudantes “A Revolta”, da qual fez parte até 1913.


Em 1911 foi eleito deputado pelo círculo da Figueira da Foz para a Assembleia Constituinte, pelo Partido Republicano Português e, no ano seguinte, integrou o grupo parlamentar do Partido Republicano Evolucionista, então criado.


Foi deputado na Assembleia Nacional de 1912 a 1915, pelo Partido Evolucionista, dirigente do Partido Republicano Evolucionista e depois da União Liberal Republicana.

Em 1915 doutorou-se e iniciou a sua carreira como professor universitário na Faculdade de Medicina de Coimbra, a qual culminaria em 1956, ano em que se jubilou.

Em 1918 foi eleito procurador à Junta Geral do Distrito de Coimbra, pelo concelho de Penacova e, no ano seguinte, eleito vice-presidente da Mesa desta Junta, pelo Partido Evolucionista.

Em 1922 venceu as eleições à Câmara Municipal de Coimbra, liderando uma lista de liberais e católicos, exercendo o cargo de presidente até 1926.

Foi governador civil de Castelo Branco, ministro da Marinha, diretor geral da Assistência (1911), vogal do Conselho de Administração do Instituto de Seguros Sociais Obrigatórios e de Previdência Geral (1919-1929) e senador na legislatura de 1925.

De revolucionário republicano, passou para o partido republicano evolucionista e, acompanhando as tendências mais à direita do republicanismo, aderiu à União Liberal Republicana (1926), movimento que fez a transição dos partidos republicanos conservadores para a ditadura militar e para o Estado Novo.

Após o golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 aderiu à União Nacional criada em 1930, integrando a sua Comissão Central presidida por Oliveira Salazar.

Assim, depois de toda a atividade republicana, ocupou, ininterruptamente, cargos políticos ao longo de 48 anos, da Ditadura Militar até à queda do Estado Novo em 25 de abril de 1974.

Presidiu à Junta Geral do Distrito de Coimbra, à Junta da Província da Beira Litoral e à Junta Distrital de Coimbra.

Foi Presidente do Conselho Geral do Grémio da Lavoura de Coimbra (1949), Procurador à Câmara Corporativa, na VIII legislatura (1961-1965) e na IX legislatura (1965-1969), em representação das instituições privadas de assistência.

Como médico e professor, Bissaya Barreto impulsionou sanatórios, leprosarias, casas da criança, refúgios para idosos, institutos maternais, bairros económicos, campos de férias, colónias balneares, estando à frente da campanha de luta contra a tuberculose, a lepra e as doenças mentais.

À sua iniciativa se devem os Sanatórios de Celas e dos Covões, atualmente Hospital Pediátrico de Coimbra e Hospital Geral, respetivamente, a Maternidade Bissaya Barreto, o Hospital Sobral Cid, o Hospital Psiquiátrico do Lorvão, o Hospital Rovisco Pais e o Hospital da Figueira da Foz.

Criou a Escola Normal Social e o Portugal dos Pequenitos, em Coimbra.

A 1 de Setembro de 1950 foi feito 59.º Sócio do Ginásio Clube Figueirense e a 29 de Outubro de 1956 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Benemerência.

Em 26 de Novembro de 1958 criou a Fundação Bissaya Barreto, em Coimbra, com sede na casa onde viveu.

Foi também Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra, de 1963 a 1974.

Bissaya Barreto foi membro de conselhos de administração de grandes indústrias que integraram, no início dos anos 70, os grupos financeiros portugueses.

Após a revolução de 25 de Abril de 1974 foi exonerado de todos os seus cargos, tendo ainda sido agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo no dia 9 de maio seguinte.

Faleceu em Lisboa a 16 de Setembro de 1974, deixando, por testamento, todos os seus bens à Fundação Bissaya Barreto.

Bissaya Barreto foi médico, professor universitário e benemérito, com fortes ligações a Salazar.

Ajudou, contudo, alguns destacados antifascistas, entre os quais o Capitão Henrique Galvão, que terá auxiliado a fugir do Hospital de Santa Maria, em 1959, quando cumpria uma pena de prisão e se deslocou a este hospital.

