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domingo, maio 31

BARCAÇA_68

 

*        Com naturalidade, a nossa Barcaça segue silenciosa ao longo do Mondego, levando até às suas gentes um pouco de nós, algumas memórias, seja em prosa como em poesia. Mas admirando o seu patrimônio, porque é ele que nos traz à memória o que somos e o que nossos antepassados nos deixaram. Patrimônio, cultura e muito bairrismo. É neste espírito que Fernando Curando nos traz uma lindíssima passagem da visita real de 26 de maio de 1852 à Figueira da Foz.

António Girão surpreende-nos com um soneto, “Soneto da Algema”. Maria Forte nostalgia das boas recordações da Vila de Montemor e do que leva ainda dentro de si, sentimentos, alegrias e ...

Carla M. Henriques fala-nos do real ao virtual e, sempre com uma escrita simples e muito intensa, aborda-nos essa passagem que estamos a atravessar, em que o virtual pode e leva-nos ao real ou vice-versa.

Vamos entrar na seção da poesia, onde as nossas colaboradoras nos descrevem sentimentos, momentos, alegrias e tristezas. Garça Real poderia chamar o seu grito. Isabel Capinha transporta-nos para momentos de aflição que viveram as gentes do concelho de Montemor-o-Velho com as cheias. Isabel Rama leva-nos a uma “Canção da Vida” cheia de amor e carinho. Isabel Tavares, como é simples fazer (para alguns) poemas com alma, paixão e muito amor.

Na música, algo diferente, mas intensivo. Estamos na época das Queima das Fitas, nada melhor que um fado de Coimbra.

Já na literatura, um Prêmio Nobel que saiu dos manuais dos estudantes: “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago.

Boas leituras e até 30 de junho.


(em actualização)

· FIGUEIRA DA FOZ – VISITA REAL DE 26 DE MAIO DE 1852

Há 174 anos, no dia 26 de maio de 1852, a família real visitou a Figueira da Foz.


Melhor dizendo, metade da família real, porque a outra metade ficou em Verride, numa situação mal-esclarecida que aqui tentaremos compreender.

Em agosto de 1851 morreu o sogro de D. Maria II, pai do seu terceiro marido D. Fernando II.


Depois de tomar luto por seis meses, e depois de longos anos de lutas políticas, entendeu o governo do Duque de Saldanha que seria conveniente uma visita da família real ao Norte do país, recentemente abalado pelas revoltas da Maria da Fonte e da Patuleia, e ainda com resquícios do Miguelismo derrotado.


Assim, em 15 de abril de 1852, a família real, composta por D. Maria II, o seu 3º marido D. Fernando II e os dois filhos, o príncipe D. Pedro (futuro rei D. Pedro V) e o infante D. Luís (futuro rei D. Luís I), embarcou em Lisboa, num vapor de guerra, com destino a Vila Franca de Xira.


D. Maria II tinha 33 anos, D. Fernando II tinha 36 anos, D. Pedro 15 anos e D. Luís 14 anos.

A família real vinha acompanhada pela dama de serviço D. Maria das Dores Sousa Coutinho, pelo camarista Thomaz de Mello Breyner (Visconde da Carreira), aio dos príncipes, pelo Dr. Kessler, médico da casa real, por António Severino Alves, intendente das reais cavalariças, por 16 criados e criadas, 39 moços e empregados subalternos, 45 fiéis, cocheiros e demais criados das cavalariças reais.


Do ministério ia apenas o Duque de Saldanha, acompanhado pelo subchefe do Estado Maior, o Visconde de Pinheiro, pelos ajudantes Barão de Sarmento, Barão da Foz, D. Francisco de Almeida, Roussado Gorjão, D. Rodrigo de Almeida e Guedes da Costa.


A comitiva era ainda apoiada por 36 cavalos e 36 muares, fora o gado adstrito às carretas de transporte e bagagens.

Desembarcaram em Vila Franca de Xira, seguindo depois, por terra, para Caldas da Rainha, Alcobaça, Leiria, Pombal, Condeixa, Coimbra, Aveiro, Porto, Vila Nova de Famalicão, Barcelos, Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Santo Tirso, Ermesinde, novamente Porto, Ovar, novamente Aveiro, Montemor-o-Velho, Figueira da Foz, Verride, Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da Rainha, Runa e finalmente Lisboa.


Estava previsto que a família real visitasse a Figueira da Foz no dia 25 de maio, onde dormiria, atravessando no dia seguinte o Mondego a caminho de Leiria.


Na realidade, e pelos motivos à frente expostos, a visita só veio a ocorrer no dia seguinte, a 26 de maio, sem a presença da rainha D. Maria II e do infante D. Luís, e não tenho havido pernoita como previsto.


Em finais de abril a Câmara Municipal da Figueira da Foz foi avisada deste itinerário pelo Dr. Henriques Seco, Secretário-geral do distrito, servindo de Governador Civil.


No dia 2 de maio imediato, o Presidente da Câmara, Joaquim Maria Ferreira Pestana, convocou uma reunião com várias personalidades para planear a receção da família real.


A Câmara Municipal, composta pelo referido Presidente e pelos Vereadores António José Monteiro de Barros, António Dias, Adriano Freire de Macedo e João José da Costa, nomeou 4 Comissões para dirigirem a receção da família real: a Comissão promotora dos donativos para as despesas, a Comissão para o arranjo das casas onde ficaria a família real, a Comissão para a decoração da Igreja Matriz, ruas, arcos e outros arranjos e a Comissão para o arranjo dos barcos no rio.


A Comissão encarregada da escolha da casa onde seria recebida a família real elegeu a casa do Dr. António José Duarte Silva e para pernoita a casa de António Pinto Mello Fortes e a casa dos herdeiros de Caetana Efigénia Salazar.


Tendo-se concluído que a casa do Dr. António José Duarte Silva era pequena para receber tão grande comitiva, decidiu a Comissão escolher a Casa do Paul (que mais tarde pertenceria ao Dr. Pereira das Neves).


O Administrador do Concelho, Dr. João Inácio da Costa Brandão, informou a Câmara que o Governador Civil, Dr. Henriques Seco, viria à Figueira da Foz com o Diretor das Obras Públicas do Distrito para observar o estado das estradas que a família real atravessaria.


O Chefe do Distrito foi recebido em sessão extraordinária da Câmara, a que assistiram as Comissões dos festejos, tendo informado que as estradas de Coimbra à Figueira estavam intransitáveis pelo que o itinerário de Montemor-o-Velho à Figueira da Foz se efetuaria de barco, pelo rio.


Assim, no dia 26 de maio de 1852, pelas 5H30M, a família real embarcou em Montemor-o-Velho, no lugar de Ponte da Alagoa, e, descendo o Rio Mondego, desembarcou no cais em frente da Alfândega da Figueira sob um monumental arco triunfal, eram 7H30M da manhã.

O monumental arco fora projetado por João Pedro Fernandes Thomaz Pippa, funcionário público e antigo aluno da Academia das Belas Artes de Lisboa, fazendo-nos lembrar o arco da Rua Augusta em Lisboa (projetado em 1759, após o terramoto de 1755, iniciado em 1815 e concluído em 1875).

Uma grande multidão apinhava-se no cais da Alfândega, das janelas do casario pendiam vistosas colgaduras, o Mondego estava cheio de barcos ornamentados, repletos de gente, e no ar estralejavam foguetes, soavam músicas e vivas ao rei.

A vila da Figueira estava em festa, ansiando a chegada da comitiva real que seria recebida pela Câmara Municipal debaixo de um esbelto pálio em cujas varas pegavam o Presidente, os quatro Vereadores e o Dr. José Joaquim Borges (antigo Vereador).

Do cais partiu um grandioso cortejo em direção à Igreja Matriz, passando pelas Ruas da Alfândega, Praça do Comércio, ruas da Oliveira e do Paço, todas muito lindamente ornamentadas.

Depois do “Te Deum Laudamus” na Igreja Matriz, celebrado pelo pároco José Rodrigues Torrão, acolitado pelos párocos de Maiorca, Alhadas, Quiaios, Brenha, Ferreira e Lavos, o cortejo real dirigiu-se para o Largo da Fonte, onde, na Casa do Paul, numa sala sumptuosamente decorada, receberam a família real e serviram um faustoso almoço.

Após o almoço, o Rei decidiu visitar o Forte de Santa Catarina, porque quis ver de perto os motivos das fortes e antigas reivindicações dos figueirenses sobre as necessárias obras de melhoramento do porto e da barra.

Depois a comitiva real voltou ao cais da Alfândega, onde voltou a embarcar.

Foi um dia de festa na Figueira da Foz.

Foi há 174 anos.

Mas, algo de estranho aconteceu nesta visita real à Figueira da Foz, porque na comitiva real faltava a rainha D. Maria II e o infante D. Luís.

Da família real só D. Fernando e o Príncipe D. Pedro compareceram. Por que não estavam a rainha D. Maria II e o infante D. Luís?

Previa-se que a família real chegasse à Figueira da Foz a 25 de maio, onde jantaria e pernoitaria, seguindo no dia seguinte em direção a Leiria, com almoço na Marinha das Ondas.

Em reunião extraordinária da Câmara de 25 de maio, onde estiveram presentes as Comissões das festas, o Presidente Joaquim Pestana apresentara e lera as felicitações que dirigiria à Rainha, tendo todos concordado.

Contudo, neste mesmo dia 25 de maio, a Câmara recebeu um ofício do Secretário-geral, servindo de Governador Civil, informando que a rainha decidira regressar de imediato de Montemor-o-Velho para Lisboa, sem passar pela Figueira da Foz, por motivo de cansaço e por ter sido reclamada a sua presença em Lisboa.

A notícia espalhou-se rapidamente, os figueirenses estavam dececionados, e de imediato se constituiu uma Comissão composta pelo Presidente da Câmara, pelo Vereador António Dias, pela Direção da Associação Comercial, pelo Administrador do Concelho, pelo Pároco, e outros.

Todos se dirigiram a Montemor, onde já tinha chegado a família real, com o fim de convencerem a Rainha a visitar a Figueira da Foz.

A comitiva real aceitou parcialmente o pedido dos figueirenses e ficou acordado que no dia seguinte, 26 de maio, El-Rei D. Fernando e o Príncipe D. Pedro visitariam a Figueira.

Constou que o verdadeiro motivo que impediu a Rainha de visitar a Figueira terá sido evitar ficar hospedada numa determinada casa no trajeto da Figueira para Leiria.

Esta casa localizava-se na Marinha das Ondas, pertencendo a Joaquim Gonçalves Curado, conhecido por Joaquim da Marinha, ou Gaialo, um homem temido na região por, supostamente, ter mandado executar vários opositores políticos.

Lavos foi concelho durante 23 anos, de 1830 a 1853, quando viveu tempos de barbárie provocada por “malvados” pagos por Joaquim Gonçalves Curado, nomeado Administrador do concelho em 1841.

Este Administrador de Lavos fomentou a barbárie numa época em que em Lavos “os assassinos e ladrões iam-se aniquilando uns aos outros e só depois de mutuamente se extinguirem os grandes malvados, é que ali se restabeleceu o sossego”.

No seu tempo de Administrador de Lavos, de 1841 a 1851, houve doze assassinatos, supostamente mandatados por si.

Joaquim da Marinha tinha altas proteções, e por isso conseguira conservar-se no cargo de Administrador do concelho de Lavos, mesmo depois de se estabelecer o governo regenerador em 1851.

Assim, Joaquim da Marinha conseguiu convencer os organizadores da visita régia de modo que a rainha almoçasse e pernoitasse na sua casa da Marinha das Ondas.

De facto, em 18 de janeiro de 1852, em sessão extraordinária da Câmara Municipal de Lavos, presidida por José Francisco Vaz, fora deliberado tomar providências acerca da “recepção de Sua Majestade a Rainha e sua augusta família quando transitar por este concelho”, uma vez que a família real, no regresso a Lisboa teria de “seguir pela estrada real da beira-mar”.

Para o efeito, Joaquim da Marinha realizou despesas significativas e, “dentre os objetos que comprou foi uma farda para ele, como Administrador, e um bacio de prata para o quarto destinado à Rainha”.

A então vila da Figueira não possuía uma casa nobre com categoria para a pernoita da família real, mas a estadia na Marinha das Ondas, em casa do Administrador de Lavos, menos lhe terá agradado.

Assim, D. Maria II e o infante D. Luís ficaram em Verride, em casa de Jerónimo Pereira de Vasconcelos, aguardando o regresso do marido D. Fernando e do filho D. Pedro que visitavam a Figueira durante algumas horas.

(Jerónimo Pereira de Vasconcelos era um militar luso-brasileiro, primeiro barão e visconde de Ponte da Barca, marechal-de-campo e ministro de Estado honorário e da Guerra, par do reino e fidalgo Cavaleiro da Casa Real).

De Verride, a família real seguiu para Soure, Marinha Grande, Nazaré, Caldas da Rainha e Runa, tenho chegado a Lisboa no dia 2 de junho.

A família real só voltaria trinta anos depois, em 3 de agosto de 1882, quando D. Luís I, acompanhado da rainha D. Maria Pia de Saboia e de vários ministros, veio inaugurar o troço que ligava a Figueira da Foz à Pampilhosa e a Pampilhosa a Vilar Formoso (linha da Beira Alta).