Henrique Galvão foge e refugia-se na embaixada da Argentina. Depois exila-se na Venezuela.

Foi durante este exílio que Henrique Galvão começou a preparar aquela que seria a sua ação mais espetacular: o desvio do paquete Santa Maria em 1961. Coordenou esta ação com Humberto Delgado, que estava exilado no Brasil.

Em 22 de Janeiro de 1961, algures no mar das Caraíbas, doze portugueses e onze espanhóis, comandados por Henrique Galvão, assaltaram o navio Santa Maria, em que viajavam cerca de 1.000 pessoas, entre passageiros e tripulantes, e protagonizaram aquela que foi, muito provavelmente, a mais mediática das ações contra a ditadura de Salazar.

O capitão Henrique Galvão foi tradutor para português da biografia de Bissaya Barreto, da autoria de Pierre Goemaere, e colaborou no roteiro do filme Rumo à Vida: A Obra de Assistência na Beira Litoral.

Voltando à Colónia Balnear da Gala, onde foram felizes milhares de crianças, pobres, que aqui viram o mar pela primeira vez, recordamos a satisfação de quem por lá passou:

“De manhã, as filas indianas organizavam-se para sair intercaladas a caminho da praia, a calcorrear dunas, a subir e a descer por meandros, como cobras a serpentear na areia a olhar o mar. O entretenimento passava por apanhar a caruma dos pinheiros, que nós chamamos munha, e fazer espinhas…. Adorava o jogo do prego na areia molhada, pior mesmo o ritual do mergulho com o banheiro, o medo que fiquei, ainda hoje não consigo mergulhar, boas lembranças do lanche à tardinha em que as mulheres demoravam em chegar, armadas de cestas de verga à cabeça, cobertas com panos brancos, traziam o lanche, nada mais do que quartos de pão de quilo com grossas fatias de marmelada da boa, vermelha. Muito gulosa, a minha irmã ficava com a minha e eu com o pão dela.”

“Os Banhistas, de calças compridas e arregaçadas, punham-nos todos em fila. Pegavam cada criança, uma a uma, pelo peito e pernas, e mergulhavam-nas por baixo de uma onda. Estava o banho de mar tomado... O pão com marmelada tinha um sabor especial na Praia da Gala. O que gostava menos era ter que ir para a cama (em beliche) ainda com o sol bastante alto. Saudades desses tempos.”

“Se houver paraíso no céu, este era o da terra. Com o nome de Colónia Balnear Dr. Oliveira Salazar. Por baixo dizia: “FAÇAMOS FELIZES AS CRIANÇAS DA NOSSA TERRA”. Existia uma carrinha VW, tipo pão de forma, que fazia a manutenção daquela colónia. O diretor era o Sr. Marques e dava emprego a dezenas, se não centenas de pessoas, e tudo isto a custo zero. No que diz respeito a alimentação e alojamento, era do melhor: HOTEL 10 ESTRELAS. Não tenho palavras para descrever o quanto aquela colónia era maravilhosa. Hoje recordo com muitas saudades os tempos que lá passei e de vez em quando, vou lá fazer uma visita. Atualmente era impensável existir uma instituição desta categoria. Tenho dito. A.L.”

A Colónia Balnear recebia crianças de ambos os sexos, dos 5 aos 14 anos de idade, de 10 de junho a 30 de outubro. A admissão era autorizada superiormente e poderia ser solicitada por qualquer entidade oficial ou particular, pelos pais ou por qualquer pessoa que se responsabilizasse pelo pagamento das despesas. A administração estava a cargo de um secretário e de uma regente.

A Colónia Balnear da Gala já não existe e no seu local, foi construída uma obra excecional, o Centro Geriátrico Luís Viegas Nascimento, pertença da Fundação Bissaya Barreto, que foi inaugurado em 2005 e tem capacidade para 77 residentes.


Final de agosto, princípio de setembro.