 

SONETO DA ALGEMA

Num largo erguido em zelo teatral,

surge André Ventura, em pose de juiz,

brandindo algemas, gesto triunfal,

compradas, diz-se, em loja pouco sisuda e feliz.

 

Clama justiça em tom quase imperial,

contra um visitante de fama e raiz,

mas o cenário roça o carnaval,

mais farsa do que ato firme e feliz.

 

Entre bandeiras, gritos e encenação,

confunde-se o zelo com vaidade vã,

e a política vira uma palhaçada de ocasião.

 

Se a intenção era força soberana,

restou o ridículo riso na multidão,

teatro breve, de glória meio profana. 

O que nunca saiu de mim.

 Durante muito tempo pensei que as origens eram um lugar. Hoje sei que estava enganada. As origens não são uma morada.

São uma marca. Há lugares de onde saímos. E há lugares que nunca saem de nós.

Montemor-o-Velho é um desses lugares. Saí de lá há muitos anos. A vida levou-me para outras cidades, outras experiências, outras versões de mim. Mas há coisas que ficaram. Ou talvez seja mais correto dizer que vieram comigo.

A forma como olho para as pessoas. A importância que dou às histórias. O respeito por quem trabalha sem fazer alarde. A capacidade de encontrar beleza nas coisas simples. Muito daquilo que sou foi forjado naquela terra. Não apenas pelas ruas ou pelas paisagens. Mas pelas pessoas. Porque são sempre as pessoas que transformam um lugar numa memória.

Ao longo da vida fui colecionando experiências, projetos, viagens e encontros. Mas continuo a carregar vozes que nasceram muito antes disso. Algumas já partiram. Outras continuam por lá. Algumas nem imaginam que ainda vivem dentro de mim.

Depois da morte dos meus pais afastei-me. Não por falta de amor. Pelo contrário. Havia amor a mais e chão a menos para o suportar. Voltar significava encontrar ausências. E às vezes a dor tem uma forma estranha de nos proteger: afasta-nos daquilo que mais amamos.

Precisei desse tempo.

Precisei dessa distância.

Mas aprendi uma coisa. As raízes não desaparecem porque deixamos de visitar a árvore. Continuam lá. Silenciosas.

À espera.

E talvez seja por isso que hoje escrevo.

Porque escrever também é uma forma de regressar. Não ao passado. Mas às pessoas. Às histórias. Àquilo que ajudou a construir quem somos.

Falamos muito sobre partir.

Sobre conquistar o mundo. Sobre ir mais longe.

Mas raramente falamos da coragem que é reconhecer de onde viemos.

Porque ninguém cresce sozinho. Somos feitos de lugares.

Mas sobretudo de pessoas.

E se hoje sou quem sou, devo muito às que cruzaram o meu caminho naquela terra.

Algumas ensinaram-me através do amor. Outras através do exemplo. Outras através da ausência. Todas deixaram marca.

E talvez seja isso que as origens realmente sejam.

Não o lugar onde nascemos.

Mas o conjunto de histórias que continua a viver dentro de nós, mesmo quando já fomos embora.

Porque há terras que visitamos.

E há terras que habitamos para sempre.

Montemor, para mim, será sempre uma delas.

Mais sentimental até porque sua 6 junho faço anos



Desenganem-se.

Não é inteligência artificial.

Não é uma fotografia inventada por um robô qualquer.

É real. Muito real.

E talvez seja isso que a torna tão bonita.

Porque hoje já desconfiamos de tudo. Do que vemos, do que sentimos, do que parece demasiado perfeito para ser verdade.

Mas este momento existiu. Sem preparação. Sem pose. Sem tentativa de parecer especial.

Aconteceu. Assim.

Há silêncios que dizem mais do que muitas pessoas conseguem dizer a vida inteira.

Nesta fotografia há calma. Há presença. Há aquele tipo de ternura que não se explica muito bem, mas que se sente logo. Dois seres quietos, encostados um ao outro, como se naquele instante o mundo pudesse esperar.

Sempre achei curioso como os animais nos encontram. Não precisam que lhes digamos muito. Percebem quando estamos cansados, quando precisamos de colo, quando só queremos ficar ali, em silêncio, sem ter de explicar nada.

Assim foi.

Talvez seja por isso que gosto tanto destes momentos. Porque não pedem nada. Não cobram nada. Não exigem versões melhores de nós.

Apenas ficam.

Dão amor. Presença. Carinho. Uns mimos e, pelo caminho, se lhes apetecer, umas arranhadelas.

Mas há qualquer coisa profundamente bonita neste gesto. O encostar da testa. Os olhos fechados. A confiança. A paz pequena de um instante simples.

Às vezes a felicidade é mesmo isto.

Um momento pequeno.

Um abraço sem braços.

E um coração que, por instantes, finalmente desacelera. 


Do céu cinzento

caem cordas de água

que amarram ao cais

vontades de distância…

Nos céus, súbito um clarão,

revolta surda,

grito mudo há tanto sufocado…

desejo de partir para longe…

Agora é o sol poente

num céu imensamente azul,

apelo de uma partida adiada.

Amanhã, será o sol,

a luz intensa,

a viagem com hora marcada

rumo à lonjura.

Amanhã, o sol

e o azul das promessas…

Tempo de infinito sem limites.

CHEIAS

O céu rasga a sua paz,

escurece o horizonte,

e o rio, como um monstro esquecido,

levanta-se, imenso, voraz.

As águas sussurram promessas de ruína,

invadindo as terras e engolindo os campos.

O vento é um lamento distante,

as árvores, de raízes trêmulas,

perdem a luta, e dobram-se ao peso

do que se ergue em fúria.

O rosto do homem é uma máscara de pavor,

enquanto as águas avançam,

arrastando tudo à sua volta.

E quando, finalmente, as águas se aquietam,

fica o silêncio de uma terra destruída,

restos de um mundo submerso.

As cheias vêm como um sonho assustador,

e vão como um pesadelo não contado,

deixando na memória

que o eco da natureza,

quando se zanga, é a dona do fim.

Canção da Vida 

A vida começa como um sussurro, um acorde frágil que desperta no silêncio. É o nascimento, a primeira nota pura que rompe o vazio e anuncia: estou aqui. Nesse instante, tudo é descoberta — o olhar curioso, o passo incerto, o descompasso alegre de quem aprende a existir.

Depois, a melodia cresce. Ganha ritmo, intensidade e cores. É a juventude, o tempo das harmonias ousadas, das danças apressadas, dos sonhos que se lançam ao vento. O compasso alonga-se, encontra equilíbrio, e no meio dele surgem pausas — breves silêncios que ensinam a ouvir melhor a música.

Então, a canção amadurece. Torna-se profunda, marcada pelas marcas do tempo e pelos ecos das memórias. Cada acorde é mais lento, mas também mais cheio de sentido. É a sabedoria que nasce do vivido, a beleza que se encontra nas notas simples.

Por fim, chega o último trecho: suave, delicado, quase impercetível. A melodia despede-se, mas não morre. Permanece no ar como eco, lembrança, saudade. Porque a vida, mesmo quando finda, continua sendo música — guardada no coração de quem escutou a sua canção.

FAZER POEMAS

Fazer poemas…

É namorar com as palavras

é tocar freneticamente

nos mais secretos pensamentos

é criar histórias da nossa história

é um respirar puro e limpo da alma

é sonhar, é amar, é perdoar,

é esquecer, é lembrar, é rir

é chorar…


Fazer poemas…

É adormecer num lugar

que nos leva para outras paragens

é um salto no escuro

quando começa a clarear

é permanecer e ficar agarrada

a sentimentos escondidos

sem culpa e sem temor

é sentir amor…


Fazer poemas…

É deixar entrar um raio de lua cheia

deitar-se num chão pejado de estrelas

e adormecer coberta pelo raiar do sol

é sonhar com sítios desconhecidos

e encontrar corações que batem

no mesmo compasso…

Alimentam-se dos meus sonhos

e querem sonhá-los connosco!...




Resumo

Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como «um rastilho de pólvora». Uma cegueira coletiva. Romance contundente. Saramago a ver mais longe. Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos, face ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da preocupação cívica.






quinta-feira, abril 30

BARCAÇA_67


Liberdade: entre a memória e o silêncio

A liberdade não é apenas um direito conquistado — é uma construção diária, frágil, que exige memória, consciência e coragem. Em Portugal, país que celebra o aroma dos cravos de abril, é impossível falar de liberdade sem reconhecer que ela também se perde, discretamente, quando deixamos de questionar.

A decisão de retirar obras de José Saramago do ensino levanta uma questão inquietante: que liberdade é esta que escolhe o que pode ou não ser pensado? Saramago não foi apenas um escritor; foi uma voz crítica, muitas vezes incómoda. E é precisamente isso que torna a sua ausência preocupante. A liberdade não vive do conforto — vive do confronto de ideias.

Mas a liberdade também se mede no silêncio dos que são esquecidos. A solidão dos idosos em Portugal é uma realidade crescente, muitas vezes ignorada. Que sentido tem celebrar a liberdade coletiva se tantos vivem aprisionados no isolamento? A verdadeira liberdade exige dignidade para todos, em todas as fases da vida.

Há lugares que guardam essa memória silenciosa. O Convento de Nossa Senhora dos Anjos, em Montemor-o-Velho, permanece como testemunha de tempos passados — um espaço onde história e identidade se cruzam. Tal como os rios que transbordam em Montemor-o-Velho, lembrando-nos que a natureza também rompe limites, a liberdade não pode ser contida sem consequências.

“Cheira a cravos rubros o meu país” — mais do que um verso, é um símbolo. O Revolução dos Cravos trouxe a promessa de um país livre, mas essa promessa precisa de ser renovada. A paz, como disseste, não chega quando a procuramos com urgência; constrói-se com tempo, justiça e empatia.

Na literatura e na música — como nas canções da Brigada Victor Jara — encontramos ecos dessa liberdade. Histórias como A menina e o milagre do prado lembram-nos que, mesmo nos lugares mais isolados, há sempre espaço para o sonho e para a transformação.

Portugal é, afinal, um “mar que veste o país”. Nos nossos olhos corre essa imensidão — feita de luta, memória e esperança. A liberdade não é garantida pelo passado; é protegida pelas escolhas do presente.

E talvez a pergunta mais importante seja esta: estaremos verdadeiramente livres se deixarmos de pensar, de cuidar e de lembrar?


Qual a razão para o Governo Português retirar obras de José Saramago do ensino português?



A proposta do Governo Português (do atual executivo de centro-direita, Aliança Democrática) não consiste em retirar completamente as obras de José Saramago do ensino secundário, mas sim em eliminar a sua obrigatoriedade específica no 12.º ano de Português.

O que muda na proposta?

·      Atualidade: No 12.º ano, as escolas são obrigadas a escolher uma obra integral de Saramago para leitura em aula: Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis.

·      Proposta em consulta pública (até 28 de abril de 2026): As escolas passam a ter três opções — as duas de Saramago ou Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho. Saramago deixa de ser a única escolha possível no domínio do romance.

Isto significa que Saramago pode continuar a ser lido (e provavelmente será, em muitas escolas), mas deixa de ser obrigatório que todas as turmas o estudem. A proposta faz parte de uma revisão mais ampla das “Aprendizagens Essenciais” em todas as disciplinas, com entrada prevista apenas para 2027/2028 (após consulta pública e revisão mais profunda).

Razão oficial do Governo

O Ministério da Educação, Ciência e Inovação (ministro Fernando Alexandre) classifica a mudança como “absolutamente técnica” e não uma decisão final. Os objetivos declarados são:

·      Aumentar a diversidade de autores e temas no currículo.

·      Dar maior flexibilidade aos professores e escolas na escolha de obras.

·      Equilibrar o cânone literário português, incluindo outros autores (por exemplo, Camilo Castelo Branco passa a ser leitura obrigatória noutro contexto).

O ministro tem repetido que Saramago continua a ser um “escritor de referência” e que Portugal tem “muitos grandes escritores”, pelo que a leitura dele (e de outros) deve permanecer importante. A alternativa proposta (Mário de Carvalho) é também um autor de esquerda e militante comunista, o que o governo usa para rebater acusações de viés ideológico.

Críticas e polêmica

A proposta gerou forte reação negativa de:

·      A Fundação José Saramago (presidida por Pilar del Río), que questiona o critério usado e sugere incluir ambos os autores (“e” em vez de “ou”).

·      A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), que considera a medida um “atentado contra a grandeza” da obra de Saramago e lamenta a falta de justificação clara.

·      Partidos da oposição (como o PS) e alguns professores/autores, que veem nisso um possível gesto simbólico contra um escritor de esquerda, conhecido pelas suas posições políticas incómodas para a direita e pela crítica à religião e ao poder (ex.: O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que já foi alvo de controvérsia governamental em 1992).

Alguns professores e a Associação de Professores de Português defendem que, na prática, Saramago continuará a ser ensinado por meio de “contrato de leitura” ou outras componentes, e que a mudança visa apenas mais variedade.