Por norma, nesta altura do ano, temos a Feira do Ano na nossa terra. Sim, nossa terra. É assim que continuo a ver Montemor-o-Velho. Como a minha terra. A terra do meu coração. Das minhas origens. Daquelas que podemos deixar durante anos, mas que nunca verdadeiramente nos deixam.

E não poderia ser outro o tema desta crónica, nesta altura do ano.

Quando era miúda, adorava esta altura do ano. A Feira enchia-se de gente, de música, de carrosséis, de luzes e daquela alegria própria das coisas que esperamos durante meses. Havia qualquer coisa de especial naqueles dias. Talvez porque éramos mais novos e tudo parecia maior. Mais intenso. Mais importante.

Continuamos a ter gente. Muita. Continuamos a ter música, convívio, carrosséis, encontros e reencontros. À primeira vista, talvez nada tenha mudado assim tanto. E, no entanto, quando lá vou, sinto que falta qualquer coisa.

Talvez a Feira tenha mudado. Talvez se tenha perdido alguma coisa pelo caminho, como tantas vezes acontece aos lugares, às tradições e às pessoas. Ou talvez tenha sido eu.

Talvez sejam os meus olhos que já não conseguem olhar para aquelas ruas da mesma maneira. Talvez porque já não sou a miúda que esperava ansiosamente por estes dias. Talvez porque crescemos e começamos a perceber que os lugares permanecem, mas as pessoas que lhes davam determinado significado nem sempre permanecem connosco.

E isso muda tudo.

Há pessoas que já não encontro na Feira. Rostos que faziam parte daquela paisagem e que hoje existem apenas na memória. Outras seguiram os seus caminhos e deixaram de estar por perto. Algumas continuam cá, mas a vida afastou-nos. E depois há aqueles que ainda encontramos e que, por instantes, nos fazem regressar muitos anos atrás. Um “olá”, “estás bem?”. E depois seguimos caminho.

Talvez isso seja crescer. Descobrir que a saudade não pertence apenas às pessoas. Também podemos ter saudades de lugares, de tempos, de versões de nós próprios. Podemos caminhar exatamente pelas mesmas ruas e perceber que nunca mais conseguiremos verdadeiramente regressar ao lugar onde um dia estivemos.

Porque o lugar continua ali. Nós é que já não somos os mesmos.

Ainda assim, continuo a gostar de voltar. Continuo a sentir qualquer coisa quando entro em Montemor e vejo a vila cheia nesta altura do ano. Continuo a olhar para o castelo, para aquelas ruas, para aquela gente e a sentir uma espécie de pertença difícil de explicar.

É a minha terra. Será sempre.

Não porque viva lá. Não porque a minha vida continue a acontecer ali todos os dias.

Mas porque há lugares que ficam ligados a nós de uma forma que o tempo, a distância e todas as voltas da vida não conseguem desfazer.

Montemor-o-Velho será sempre um desses lugares.

E talvez a Feira do Ano já não seja exatamente aquela Feira de que me lembro. Mas talvez também não precise de ser. Porque, afinal, há memórias que não existem para serem repetidas. Existem apenas para nos lembrar de onde vimos.

(em actualização)

Versos de outras vozes.

Na pequena praça da aldeia, todos diziam que o vento sabia mais histórias do que qualquer um. Quem se sentava sob a figueira podia ouvir fragmentos de versos que não pertenciam a ninguém — ou, talvez, a todos.

Um rapaz costumava ir lá ao fim da tarde. Fechava os olhos e deixava-se atravessar pelas vozes que chegavam como um murmúrio. Ora era a lembrança de uma avó chamando os netos para a mesa, ora a canção antiga de um marinheiro que nunca voltou, ora ainda a prece tímida de uma criança que falava com as estrelas.

Ele escrevia tudo num caderno gasto e poeirento, sem assinar, como se fosse apenas copista de almas. Um dia percebeu que já não sabia distinguir a sua voz das outras: estava feito de ecos, e nisso encontrou sentido.