Contexto adicional

Saramago, único Nobel da Literatura português (1998), tem uma obra densa, com linguagem complexa e temas políticos/humanistas que nem sempre são fáceis de lecionar. Há quem argumente que a obrigatoriedade única pode limitar a diversidade curricular. No entanto, a discussão rapidamente ganhou contornos ideológicos, dada a história de Saramago (comunista, crítico do catolicismo e exilado voluntário em Lanzarote após polêmica com um governo de direita em 1992).

Em resumo: não é uma “retirada” total, mas o fim da exclusividade obrigatória. A razão oficial é técnica e pedagógica (diversidade e flexibilidade). As críticas veem motivações políticas ou culturais mais profundas. Como a consulta pública ainda decorre, a versão final pode ser alterada. 

Solidão dos Idosos em Portugal 

Introdução

A solidão dos idosos em Portugal é um tema cada vez mais relevante, especialmente com o envelhecimento da população. Este trabalho tem como objetivo abordar essa problemática, analisando as suas causas, consequências e apresentando estratégias para combater a solidão dos idosos. A solidão é um sentimento de isolamento e afastamento social, que pode afetar negativamente a qualidade de vida dos idosos. É importante compreender as suas implicações e encontrar formas de minimizar o seu impacto.

Definição de solidão

A solidão pode ser definida como a sensação de estar só, de não ter companhia ou de se sentir isolado socialmente. Para os idosos, a solidão pode ser especialmente prejudicial, pois muitas vezes estão afastados da família, amigos e da vida comunitária. A solidão não está restrita apenas à ausência física de outras pessoas, mas também à falta de conexão emocional e suporte social. É importante compreender a definição de solidão para melhor compreender os seus efeitos na vida dos idosos.

Impacto da solidão nos idosos

A solidão tem um impacto significativo na vida dos idosos em Portugal. Estudos têm demonstrado que a solidão pode levar ao desenvolvimento de problemas de saúde física e mental, como depressão, ansiedade e aumento do risco de doenças cardiovasculares. Além disso, a solidão pode levar ao aumento do isolamento social, dificultando o acesso aos cuidados de saúde e à falta de suporte emocional. É fundamental compreender o impacto da solidão nos idosos para promover medidas que combatam essa problemática e melhorem a qualidade de vida dessa faixa etária.




Convento de Nossa Senhora dos Anjos

 PARTE II 

Uma das primeiras ajudas daquele monarca ocorre a 18 de outubro de 1502 quando, de passagem por Montemor-o-Velho em direção a Santiago em Compostela, concede ao inacabado convento dos Anjos um alvará para poder arrecadar esmolas, no bispado de Coimbra, da Confraria de Nossa Senhora da Graça de Lisboa, com fim expresso de as empregar nas obras do referido cenóbio.

Esta ajuda régia vem a um tempo em que a parede do lado da epístola está a ser rasgada no ano de 1504 (conforme era grafada na arca funerária) para erigir a capela da Natividade ou do “Nascimento”, apadroada por João Rodrigues Cota e sua mulher Maria Rodrigues Cota, o que significa que a parede sul da igreja se achava concluída nesta altura. O mesmo se pode dizer da sua frontaria cujo cunhal foi deixado à vista durante as obras de conservação dos anos 30 do século XX, o que indica o início da construção a partir daquele local do templo.

Depois, Diogo de Azambuja, ainda vivo e bem ativo, engrandece generosamente a igreja dotando-a da sua parte mais nobre – a capela-mor. E, quando em Montemor-o-Velho despontava Fernão Mendes Pinto, autor do mais traduzido e famoso livro de viagens da literatura portuguesa, a Peregrinação, estava já esta obra de influência manuelina concluída, conforme se pode inferir da inscrição lavrada numa das chaves da abóbada. Corria então o ano de 1511.

Pela mesma altura deve ter-se acabado a sacristia cujo teto, nos finais do século, havia de ser coberto com os interessantes frescos que ainda hoje se mantêm. Contemporânea da capela-mor e da sacristia é, também, a torre sineira e a cornija, constituída por cachorrada avulsa e escultóricas gárgulas, que corre superiormente no corpo e na cabeceira da igreja.

Desta época, ou mesmo da pré-fundação conventual, parece também ser a capela do Santíssimo, situada do lado do evangelho, entre o púlpito e o arco-cruzeiro. O acesso é feito por arco quebrado, sendo que o retábulo, titulado do Espírito Santo, é, na opinião de alguns historiadores, proveniente do Oratório de S. Luís, oratório franciscano que ficava na atual Quinta do Taipal.

Entre 1514 e 1518 rasga-se, na parede que separa a sacristia da capela-mor, o magnífico túmulo de Diogo da Azambuja que, a 15 de agosto desse último ano, morre na mesma vila onde, 86 anos antes, nascera. Integrada num arco polilobado, assente em colunelos e ladeado por dois contrafortes, a arca funéria tem o jacente do homenageado representado com a sua armadura e armas, estando deitado com as mãos em oração, repousando a seus pés um pequeno anjo turiferário. O frontispício da arca sepulcral é ornado por dois brasões do titular, entre os quais se observa um baixo-relevo invocando os feitos que este nobre realizou na feitoria da Mina, observando-se quatro figuras de indígenas na atividade de extração do ouro. A espantosa última morada de Diogo de Azambuja é um trabalho escultórico que se filia estilisticamente na exuberante linguagem da arte manuelina e foi atribuído a Diogo Pires-o-Moço.

FIGUEIRA DA FOZ - LARGO DO CARVÃO


Em 1750 foram descobertas as jazidas de carvão mineral do Cabo Mondego e em 1791 já o atual «Largo do Carvão» era designado por «Armazém de Carvão» porque aqui existia um grande entreposto deste minério.


Em 1859 o Estado doou o Armazém de Carvão à Câmara Municipal, mas “estando devoluto e não se fazendo por enquanto obras nele para o fim para que foi concebido”, deliberou a Câmara em 15 de junho de 1861 proceder ao seu arrendamento, através de arrematação.


Esta arrematação repetir-se-ia em 18 de outubro de 1863, resultando no seu aluguer por 1.505 reis mensais a Joaquim António da Paixão, da Figueira.

Porém, em 28 de abril de 1865, a Câmara decidiu que o antigo Armazém do Carvão seria o local indicado para o estacionamento dos almocreves, mas estando o mesmo alugado a Joaquim António da Paixão, deu-lhe instruções para o desimpedir até final do mês de junho seguinte.


Finalmente, o denominado Armazém do Carvão foi demolido em 1867, e com as suas pedras se construiu um muro de suporte de terras no Pátio de Santo António.

Augusto Silvério d’Oliveira tinha uma “morada de casas” de dois andares e águas furtadas, confinando a Nascente, Sul e Poente com o Largo do Carvão e a Norte com a Rua da Oliveira.

Havia entre a sua casa e a linha do alinhamento um pequeno terreno em triângulo, o qual causaria uma “visível deformidade” ao dito Largo, pelo que, em 22 de fevereiro de 1870, Augusto Silvério d’Oliveira pediu à Câmara que lho vendesse pelo valor a atribuir pelos seus peritos.


Em sessão de Câmara de 26 de fevereiro de 1870 a Câmara decidiu vender o referido terreno a Augusto Silvério d’Oliveira, com 27,61 m2, pelo preço de 27:610 reis, ficando obrigado a nele levantar parede à altura da sua casa e segundo um alinhamento constante, e ficando redondo o cunhal do lado do Sul ao Poente da mesma casa.

O certo é que Augusto Silvério d’Oliveira era vereador substituto e logo apareceram reclamações porque outros poderiam ter interesse no terreno vendido.


Maria Ricardina Pestana e Silva e Joaquim Bento Pinto reclamaram contra a venda daquele terreno que era parte do antigo Armazém do Carvão que há muitos anos fora cedido à Câmara e, entretanto, o demolira.


Tudo ficou resolvido quando em 3 de agosto de 1870 a Câmara tomou conhecimento que o Conselho de Distrito aprovara a venda do terreno ao vereador substituto Augusto Silvério d’Oliveira.


Em 1870 já este largo se chamava de «Largo do Carvão», mas em 7 de setembro de 1887 passou a denominar-se «Largo 11 de Setembro» e em 18 de março de 1896 foi aprovado que ao antigo «Largo do Carvão» fosse dado o nome de «Largo Mouzinho de Albuquerque».


Pretendia-se homenagear os novos heróis de África que nas campanhas de 1894 e 1895 haviam subjugado os levantamentos das populações autóctones de Moçambique.

E foi Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque (1855 – 1902), oficial de cavalaria, herói de Chaimite e de Gaza durante as “gloriosas” campanhas de África, que prendeu o chefe dos vátuas, o régulo Gungunhana, em 28 de dezembro de 1895.


No dia 6 de Janeiro de 1896, Mouzinho de Albuquerque entregou Gungunhana e os restantes prisioneiros ao Governador-Geral da colónia, em Lourenço Marques, seguindo depois para Lisboa e depois para os Açores.


O país estava em apoteose, e o caso não era para menos, porque o regime monárquico libertava-se agora do enxovalhamento a que fora submetido pelo ultimato inglês de 11 de janeiro de 1890.

Mouzinho de Albuquerque foi promovido a Major e nomeado 77.º Governador-Geral de Moçambique a 13 de Março de 1896.

A Figueira não poderia ficar indiferente a tanta heroicidade, e os vereadores Francisco Marques d’Oliveira e Manoel Fernandes d’Azevedo propuseram que o «Largo do Carvão» se denominasse «Largo Mouzinho de Albuquerque» e o «Largo do Forno da Cal» se denominasse «Praça do Coronel Galhardo».

Proposta que apresentaram e aprovaram em reunião de Câmara de 18 de março de 1896:

“Propomos que ao antigo largo do Carvão, atualmente 11 de setembro, seja dado o nome de Largo Mousinho de Albuquerque, e ao Largo do Forno da Cal o nome de Praça Coronel Galhardo. Esta proposta recomenda-se por si e dispensava justificação. Tudo quanto se faça em honra d’aquelles beneméritos da pátria é pouco, e esta Câmara associando-se unanime em prestar o preito da sua homenagem ao valor intemerante d’aquelles bravos, deixa perpetuado para lição dos vindouros, em dois largos, os nomes que elles souberam honrar e tão queridos tomar da pátria.”

“O Coronel Galhardo com a constância d’um dever sagrado a cumprir enceta resolutamente a marcha de Inhambane, atravez de mil difficuldades, para defrontar com o Gungunhana que toda a nossa África Oriental considerava inatacável. Elle confiava no …., porque soldado de longas armas, conhecia a tempera heroica do pequeno soldado português e a sua sobriedade lendária”.

“E lá na vida commum dos bivaques, longe da pátria, ….por febres e uma marcha penível, mais se lhe avigorou a confiança ao vê-los animados e decididos, que com aquelle punhado de bravos nenhuma empreza era impossível. E assim foi. Majancaze e Esoleta lá o attestaram. Mousinho de Albuquerque outro heroe impaciente pela inactividade relativa a que se via forçado não lhe pedindo o animo intemerato tal situação, formou desde logo o projecto de aprisionar o celebre regulo. Tempo depois, é bem certo, realisa a arriscadíssima empreza por uma forma que foi o assombro de todos nós e que achou mesmo lá fora, nos outros países tão avaros de elogios do nosso, como feito brilhantíssimo. Foi de hontem a página heroica que esses valentes escreveram em caracteres luminosos na nossa história. O cyclo da nossa epopeia na India ainda se não fechou; na Africa repetem-se os actos de arrojo sobrehumano que tanto assignharam o período aureo das nossas conquistas. Sala das Sessões da Câmara Municipal 18 de Março de 1896. Os Vereadores Francisco Marques d’Oliveira e Manoel Fernandes d’Azevedo”.

O nome de Mouzinho de Albuquerque não terá sido consensual, pois, por várias vezes, o largo continuou a ser referido como «Largo do Carvão».

Em 1897 voltou a chamar-se «Largo do Carvão, em 11 de março de 1898, numa ata de sessão da Câmara, aparece referido como «Largo Mouzinho Albuquerque», em 1902 surge alternadamente com as designações de «Largo do Carvão» e «Largo Mouzinho de Albuquerque», em 1905 e 1906 é designado por «Largo Mouzinho de Albuquerque» e, finalmente, em 1916 o seu nome fixou-se em «Largo do Carvão».

Após a revolta militar de 28 de maio de 1926, em plena ditadura, Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque foi novamente homenageado, numa nota de 20 escudos emitida em 1929, e depois replicada até ao ano de 1941.

Na Figueira da Foz, em 1996, ainda houve uma tentativa de renomear o Largo do Carvão como Largo Mouzinho de Albuquerque, quando um munícipe o requereu à Câmara, pretensão não aceite, por não ter tradição, e força popular, deliberando redenominá-lo oficialmente de «Largo do Carvão».

Que relação haverá entre Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque (1855 – 1902), oficial de cavalaria, herói de Chaimite e de Gaza durante as “gloriosas” campanhas de África, que prendeu o chefe dos vátuas, o régulo Gungunhana, em 28 de dezembro de 1895, e Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque (1792-1846), cujo nome consta de uma placa junto da Casa da Alfândega?

Responderemos de imediato a tão interessante questão.

Ainda o herói de Chaimite não tinha nascido quando no ano de 1842 o edifício da Alfândega foi novamente reconstruído, e elevado um palmo e meio acima do seu registo anterior (que era de quinze palmos e meio), adquirindo o aspeto que ainda hoje preserva.