Afinal, talvez ninguém seja dono do que escreve — somos apenas passagem para os versos de outras vozes.

Encontrei na vida uma luz inebriante,

descobri castelos encantados…

Sonhei palácios rendilhados de ventura.

Fiz promessas e juras eternas,

vivi …

Findou essa luz.

Reconstruí o meu mundo,

sonhei sem limites

os amanhãs risonhos

há tanto esperados.

Em busca desse olhar,

derrubei barreiras …

vi outra luz brilhante,

promissora de infinitos…

Então, as asas nasceram

para rasgar o céu de novo.

Deslumbradas, traçaram rotas

fugidias,

rios límpidos de luz azul,

à espera de um sinal,

de um aceno apenas …

SOU MÃE – SOU AVÓ

 

Sou mãe,

Sou avó.

Sou guardiã dos sorrisos que nasceram de mim.

 

Cada riso,

Cada lágrima,

Uma joia guardada no meu coração.

 

Eles são meus.

Meus pedaços de tempo,

Meus passos repetidos,

Meus sonhos que caminham sozinhos.

 

Amo-os como a força da luz,

Como a firmeza do mar, que jamais se rende.

 

E se alguém ousar tocar-lhes,

Estenderei as minhas mãos,

Os meus braços,

 A minha alma inteira,

Porque são meus,

E cada pedaço deles

É um pouco de mim.

ESSÊNCIA

A essência que nos molda

Que rege os nossos sentidos

Faz de nós por vezes estranhos

Nos caminhos percorridos…

Poucos são… o que gostariam…

Poucos são… os que se encontraram…

Poucos se sentem… realizados…

Poucos, a si próprios, se amaram!

Não há na vida um só caminho

Nem uma só direção…

Às vezes o que escolhemos

Não é com o coração!…

Já estava decidido…

Mesmo antes de nascermos

Mesmo um caminho sofrido

Nas escolhas que fazemos…

A vida tem tanto de bela

Como tem de complicada

É preciso compreendê-la

Abraçá-la… e aceitá-la!

Não é fácil… mas é tão bela

Se ligada à natureza, à fé e ao amor

Toda a grandeza é singela

Seja a vida como for!...

  Tema: crítica política ao processo desencadeado pelo 25 de Abril de 1974, incluindo a democracia instaurada e, no segundo volume, a descolonização.

  Existem dois volumes. O primeiro aparece como Quando os Cravos Murcham I – A Democracia que nos Impuseram, com 77 páginas; o segundo é associado ao subtítulo Meio Milhão de Mortos / A Vergonhosa Descolonização.

  A bibliografia de Barradas de Oliveira regista uma edição de Quando os cravos murcham. Meio milhão de mortos em Lisboa, com depósito legal de 1982; outras referências catalogam a edição sobre a descolonização em 1984.


"Dio, come ti amo" (italiano para 'Deus, Como Eu Te Amo') é uma música gravada pelos cantores italianos Domenico Modugno e Gigliola Cinquetti, composta e escrita pelo próprio Modugno. A música venceu o Festival de Música de Sanremo em 1966 e representou a Itália – interpretada por Modugno – no Festival Eurovisão da Canção de 1966, realizado em Luxemburgo. A música foi composta por Domenico Modugno. É uma balada, na qual o cantor conta ao seu/sua amante como ele se sente em relação a ela/ele. O cantor expressa seu espanto com a profundidade de seus próprios sentimentos, usando a frase do título com frequência. De 27 a 29 de janeiro de 1966, "Dio, come ti amo" competiu na 16ª edição do Festival de Música de Sanremo, sendo interpretada tanto por Modugno quanto por Gigliola Cinquetti, e venceu a competição. Como o festival era usado pela Radiotelevisione Italiana (RAI) para selecionar sua música e intérprete para a 11ª edição do Festival Eurovisão da Canção, a música se tornou a entrada da Itália no concurso.


BARCAÇA_71

  Boa noite, Barcaça larga das terras de Montemor, onde os foguetes e a música, com a bela gastronomia, acompanham o mergulho na Feira que m...