Estas obras de reconstrução de 1842 foram necessárias em consequência da construção de um novo cais de embarque e da adaptação das vias adjacentes, obras coordenadas pelo engenheiro Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque, conforme marco de pedra existente junto da Casa da Alfândega, com a seguinte inscrição:

“FOI RECONSTRUÍDO ESTE CAES PELA INSPECÇÃO GERAL DE OBRAS PÚBLICAS DO REINO NO ANNO DE 1842 SENDO INSPECTOR GERAL O EX CONSELHEIRO L.S. MOUSINHO D´ALBUQUERQUE”.

Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque (1792-1846), inspetor geral do Serviço de Obras Públicas do Reino, desde março de 1840, foi engenheiro, poeta, cientista e político, tendo-se distinguido nas lutas liberais.

Foi ministro do reino durante a Regência liberal e por diversas vezes ministro e deputado durante a monarquia constitucional.

E lá está, Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque (1792-1846), o engenheiro das obras do cais da Alfândega em 1842, foi avô de Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque (1855 – 1902), o militar que prendeu Gungunhana em 1895 e que deu o seu nome ao Largo do Carvão em 18 de março de 1896.

É esta uma breve história do Largo do Carvão, um dos locais mais emblemáticos da Figueira da Foz, um local outrora muito movimentado, situado junto da casa do Paço do início do século XVIII, da praça do peixe do século XIX e da praia da sardinha do século XX.

Aqui funcionou a papelaria, tabacaria e casa bancária Costa & Cia desde 1865 (falida em 1952) e por aqui passou o Americano desde 1875, começando por transportar produtos da Companhia do Cabo Mondego, tais como carvão, cal hidráulica, cerâmica, vidro e cimento.

Aqui existiu o Armazém de Carvão de António dos Santos Pimenta, a Cerâmica Exportadora, a ourivesaria e relojoaria M. Costa Pinto, o bazar Brinkedo, a relojoaria Silva, a ourivesaria Ótão, o alfaiate Pedro Campos Santos, a loja de fazendas Pinheiro & Irmão, o oculista Morais, o cabeleireiro Mourinho, os seguros O Trabalho, o Banco Totta e o Banco Português do Atlântico.

Em meados do século XX foi o largo dos bananeiros e dos vendedores de castanhas assadas.

[da calma dos dias]

Tenho aprendido que a paz não chega quando a procuramos com urgência, mas quando, aos poucos, deixamos de lutar tanto contra nós próprios. Quando abrimos espaço. Quando deixamos de tentar controlar tudo o que sentimos e aceitamos que há coisas boas que entram devagar, sem esperarmos, mas ficam de forma funda.

E foi nesse lugar mais calmo, mais honesto, que comecei a perceber que há presenças diferentes. Presenças que não desorganizam, não exigem, não pesam.

Pelo contrário. Acalmam. Aproximam-me de mim. Fazem-me sentir leve. Fazem-me sentir segura. Fazem-me sentir que, afinal, o amor também pode ser tranquilidade.

Há momentos simples, sem grandes palavras, em que sinto tudo a abrandar. O tempo, o corpo, a cabeça. Como se, por instantes, estivesse exatamente onde devia estar. Em paz. Sem esforço. Como se aquele lugar, aquela presença, aquela forma de estar me mostrassem, sem precisar de dizer muito, o que realmente importa.

E talvez seja também aí que, quase sem dar por isso, deixamos de ter tanto medo. De nos abrir. De mostrar quem somos. De partilhar a nossa verdade, os nossos dias, a nossa calma e até as partes mais frágeis e vulneráveis de nós. Porque quando o que sentimos é cuidado, deixamos de viver tão fechados e começamos, devagar, a confiar.

E é nesse espaço que tudo ganha outra forma. O amor deixa de ser urgência e passa a ser construção. Devagar. Tranquilo. Verdadeiro. Daquele tipo de amor que não precisa de barulho para ser imenso. Daquele que cresce de dia para dia e que, sem dar por isso, se vai tornando cada vez mais essencial.

Há pessoas que, sem saberem, se tornam casa. Presença. E há sentimentos que nos mudam por dentro de forma tão bonita que passamos a olhar para a vida com outros olhos. Talvez seja isso que mais me toca. Perceber que aquilo que sinto é real. Profundo. Sereno. E tão verdadeiro que, quando a vida me deixa sentir algo assim, só me apetece ficar onde o coração finalmente encontrou paz. 


As Duas Arcas de Montemor (e a escolha que continua por fazer)

Dizem que, no castelo de Montemor-o-Velho, existem duas arcas.

Pesadas. Antigas. Fechadas.

Uma cheia de ouro.

Outra cheia de peste.

E durante anos, a história foi sendo passada quase como um aviso:

“Não abras. Não mexas. Não arrisques.”

Como se o perigo estivesse na escolha…

e não na vida inteira sem escolher.

Mas há uma coisa que raramente se diz:

Montemor não vive desta lenda.

Montemor repete-a.

Porque, na verdade, as arcas nunca estiveram no castelo.

Sempre estiveram — e continuam — dentro de nós.

E ficam ainda mais visíveis quando a terra treme.

Quando a tempestade veio, levou mais do que água.

Levou segurança.

Levou rotinas.

Levou a ilusão de controlo.

Mas deixou uma coisa que quase ninguém quer assumir: responsabilidade. E é aqui que começa o incómodo.

Porque depois da água baixar, depois das promessas, depois das reuniões, depois das palavras bem colocadas…

a pergunta não é o que foi dito.

É o que foi realmente decidido.

E Montemor conhece bem este ciclo.

Fala-se muito quando dói.

Mostra-se muito quando é preciso.

Promete-se muito quando há urgência.

Mas passado o impacto… tudo volta ao mesmo sítio.

As mesmas conversas.

As mesmas justificações.

As mesmas esperas.

Como se a arca da peste fosse mais fácil de manter fechada… do que a do ouro aberta.

E talvez seja.

Porque a arca da peste não exige nada de nós.

Permite-nos culpar, comentar, esperar.

A do ouro… não.

A do ouro obriga a visão.

A decisão.

A assumir que não basta reagir, é preciso liderar.

E isso não é só para quem governa.

É para quem aceita ser governado sem questionar.

Eu cresci em Montemor.

E aprendi uma coisa que me demorou anos a perceber: há uma diferença entre proteger uma terra…

e mantê-la parada.

Entre respeitar a história…

e usar a história como desculpa para não evoluir.

E talvez por isso, às vezes, seja preciso afastarmo-nos…

para conseguir ver com mais clareza aquilo que, por dentro, se normalizou. Hoje, depois da tempestade, depois das palavras, depois da poeira assentar…

a escolha continua a ser exatamente a mesma da lenda:

Que arca queremos abrir?

Porque o maior perigo nunca foi escolher mal.

É fingir, todos os dias, que não há escolha nenhuma.

IMAGENS DE VIAGEM

Irei começar a colocar fotografias das minhas 2 viagens de Roterdão e de Amesterdão para o Porto a Pedalar por Casas Humanitárias, respetivamente em 2014 e 2015.


As primeiras fotografias foram tiradas no dia em que fez 100 anos o fim da 1ª Guerra Mundial. É um dos mais de 100 monumentos que fotografei em honra dos mortos nessa terrível guerra.


Atentem nos nomes e vejam quantos são iguais. Quantos irmãos e primos morreram por essas aldeias fora. Primeiro está o nome de família, depois a inicial do nome próprio. Vejam quantos morreram por aldeia! Quase todas as aldeias têm monumentos destes.


As outras imagens são de um cemitério de miúdos alemães (de 17 a 21 anos) mortos na mesma guerra. Em cada cruz estão 4 corpos, com nomes e datas da batalha em que morreram. Curiosamente, neste cemitério, cerca de 80% dos mortos foram-no a 2 de junho de 1917. 2 de junho é a minha data de aniversário.


Ambas as situações são próximo de Verdun (França), hoje considerado Centro Mundial da Paz. Quem cuida das campas são pessoas francesas, pois dizem que poderiam ser os seus filhos e aquelas quase crianças foram atiradas para a morte por um sanguinário. Já lá estive por 4 vezes. É arrepiante! O ar paira entre a paz e a guerra, é uma sensação impressionante. Estou a escrever e a arrepiar-me!


Passar lá em agosto, com um calor terrível, a lutar por crianças, sem água, é indescritível. Só quem passa por estas vivências as entende em plenitude.


Aprendi muito nestas viagens! Aprendi que não precisamos de muito, apenas de amor e de paz!

Cheira a cravos rubros o meu país de abril,

nasceu na noite, discreta,

na noite dos ideais,

noite desejosa de ser livre

e autêntica…

Ansiosa por chegar,

receosa por perder o comboio

da liberdade…

E foi com cravos rubros

que a história se escreveu …

Cada cravo uma sílaba,

cada gota do orvalho da manhã

um rio alegre a correr imparável

nos braços e nos abraços de quem passava.

Acordou assim, radiosa, essa manhã de abril,

a dos cravos que brotaram das mãos

da tão esperada liberdade, da alegria incontida…

Que a história se escreva com a tinta rubra desses cravos

e os ideais não findem…

Ainda há esperança naquilo em que acreditamos…

É abril ainda!

E abril será enquanto houver quem o queira ver florir

em cada gesto, em cada olhar,

em cada um de nós…

Em quem acreditar …

CHEIAS

O céu rasga a sua paz,

escurece o horizonte,

e o rio, como um monstro esquecido,

levanta-se, imenso, voraz.

As águas sussurram promessas de ruína,

invadindo as terras e engolindo os campos.

O vento é um lamento distante,

as árvores, de raízes trêmulas,

perdem a luta, e dobram-se ao peso

do que se ergue em fúria.

O rosto do homem é uma máscara de pavor,

enquanto as águas avançam,

arrastando tudo à sua volta.

E quando, finalmente, as águas se aquietam,

fica o silêncio de uma terra destruída,

restos de um mundo submerso.

As cheias vêm como um sonho assustador,

e vão como um pesadelo não contado,

deixando na memória

que o eco da natureza,

quando se zanga, é a dona do fim.

MAR QUE VESTE PORTUGAL

Nos meus olhos corre o mar

escorre-me areia dos dedos

as conchas de madrepérola

já sabem os meus segredos.

 

Este louco amor pelo mar

quero vivê-lo demais

perder-me em ti, oh meu Mar!

Em momentos imortais…

 

Nos meus olhos corre o mar

escorre-me areia dos dedos

as conchas de madrepérola

já sabem os meus segredos.

 

Mar de uma turquesa visceral

que adentra o meu coração

poisa em meus braços dormindo

sonho intemporal e lindo…

Mar que veste Portugal!

A menina e o milagre do prado 

Era uma vez uma menina chamada Marta. Vivia num lugar ermo e distante da aldeia, com o seu irmão Joselito, a mãe e uma cachorrinha chamada Fofinha. Marta sentia-se muito triste, pois não tinha as crianças da aldeia para brincar. Todas as manhãs, mal o sol despontava por detrás das montanhas, Marta e o seu irmão corriam pelos prados à procura de flores raras, que a mãe transformava em perfumes de aromas únicos para vender na aldeia.

Contudo, isso não era sinónimo de alegria no seu rosto de criança. Bem pelo contrário: uma profunda tristeza marcava a sua vida. Ela compreendia as batalhas e lutas da sua mãe, que sozinha enfrentava o mundo para lhes dar algum conforto, a ela e ao irmão.

Numa dessas manhãs, viu um animal estranho correndo pelo prado verde. Marta nunca tinha visto nada assim: da sua cabeça dourada projetava-se um feixe de luz que incidia sobre uma pequena rocha. Num breve instante sentiu medo. Mas, com a curiosidade própria de uma criança, aproximou-se lenta e cuidadosamente. Foi então que encontrou uma flor intensamente vermelha, da cor do sangue, que apanhou com receio. Dela emanava um perfume como nunca antes sentira.

Entusiasmada, correu para casa, onde a sabedoria e a magia da mãe criaram um perfume tão especial que passou a ser cobiçado para além da aldeia. Em pouco tempo, aquele perfume tornou-se famoso em todo o mundo. As dificuldades terminaram e Marta já não precisava de brincar apenas com o seu irmão. Vivo no seu pensamento e no seu coração permanece o misterioso animal que, um dia, transformou a sua vida para sempre.


Os "Cantores de Abril" referem-se aos artistas portugueses que, por meio da música de intervenção, combateram a censura e a ditadura antes de 25 de Abril de 1974, associando-se aos valores da liberdade e democracia. Nomes como José Afonso, Paulo de Carvalho, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho e Simone de Oliveira são marcos deste período.



Brigada Victor Jara é uma banda portuguesa criada em 1975. Começou como um grupo informal de jovens de Coimbra e tornou-se um dos mais duradouros e importantes grupos de música tradicional portuguesa.

O grupo mantém-se em atividade, tendo lançado o seu mais recente disco, a coletânea Ó Brigada, em 2015.

BARCAÇA_68

           Com naturalidade, a nossa Barcaça segue silenciosa ao longo do Mondego, levando até às suas gentes um pouco de nós, algumas memór...